Terça-feira, 26 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ARMAZéM LITERáRIO >

O centenário de um pensador livre

Por Fernando Eichenberg em 05/11/2013 na edição 771

O centenário de nascimento, na maioria das vezes, serve como data comemorativa para relembrar os feitos de um personagem mais ou menos ausente do cotidiano. No caso de Albert Camus, nascido em 7 de novembro de 1913, a efeméride apenas concentra uma presença que tem se mantido constante ao longo de décadas. O autor de “O estrangeiro” e “A peste”, ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1957, é um dos campeões de vendas de livros na França e tema onipresente nos programas escolares do país. Celebrado também no exterior, o Camus que rejeitava o rótulo de moderno e o status de filósofo é hoje definido como um pensador “contemporâneo” e “universal”, constantemente solicitado como fonte na busca de sentido para um mundo em crise de ideologias. Neste início de século XXI, seu conceito de revolta, considerado por muitos como a chave de seu pensamento, conecta-se com ideias dos movimentos dos Indignados e Ocupem Wall Street (deflagrados na Espanha e nos Estados Unidos, respectivamente), de manifestantes nas praças do Egito ou da Turquia e de jovens que têm saído às ruas em protesto no Brasil.

As ideias de Camus têm sido recuperadas politicamente pelos campos da direita e da esquerda, citadas na França tanto pelo ex-presidente conservador Nicolas Sarkozy, que sugeriu a transferência de seus restos mortais para o Panteão, como pelo socialista François Hollande, atual mandatário do país. Apontado como um incompreendido em sua época, marcado por suas polêmicas opiniões sobre a guerra de independência da Argélia, sua terra natal, e pelas divergências com o filósofo Jean-Paul Sartre (1905-1980), o romancista, dramaturgo e ensaísta Albert Camus, morto prematuramente aos 46 anos em um acidente de carro, em 4 de janeiro de 1960, não cessa de ser lido, debatido e redescoberto.

Crítico do capitalismo ocidental e do comunismo do bloco soviético, Camus sofreu ataques intelectuais de ambos os lados, sem jamais deixar-se influenciar. Essa seria uma das razões de seu sucesso hoje, defende Agnès Spiquel, presidente da Sociedade de Estudos Camusianos e colaboradora da edição das obras completas do pensador na célebre coleção Pléiade, da editora Gallimard.

– Descobrimos nele um espírito livre, que não se deixou aprisionar pelo debate ideológico. Um debate que hoje, com suas etiquetas prontas, não responde mais às exigências de nossa época. Na condenação de todos os totalitarismos, de Leste a Oeste, ele se recusou a ser reduzido a estereótipos. Por renegar a lógica de clãs, ele fala bastante ao mundo de hoje e atrai as pessoas. O reverso da moeda é que todo mundo pensa que pode utilizá-lo a seu favor – diz Spiquel.

A pesquisadora destaca a “sensibilidade libertária” de Camus na abordagem política. Ela atribui a boa receptividade de suas ideias entre manifestantes contra o poder instituído ao descrédito na política tradicional e à falência dos atuais sistemas ideológicos, incapazes de apresentar propostas para solucionar os problemas contemporâneos. Mas ressalta que Camus diferenciava a “indignação” da “revolta”:

– Para Camus, indignar-se não basta, é algo que pode permanecer apenas no nível emocional. Em “A peste” (1947) e “O homem revoltado” (1951), há a ideia de que a revolta deve criar uma comunidade ativa, uma ação coletiva precisa. Sei que no Brasil os jovens estão também bastante ativos. Em alguns países, passou-se da indignação à revolta camusiana.

Spiquel cita artigos recentes de pesquisadores americanos indicando que as ideias de Camus fundamentam hoje a recusa do terrorismo e também o que o governo dos EUA faz em nome da luta contra o terrorismo. Da mesma forma que refutava o colonialismo francês na guerra da Argélia (1954-1962), Camus também via práticas terroristas na resposta da Frente de Libertação Nacional (FLN, partido que lutava pela independência do país magrebino), diz Spiquel.

A questão argelina foi um dos pontos de discórdia entre Camus e Sartre. Na década de 1950, os dois eram vistos como símbolos de uma intelectualidade francesa que resistiu à ocupação alemã. Mas adotaram posturas distintas em meio à influência crescente do stalinismo na Europa e ao recrudescimento das lutas anticoloniais na África. Sartre alinhava-se aos comunistas e denunciava o imperialismo francês em países como a Argélia. Camus criticava o totalitarismo do regime russo e alertava que um movimento de independência argelina liderado pela Frente de Libertação Nacional poderia substituir a tirania francesa por outra forma de opressão.

Nesse contexto, Camus viu seu livro “O homem revoltado” (1951), que trazia críticas ao stalinismo, ser duramente criticado em um artigo no jornal “Les temps modernes”, dirigido por Sartre. Os dois trocaram farpas em artigos no periódico e romperam a amizade em público. Em seu último texto na polêmica, Sartre escreveu: “Você se tornou vítima de um ressentimento excessivo que mascara seus problemas internos”.

“Indignação prudente”

A postura de Camus sobre a independência da Argélia ainda provoca acaloradas discussões. Intelectuais argelinos trataram o escritor por muito tempo como um inimigo ideológico, e hoje há ainda muitos blogs que criticam suas posições na época. Mas, diz Spiquel, há também uma abertura a novas leituras, e hoje compreende-se melhor a célebre declaração de Camus de que, antes da justiça, defenderia sua mãe, mulher de origem espanhola que nunca viu a França e vivia num bairro pobre de pieds-noirs (a população francesa das colônias) em Argel, a capital da Argélia.

– Camus esperava por uma terceira via, sonhava com uma Argélia plural, não monolítica, sem o êxodo dos brancos. As pessoas diziam que era impossível essa coabitação no contexto em que se chegou, mas a experiência da África do Sul nos mostra que coisas assim talvez sejam possíveis – diz Spiquel.

Para ela, o fato de Camus não defender a independência num primeiro momento não significava que era a favor do colonialismo:

– Esta é a armadilha em que as pessoas caem: se você não está ao meu lado, está contra mim. Ele não era a favor do sistema colonial, mas não queria a independência sob a égide da Frente de Libertação Nacional. Ele não se enganou sob o aspecto totalitário da FLN. Historiadores dos dois países têm avançado nesta questão, mas ainda será preciso tempo para que se possa olhar para isto de outra maneira.

Para a organizadora da obra “Albert Camus contemporain” (“Albert Camus contemporâneo”), Dolorès Lyotard, Camus talvez não tenha compreendido na época a necessidade de a Argélia “possuir um nome próprio”. No entanto, ela defende, hoje, a sua atitude:

– Ele colocou uma questão que todas as revoluções devem se fazer. Ao dizer que escolheria sua mãe antes da resistência, em oposição à FLN, perguntava: “É justo que se massacre crianças e se mate a mais miserável das mulheres em nome de um argumento político?” Isto era algo que não podia ser ouvido na época. Hoje, se aceita mais facilmente, embora o dogmatismo persista. O meio intelectual de esquerda na França me parece ainda bastante anticamusiano nesta questão.

Lyotard critica a biografia lançada no ano passado pelo filósofo Michel Onfray, “L’Ordre Libertaire – La vie philosophique de Albert Camus” (“A ordem libertária – a vida filosófica de Albert Camus”), por fazer do escritor um “libertário e rebelde absoluto” e um “herói de uma nova moral política”. Ela destaca a importância da noção de limite no conceito camusiano de revolta.

– Ele diz que é preciso ser rebelde, estar na sedição, mas que há uma “intransigência extenuante da medida”. Revolução, não, mas a revolta, que deve encontrar sua própria limitação. Ele coloca a tensão entre a revolta e a medida, que é o mais difícil. Penso que é também uma das razões pelas quais Camus é redescoberto hoje.

Para Lou Marin, ensaísta e integrante do Centro Internacional de Pesquisa Anarquista (CIRA), Camus não é contrário à revolução, mas a considera como um desenvolvimento da revolta.

– É uma falsa interpretação pensar que ele substituiu a revolução pela revolta. Mas exige que a revolução permaneça fiel à revolta que a precedeu. São questões muito discutidas hoje pelos mais diversos grupos de militância social. Neste aspecto, Camus é bastante atual – diz, ao afirmar que o movimento ecologista antinuclear da Alemanha, do qual fez parte, recorreu às ideias de Camus como referência intelectual para justificar sua revolta.

Na obra “Albert Camus – Écrits libertaires” (“Albert Camus – Escritos libertários”), Marin reuniu textos do autor em publicações de correntes libertárias e anarquistas entre 1948 e 1960.

– Ele se aproximou do meio libertário no pós-guerra. Mas foram necessários cinco ou seis anos até que se reivindicasse como alguém ligado a este movimento. Somente em 1952, em artigos para revistas libertárias, escreveu “nós”. Ele mesmo disse que escreveu “O homem revoltado” para fazer avançar o pensamento libertário. Era um anarquista ético – define.

Jean-Pierre Barou conviveu com Jean-Paul Sartre, participou da fundação do jornal “Libération” e escreveu mais tarde “Sartre, le temps des revoltés” (“Sartre, o tempo dos revoltados”). Para ele, a atualidade de Camus está em seu pensamento político libertário, na defesa de ações diretas não violentas e do retorno da consciência do indivíduo. Ao mesmo tempo em que se diz espantado por Camus ser reivindicado por todos hoje na França, alerta que é preciso saber de qual Camus se está falando. Não ser de esquerda ou de direita não significa que ele negava a política, alega Barou.

– Os partidos políticos são construídos hoje como bunkers recortados do mundo. O movimento dos Indignados, por exemplo, supera as clivagens políticas, não está aliado a partidos, mas isto não quer dizer que a política acabou. Camus reclama o lugar da consciência, e seus engajamentos são os nossos de hoje, uma nova política que pense o mundo e a sociedade sem esquemas preestabelecidos.

Um dos principais líderes do movimento de Maio de 68, onda de protestos iniciada pelos estudantes que sacudiu a França, Daniel Cohn-Bendit, hoje deputado verde europeu, começou a ler Camus em sua adolescência, mas conta que só foi descobrir o lado libertário do pensador bem mais tarde, quando os ruídos da revolta de maio já haviam cessado.

– Maio de 68 foi um pouco o triunfo de Sartre. No início eu era bastante sartriano, mas depois fui muito tocado por Camus por seu aspecto mais reflexivo em relação às tomadas de posições mais peremptórias de Sartre – diz.

Cohn-Bendit, que lançou este ano o livro de provocativo título “Pour supprimer les partis politiques!?” (“Pela supressão dos partidos políticos!?”), admite que a influência de Camus foi muito forte para que ele próprio assumisse a sua via libertária.

– Ele conseguiu evitar a armadilha de ter de escolher entre os americanos e os russos, o imperialismo de um e de outro. Teve essa lucidez. Não é verdade quando se diz que era apolítico. Era, ao contrário, muito político. Hoje procuramos referências na análise política, e penso que podemos encontrar mais facilmente um quadro moral de reflexão em Camus do que em outros pensadores – defende.

Cohn-Bendit vê na vontade atual de superação das clivagens políticas tradicionais a veia libertária antitotalitária de Camus, mas aponta nuanças.

– Camus tinha uma indignação prudente, e vejo nos manifestantes de hoje uma indignação desesperada. A indignação pode ser o motor de um movimento, mas em política a prudência não é algo de todo ruim.

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Exposição sobre Camus tem troca de curadores e disputa política

O que seria da celebração do centenário de Albert Camus sem alguma polêmica? Como Jean-Paul Sartre não está mais vivo para contestar as ideias de seu ex-amigo, o embate ocorreu em torno da grande exposição em homenagem ao autor de “A queda” e “O mito de Sísifo”, na cidade de Aix-en-Provence. O projeto foi lançado em 2009, tendo Benjamin Stora, historiador especialista na guerra da Argélia, como curador. As turbulências começaram no ano passado, já com o roteiro aprovado. Em maio, Stora foi afastado do comando da exposição. Anunciado em julho como seu substituto, o filósofo Michel Onfray decidiu abandonar o projeto em setembro.

No livro “Camus brûlant” (“Camus ardente”, ed. Stock), que escreveu para dar a sua versão dos fatos, Benjamin Stora acusa as forças conservadoras da região, onde há forte presença do partido de extrema-direita Frente Nacional (FN), de querer impor à exposição uma linha política condizente com a nostalgia de uma Argélia francesa. “Social-democrata e libertário. Contra o sistema capitalista e o sistema soviético. Pela justiça na Argélia e contra a independência. Francês e argelino… Esta dualidade, paradoxal, que poderíamos qualificar de ‘estranheza’, nos parece caracterizar fortemente Camus. Por esta mesma razão, o escritor se encontra preso em lógicas de recuperação e de exclusão que desnaturam totalmente sua vontade de diálogo e de abertura”, escreve o historiador.

Para Antoine Gallimard, editor das obras de Camus na França, “parece haver problemas desde que foi evocada a transferência do pensador para o Panteão”, que acolhe em Paris os restos mortais de personagens ilustres.

– Se pensa que ele é consensual. Ora, ele não o é. E ninguém ousa dizê-lo – afirmou Gallimard numa entrevista.

Agnès Spiquel, integrante da equipe final da exposição, que acabou nas mãos do cenógrafo Yacine Aït Kaci, explica a polêmica por uma série de mal-entendidos, inabilidades e questões de ego, mas não descarta a interpretação política.

– Não se pode dizer que não tenha havido motivos políticos e ideológicos. É evidente, pois nesta região tudo é político e falseado – diz Spiquel.

Inaugurada no dia 5 de outubro num espaço de 300m2 na Cité du Livre, em Aix-en-Provence, a exposição “Abert Camus: cidadão do mundo”, aberta até 4 de janeiro de 2014, propõe uma “imersão sensorial” na obra do pensador, por meio de telas gigantes, palavras e frases soltas. Além da controversa mostra e de uma ampla programação de conferências e seminários, o ano Camus na França traz vários lançamentos editoriais, que vão desde a HQ “O estrangeiro”, de Jacques Ferrandez, até a correspondência inédita do pensador com Francis Ponge, Louis Guilloux e Roger Martin du Gard, publicada em três volumes pela Gallimard.

Em “Camus et le terrorisme” (“Camus e o terrorismo”, ed. Michalon), o historiador Jean Monneret se concentra em sua condenação do terror como sistema político e instrumento de guerra. Já Catherine Camus, filha do pensador, lançará no próximo dia 25 “Le monde en partage – Itinéraires de Albert Camus” (“O mundo dividido – Itinerários de Albert Camus”, ed. Gallimard), um álbum ilustrado que define como uma “geografia íntima”.

Catherine também não ficou livre de disputas por causa da maneira como gere o patrimônio do pai-escritor. Olivier Todd, que em 1996 lançou a biografia “Albert Camus, uma vida” (Record), acusa a herdeira de recusar a publicação de trechos de cartas e de promover uma “santificação” do pensador. Ela se defende argumentando que só permite a encenação de peças em sua integralidade e de cartas de forma cruzada, incluindo os dois missivistas. Quando vendeu os direitos de sua biografia para o cinema, Todd foi criticado por Catherine por não ter solicitado a sua autorização. “E por que o faria? É o meu trabalho, não?”, contestou o biógrafo.

A editora L’Herne acaba de dedicar um de seus tradicionais “Cahiers” ao autor franco-argelino, com uma coleção de textos conhecidos e inéditos sobre o homem e a obra, além de cartas, depoimentos e documentos. Entre estes, o mais curioso é um relatório do FBI sobre Camus. Um agente da organização, que seguiu o escritor em suas conferências por Nova York, em 1946, o descreve como um dos intelectuais “mais audaciosos de sua geração”. O espião também demonstra intimidade com sua literatura, descrevendo a obra de Camus como um convite para “viver com lucidez no absurdo, gozar a vida plenamente já que ela é privada de sentido, e desfrutar a liberdade máxima aqui na Terra pois não há liberdade eterna”. (Fernando Eichenberg, colaborou Bolívar Torres)

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ENTREVISTA / JEAN-FRANÇOIS MATTÉI

Camus: olhar incomum sobre a condição humana

Para o filósofo Jean-François Mattéi, Albert Camus sobressai-se hoje como um incomum pensador da condição humana, na invocação da revolta e do amor como caminhos possíveis para que o homem possa encontrar um sentido para a sua existência. Libertário, mas com o sentido da medida e do equilíbrio; refratário às ideologias totalizantes, mas confiante no ser humano; descrente na História, mas fiel à arte. Neste turbulento começo de século XXI, Camus mantém sua atualidade mesmo defendendo valores “fora de moda” como o “bem”, assinala Mattéi.

– Para Camus, no itinerário espiritual e intelectual do homem havia estes três estados: o absurdo, quando o mundo ou Deus não respondem às nossas expectativas; a revolta, quando nos rebelamos contra a ausência de sentido do mundo e da História, e o amor, que era para ele a coisa mais elevada que o homem poderia alcançar, um tipo de absoluto sem Deus – diz o filósofo ao GLOBO.

Autor e organizador de várias obras sobre o pensador, entre elas “Albert Camus – Du refus au consentement” (“Albert Camus – Da revolta ao consentimento”, ed. PUF) e a recente “Citations de Camus Expliquées” (“Citações de Camus explicadas”, ed. Eyrolles), Mattéi organizou este ano dois colóquios em torno do centenário e da atualidade do escritor.

Qual a razão do permanente sucesso intelectual de Camus?

Jean-François Mattéi – Creio que é porque Camus, muito mais do que qualquer outro filósofo no século XX, levou além o que remete à condição humana. Um pouco como sua amiga Hannah Arendt. Ele, como ela, estudou a condição humana em sua permanência. O que há de permanente no homem está no fato de que nasce, atravessa um mundo difícil de compreender, que é talvez absurdo, e vai morrer sem tê-lo desejado. Há uma finitude do ser humano, sobre a qual se debruçou Camus, como Heiddegger o fez na Alemanha nos anos 1930-40. Há um tipo de pensamento trágico da vida em Camus que contrasta com o pensamento de sua época, dos anos 1950, que acreditava na História. Camus não acreditava na possibilidade de dar um sentido racional à existência humana. Era, ao contrário, muito influenciado pelos trágicos gregos, como Ésquilo ou Sófocles, pelas peças de Shakespeare. Ele tem uma visão trágica da História, não somente porque o ser humano vai morrer, mas porque ele não compreende o sentido da existência. Isto é o absurdo: o divórcio entre a demanda de sentido e a ausência de respostas. Se não há respostas, é preciso que o homem invente um sentido pela revolta ou pelo amor.

Por que ler Camus hoje?

J-F.M. – Porque, curiosamente, vivemos neste início de século XXI uma época cada vez mais difícil, com crescentes inquietações políticas, militares, vide a guerra na Síria. Há um tipo de divórcio – uma palavra usada por Camus – não somente entre os países ricos e pobres, mas entre a exigência de felicidade do ser humano e a dificuldade de encontrá-la, apesar de todos os progressos da técnica. Há um tipo de pessimismo generalizado, sobretudo nos países ricos, nos EUA e na Europa, que contrasta com o que se esperava no século XIX, quando ainda se acreditava no progresso. Todo o século XIX foi bastante progressista, com Hegel, Marx, Comte. Pensava-se que todos os problemas seriam resolvidos. Percebemos no século XX, com duas guerras mundiais e a explosão atômica, que a felicidade, e mesmo a paz, não chegaram. E no século XXI, que avança nos progressos tecnológicos, se vê muito desemprego. Camus foi muito influenciado por Nietzsche, que introduziu no pensamento europeu a noção de niilismo, a ausência de crença. Mesmo as pessoas de esquerda e de extrema-esquerda hoje já não acreditam mais no progresso e na revolução. As pessoas de direita têm o liberalismo e o neoliberalismo como referência. Não há mais verdadeiramente ideologias e grandes sistemas explicativos do mundo à direita nem à esquerda. Não há mais sistemas de princípios substitutivos à crença no progresso, na História, na liberdade. Camus foi um dos raros a tentar encontrar, um pouco à maneira de Nietzsche, um sentido de substituição. Algo que não seria uma religião, uma ideologia, mas que abrisse uma possibilidade ao ser humano de se tornar criador. Ele dizia que não era nem escritor nem filósofo, mas um artista. Criou romances, ensaios poéticos, peças de teatro. Queria que a arte desse um sentido ao mundo, bem mais do que a política ou a filosofia.

Camus escreveu que “os únicos paraísos são aqueles que perdemos…”

J-F.M. – É uma frase de Marcel Proust que ele transformou levemente. Proust disse “o único verdadeiro paraíso”, e Camus retira a palavra “verdadeiro”. Ele pensa que o paraíso, que neste contexto quer dizer felicidade, está sempre atrás de nós. Não sabemos viver o momento presente e nos adaptar ao mundo de maneira que sejamos felizes. É um pouco como a expressão latina carpe diem, aproveitar o momento presente, adaptando-se ao mundo em que se vive. Esta presença no mundo é essencial para Camus, mas só a apreciamos quando está atrás de nós. Só compreendemos o amor quando o perdemos ou estamos próximos de perdê-lo. Para Camus, a História é secundária, e amar é amar o mundo. Ele nunca acreditou na História, seja ela hegeliana, marxista ou cristã. O mundo significa algo, mas sem nos dizer o que é. Isto é o absurdo para Camus. Em seus “Cadernos”, escreveu em 1950: “Nunca enxerguei muito claro em mim, mas sempre segui no instinto uma estrela invisível”. O tema da estrela que mostra o caminho é um símbolo cósmico que vemos em Pascal, Platão, Hegel, Heidegger. Camus tinha esta ideia de que para um homem conhecer o caminho de sua vida, o itinerário de sua existência deveria ter um sentido, e lamenta o niilismo em que vivemos depois que Nietzsche disse que Deus está morto. Pascal, que influenciou muito Camus, dizia que tudo o que não é Deus não pode preencher nossas expectativas. O ser humano espera sempre por algo, pode ser o amor, a felicidade, a alegria. Ele não pode se contentar em viver cotidianamente, como se dizia em 1968: “metrô-trabalho-dormir”.

O senhor fala de Camus como o único escritor de seu tempo com uma “abordagem cósmica”, ao contrário dos demais intelectuais, que tinham uma interpretação histórica.

J-F.M. – Por isso que ele foi muito mal compreendido na França até a sua morte, em 1960. Um pouco como William Faulkner, nos EUA, também um autor cósmico, no qual as paisagens, os rochedos, os animais, as estrelas possuem uma dimensão muito importante. A maioria dos filósofos franceses do século XX não falava do mundo, da natureza, do cosmos. Em “A náusea”, Jean-Paul Sartre tem vontade de vomitar quando vê a raiz de um castanheiro sair da terra em um jardim público. Sartre sente náusea quando vê a natureza. Camus, ao contrário, quando vê a natureza tem o sentimento de pertencer a um tipo de cosmos no qual se reconhece. Ele se banha no mundo. Isto era desconhecido nos anos 1940-50, e mesmo após os anos 1960.

Camus mantém sua popularidade intelectual apesar de defender valores que o senhor assinala serem hoje antiquados, como o “bem”.

J-F.M. – São valores old fashion, como diriam os ingleses, porque se tratam de modas intelectuais. Mas não são fora de moda se pensarmos na condição humana fora do meio intelectual de direita ou de esquerda. O fato de acreditar na revolta, no amor do mundo não é démodé para a grande maioria de nós quando refletimos sobre nossa própria existência. Percebemos que há valores, como o amor, que não são fora de moda. É verdade que intelectualmente há poucos autores, filósofos, escritores, artistas ou poetas que celebraram o amor no século XX. Hoje, o amor talvez esteja fora de moda porque os homens não sabem mais amar ou não conseguem entender o amor como uma demanda de absoluto. Desde os anos 1940, Camus, antes mesmo de publicar seus primeiros escritos, havia previsto que seu itinerário de homem, escritor e pensador passava por três estados, que chamava de ciclos. Para cada um destes ciclos deveria haver três tipos de criação: uma peça de teatro, um romance e um ensaio filosófico. O primeiro ciclo, do absurdo, tem como personagem mítico Sísifo. O segundo é o da revolta, com Prometeu como personagem central e simbólico. E o terceiro ciclo, o do amor, ele apenas começou, pois morreu em 1960, deixando inacabado o romance “O primeiro homem”, para o qual escreveu apenas 150 páginas. Seria um enorme romance, teria talvez entre 800 e mil páginas e atravessaria o século XX, num tipo de saga.

Como o senhor vê o destaque que vem sendo dado ao aspecto “libertário” de Camus?

J-F.M. – Tenho minhas reservas em relação à palavra “libertário” que foi relançada por Michel Onfray em sua biografia sobre Camus. Que Camus ama a liberdade é algo indiscutível, mas era um homem bastante rigoroso. Não era um libertário no plano da moral, do ensino ou da educação, alguém que aceita tudo, o álcool, a droga, o sofrimento, o sadismo. Se entendermos por libertário alguém que não estabelece nenhum limite à liberdade de ação do homem, Camus não era um libertário, pois era um filósofo do limite, da medida. Camus tenta manter o equilíbrio entre a rejeição e o consentimento, entre a medida e a desmedida. Não se trata de encontrar um equilíbrio estatístico ou banal, no sentido de um centralismo político mole entre a direita e a esquerda. Ele tenta simplesmente ver que as tensões que animam o ser humano – políticas, sociais, intelectuais, artísticas, religiosas etc – podem encontrar um equilíbrio. É um dos raros filósofos que falam da medida.

E sobre a sua tendência libertária na política?

J-F.M. – Ele não acreditava nos sistemas terminados em “ismo”, no comunismo, no socialismo, no capitalismo, no totalitarismo. Não acreditava nas construções intelectuais que tentavam universalizar um aspecto particular. O capitalismo funcionava em em alguns aspectos, mas não se pode generalizá-lo, nem tudo pode se tornar mercadoria. Da mesma forma, compreende-se no socialismo que é preciso haver uma repartição mais igualitária das riquezas entre os homens, mas não se pode tudo socializar, pois todos os excessos de socialismo total – seja na União Soviética, nos países do Leste Europeu, no Camboja ou na China – produziram sangrentos fracassos e execuções de milhares de pessoas. A cada vez que há um sistema totalizante, e Hannah Arendt diz mais ou menos o mesmo na mesma época que Camus, ele se torna totalitário. Camus também não acreditava no cristianismo, porque a cada vez que uma religião se instaura é para regular a totalidade das ações humanas. Ele não acreditava em sistemas de compreensão e transformação geral do mundo.

O nome dele tem sido lembrado hoje em manifestações de revolta no mundo. Por quê?

J-F.M. – Se Camus obtém sucesso hoje nos movimentos de revolta é porque compreendeu que a revolta era mais forte, intensa e radical que a revolução que tende a devorar seus próprios filhos. Como se viu na Revolução Francesa, em 1793, no período do Terror, um terrorismo totalitário de Estado que usou a guilhotina para eliminar milhares de pessoas. Camus entendeu muito bem que a revolução tende a matar seus próprios criadores, como se viu na Rússia, na China ou no Camboja. A revolta é salutar para ele porque permite ao homem se liberar de seus laços sociais, políticos e psicológicos, e é superior à revolução, mais radical, que termina por matar todos os adversários.

Ele se sentia geograficamente, fisicamente e intelectualmente um estrangeiro. Como explicar este sentimento?

J-F.M. – Ele diz isto várias vezes. Não por acaso seu principal romance se chama “O estrangeiro”. Ele tinha sempre o sentimento de se sentir estrangeiro em seu próprio país, a Argélia, onde nasceu, em relação aos árabes e aos outros homens. Um pouco como Mersault se sentia estrangeiro em Alger. Mas quando ele estava em Paris se sentia ainda mais estrangeiro, pois não era nem parisiense nem francês. Porém não se sentia estrangeiro em relação à Europa. Gostava de todos os grandes escritores e artistas: Leonardo da Vinci, Michelangelo, Beethoven, Mozart, Shakespeare, Cervantes, Stendhal, Nietzsche. Ele se reconhecia no grande pensamento europeu, mais do que no pensamento strictu sensu francês. (Fernando Eichenberg)

***

A atribulada passagem de Camus pelo Brasil

Bolívar Torres

Quando Camus embarcou para o Brasil, em agosto de 1949, já era um escritor famoso. Ao contrário de sua passagem pelos Estados Unidos, três anos antes, marcada pelo olhar suspeito de autoridades que o viam como um comunista perigoso, foi recebido aqui com homenagens oficiais e convites cerimoniosos. Por todos os lugares pelos quais passou, membros da intelligentsia local disputaram sua companhia e atenção. Tanta pompa e formalidade enfadaram o autor, que cultivava a vida simples. Foram seus problemas de saúde, no entanto, que transformaram a viagem num pesadelo. Deprimido e fraco, ele chegou até a pensar em suicídio.

– Ele teve uma recaída de tuberculose – conta ao GLOBO Agnès Spiquel, presidente da Sociedade de Estudos Camusianos. – Estava bastante diminuído do ponto de vista de sua saúde.

Camus documentou seus 48 dias no Brasil em seus “Cadernos de viagem”, publicados na França em 1978. Em nenhum momento ele escondeu seu incômodo e melancolia. São Paulo lhe pareceu “uma Orã de maior porte”. Cansado de ter que responder sobre existencialismo, chegou a ironizar: “Eu achava que São Paulo fosse uma cidade extraordinária, um fenômeno: ninguém tinha me feito esta pergunta ainda”.

Algumas de suas ácidas observações sobre a vida brasileira, como o espanto diante dos contrastes sociais (“favelas a cem metros do luxo” e dos palacetes) ou da violência do trânsito (“Os motoristas brasileiros ou são alegres loucos ou frios sádicos”) continuam atuais e dificilmente poderiam ser atribuídas apenas ao mau humor. Os respeitáveis membros do corpo diplomático que o acolheram, porém, ficaram perplexos com o fato de o escritor não ter evitado, em suas palestras, temas sensíveis e declarações polêmicas.

Para Camus, o Brasil é o “país da indiferença e da exaltação”. Mas nem tudo foi ruim. No Rio, descobriu o Teatro Experimental do Negro, a trupe de Abdias Nascimento que na época tentava encenar o seu “Calígula” sob uma perspectiva afro-brasileira. Ao assistir ao ensaio, Camus ficou admirado com os “romanos negros” e a nova direção que a peça ganhava com eles: “O que me parecia uma representação cruel e viva se tornou um canto lento e terno, vagamente sensual”. De positivo, o Brasil lhe rendeu ainda uma amizade com Murilo Mendes e os gracejos de uma moça com “olhos verdes de mãe malvada”. Já Oswald de Andrade o levou para visitar uma penitenciária. Camus conversou meia hora com um detento, e este lhe lançou uma frase que não poderia ser mais camusiana: “É a sociedade que faz o criminoso”.

– Camus, quando estava fora de seu meio natural, se sentia efetivamente um estrangeiro. Penso que deve ter se sentido um estrangeiro no Brasil – especula o filósofo francês Jean-François Mattéi.

Na companhia de Abdias Nascimento, o autor conheceu Duque de Caxias e os terreiros de candomblé, que lhe causaram forte impressão. Também partiu com o ator para uma noitada na gafieira Elite, no centro do Rio.

Com Oswald ele também viajou a Iguape, no interior de São Paulo, e presenciou a festa anual de Bom Jesus, ainda hoje popular. Durante os rituais, fiéis arrancam pedaços de uma pedra que, além de curar, continuaria crescendo de acordo com a fé de quem as leva. A lenda local inspirou um conto de Camus, “A pedra que cresce” (publicado em “O exílio e o reino”, de 1957), no qual ele descreve a procissão em detalhes.

Perguntado por telefone se, neste centenário, o município preparava alguma programação para marcar a passagem do pensador por lá, um funcionário da secretaria de Eventos pareceu intrigado. Pediu para repetir o nome do escritor.

– Camus? Olha, não estou sabendo de nada. Mas a pedra continua lá e, na verdade, ela nunca cresceu.

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Fernando Eichenberg é correspondente do Globo em Paris

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