Terça-feira, 02 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Algumas não-palavras sobre 1984, o ano que não finda

Por Rafael Rodrigues Lourenço Marques em 12/11/2013 na edição 772

É interessante como a compreensão da narrativa de um texto muda quando se lê pela segunda vez. Ou melhor, quando se lê o mesmo livro anos depois, após acúmulos de outras leituras. A experiência nos dá mais background ou mais links mentais para compreender os significados presentes em determinada obra. Recentemente, reli o livro 1984, do autor George Orwell e me surpreendi com a quantidade de possibilidades de articulações com a conjuntura social contemporânea.

A guerra de informações imanente à espionagem internacional; o jogo ideológico na mídia, que sutilmente impõe uma visão negativa sobre as recentes manifestações no Brasil, com a construção simbólica da figura do vândalo; a resistência em rede de grupos como o Mídia Ninja, como válvula de escape para os processos democráticos; a imagem – simulacro – substituindo as relações concretas e até a complexidade dos atos da fala. Nesta linha, o conceito da novilíngua, apresentado pelo autor, é um dos que mais chamam a atenção. Aniquilação de palavras, redução de significados e por consequência, de sentidos, de pensamento, de senso crítico.

A linguagem é assim: a escrita é ligada ao pensamento. Se não há dispositivos práticos para se representar, a mente atrofia. Associo este argumento à relação entre teoria e prática. Uma não faz sentido se não estiver acompanhada da outra. Nos nossos tempos, quando os processos comunicacionais em nossa sociedade passaram a ser condicionantes, quando as técnicas imanentes à internet são pré-requisitos para exercer cidadania plena, pensamos estar avançando no que tange a elaboração do conhecimento reflexivo.

Equilibremo-nos; nem tão virtual, nem tão real

Mas e quanto à linguagem – formação de representações – e o pensamento? Estão bem articulados nestes idos contemporâneos?

Se analisarmos sob a luz da obra de Orwell e por um viés apocalíptico, vamos perceber que junto à cultura digital vêm os sedutores atalhos. Com eles, a preguiça e o conformismo. Deixa-se de lado o analógico. A escrita e a leitura. Tudo tem que ser feito de forma rápida e rasteira. Textos curtos, o mais reduzidos quanto for possível. As pessoas, sobretudo os jovens, não têm mais paciência. Culpa deles? Não. Do sistema social que nos formata, em meio a um emaranhado viés ideológico. Um mecanismo complexo de sedução que engendra em nossa mente a ideia de que somos importantes, intelectuais. Uma artimanha do filme Matrix – que é claramente uma atualização de 1984 para os dias de hoje – que gera uma massa dócil, mais fragilizada que a descrita por José Ortega y Gasset, em seu livro A rebelião das massas.

Sabedoria a um teclar, consultando o oráculo, tal como faziam alguns povos primitivos: o Deus Google. E no Twitter, 140 caracteres para se expressar publicamente sobre um fato, uma questão. E a tendência é diminuir este número de signos para representar alguma coisa, alguém, ou algum acontecimento. Pierre Levy, em seu livro Cibercultura, nos ensinou sobre os remédios e venenos da sociedade digital. Lembremo-nos de não mergulhar tão profundamente no infinito oceano informacional da rede, sem antes nos aparamentar. Caso contrário, a pressão deste denso poço informacional tenderá a esmagar o que resta do espírito humano.

Equilibremo-nos. Nem tão virtual, nem tão real. Nem tão teórico, nem tão prático. Nem tão individual, nem tão coletivo. E por mais que os editores de texto sejam uma ótima ferramenta, não nos esqueçamos do lápis e do papel. Vamos equacionar, relativizar.

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Rafael Rodrigues Lourenço Marques é professor de Jornalismo, Cuiabá, MT

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