Domingo, 07 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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‘A arte maior é a poesia’

Por Marcos Caldeira Mendonça em 19/11/2013 na edição 773

Quase todos os jornalistas que publicam entrevista com Adélia Prado começam a apresentação do diálogo aludindo à bênção, e que bênção, dada por Carlos Drummond de Andrade à poeta de Divinópolis, na década de 70. Farei diferente, iniciarei por uma bela historinha – amigo leitor, favor considerar o começo desta abertura a partir do segundo parágrafo.

Adélia Prado lia poemas para uma plateia. Ao final, na fase das indagações, uma netinha dela levantou mão, indicando que também gostaria de participar, mas foi contida pela mãe. Terminado o sarau, a autora de Bagagem pediu à criança para fazer a pergunta que quis externar durante o evento. “É esta: vovó, a senhora vai dormir lá em casa hoje?” Ouro dezoito, poesia pura.

A seguir, em entrevista exclusiva, Adélia Prado responde por que prefere a vista “pomar” à vista “pro mar”; opina sobre a atabalhoada tentativa itabirana de criar o turismo drummondiano; propõe nova Conjuração Mineira; diz que mineiro profissional faz tanto estrago quanto a baianidade capitalizada e sentencia: sem professores bem pagos e boas escolas, o Brasil não decolará.

“Há no mundo”, ela diz, “uma falência de valores, um apetite do consumo do mais fácil, uma ignorância diplomada, uma desatenção programada”.

Filha de ferroviário, Adélia Prado enviou aO TREM um poema sobre trem.

Mineiro inventa tudo. Digamos que criou uma máquina por meio da qual é possível falar e ser ouvido por todos os brasileiros, simultaneamente. Se pudesse dizer uma verdade urgente por meio dessa estrovenga, o que todos escutaríamos?

Adélia Prado – Diria que iniciássemos um repeteco da Conjuração Mineira, que à custa da cabeça de Tiradentes rebelou-se contra os desmandos da Corte. Difícil é achar alguém disposto a liderança tão árdua. Fico pensando em uma coisa que, se for abraçada por todos, aconteceria sem sangue, a chamada desobediência civil. Onde seria a primeira reunião?

A senhora gosta muito de cinema. Não lhe parece que Minas Gerais poderia ter um cinema bem mais forte, que mostrasse mais a cultura do estado? Há tantos assuntos que dariam bons filmes. Para citar um só exemplo, a trajetória do jornal Binômio, repleta de lances extraordinários de coragem e criatividade. 

A.P. – Adoro cinema. Mas cultura não é “planejada”. Ela acontece quando os criadores encontram os pré-requisitos para produzi-la. Quem banca a arte? O Estado, os empresários? Mas antes disso é preciso cuidar das escolas, dos professores. Cuidar de verdade da educação. Ela sim descobre criadores e consumidores de arte com a qualidade que nos falta. Estado e empresariado não têm nada a ver com a cultura enquanto fenômeno criativo. De ambos se espera o dever, a obrigação, generosidade, inteligência e critério para oferecerem meios, pré-requisitos para que os criadores trabalhem com liberdade e dignidade.

Como vê essas mudanças todas causadas pela tecnologia: o que lhe tem feito bem e o que lhe causa desconforto?

A.P. – Não me causa um desconforto, mas sinto não ter habilidade para dominá-la. Água encanada, luz elétrica, louvado seja Deus! Máquina de lavar, maravilhas entre outras, que não vicia igual internet. Mas a cada invento temos que nos reinventar também para que a máquina não nos subjugue e continue funcionando como facilitador e não capataz. Acho que o deslumbramento passa, até que chegue coisa mais nova e o ciclo recomeça.

Nenhum leitor apaixonado por livros terá tempo suficiente para ler todas as boas obras. Essa limitação humana é uma angústia – ou pelo menos um aborrecimento – para a senhora?

A.P. – Nenhuma angústia, nenhum aborrecimento. A gente lê o que pode e está muito bom. Alguns clássicos, pelo fato de serem clássicos, suprem muito bem a demanda. E há alguns livros que são tão especiais que de tempos em tempos os relemos. Todo autor tem um grupo que o acompanha e para o qual diz alguma coisa importante. Deve ser assim que funciona.

Entrar para o panteão da poesia brasileira. A senhora se preocupa com isso, ou se preocupou em alguma fase?

A.P. – A minha única preocupação é oferecer o melhor apenas.

Como vê a literatura, se colocada na balança com outras artes: cinema, música, teatro, dança… Há arte maior? A literatura é a arte maior? 

A.P. – A arte maior é a poesia. Se ela não estiver no poema, na pintura, no cinema, na música, no que chamamos arte, podemos jogar fora o livro, o filme, o quadro, a música. Drummond disse: poesia, o perfume que exalas é tua justificação. A poesia deve ser o alvo de toda e qualquer obra de arte.

Nunca teve vontade de cronicar continuamente para jornais e comentar os fatos nacionais no calor das ocorrências, como fizeram e fazem outros poetas? 

A.P. – Não. Já fiz algumas poucas vezes, mas é muito cansativo. Não tenho talento jornalístico. Há quem faça isso à perfeição.

Ser poeta em um Brasil que quase não lê poesia lhe causa frustração?

A.P. – De jeito nenhum. Também sou brasileira e sei que todo mundo, mesmo que não leia, pode e muitas vezes acha em outro lugar sua experiência de beleza.

Uma questão estético-feminina. Por uma janela da redação dO TREM, sempre vejo mulheres que trabalham na mineradora Vale. Vão e vêm elas, enfiadas em sisudas botinas pretas, com bico de ferro. Mulher deve usar botina? Esse calçado masculino nos pés de uma mulher, ainda que seja por segurança nas empresas, não fere a “realização do feminino”?

A.P. – Nossa mãe! Se o feminino estivesse ligado às nossas botinas apenas, estaria tudo resolvido. Devemos ser femininas, não as nossas botas. De salto alto, meia fina e saia rodada, podemos nos revelar grandes viragos.

Por falar em Vale, às vezes penso que Minas se mudará para o estrangeiro, exportada em trens e navios. As riquezas minerais vão e ficam para nós montanhas carcomidas, paisagem destroçada, poluição ambiental, doenças… A compensação – empregos, royalties e desenvolvimento – não compensa tanto estrago. Que opinião tem sobre a mineração em Minas?

A.P. – De novo penso numa segunda Conjuração Mineira, em que as mulheres participariam não apenas como Marílias ou Bárbaras Belas.

Minas, infelizmente, ainda não é um estado leitor literário. Lê-se muito pouco aqui, como no Brasil todo. O que gostaria de ver os dirigentes políticos fazendo pela leitura em nosso estado?

A.P. – Para isso, só melhorando as escolas, tratando com carinho desde as cantineiras até os professores, com salários decentes. Claro, incluído aí revisão de currículos, tudo sob uma nova filosofia da educação.

Mineiro ama trem. Conhece alguma história boa que tenha no enredo o comprido veículo das rodas de aço? Se não tiver história, pode ser cena de filme ou trecho de obra literária, algo inesquecível para a senhora, filha de ferroviário.

A.P. – O melhor que tenho sobre o assunto é um poema que lhe mando ao fim da entrevista [ver abaixo].

O que na história de Minas Gerais mais a emociona?

A.P. – O modo interiorano de ver, sentir e fazer, do café à procissão, do nascer ao morrer.

Velho assunto, a diáspora mineira – até João de Minas foi para o Rio de Janeiro, esponja absorvedora de escritores das Montanhas. Mas não perguntarei por que não deixa Divinópolis – essa indagação deve lhe causar fastio. Aliás, a senhora disse no programa Roda Vivaque até pensa em se mudar de Divinópolis, mas para uma cidade menor. A pergunta, brincando um pouco com palavras, é esta: a vista “pomar” lhe é mais tocante que a vista “pro mar”?

A.P. – O mar me dá medo com sua grandeza. O pomar me descansa na sua miudeza.

Em entrevista com o cronista e biógrafo Humberto Werneck, ele me falou, infelizmente sem citar nomes, sobre os “mineiros profissionais”. Acredito que se referia àquele que faz do ser mineiro uma grife e capitaliza o status da mineiridade. Percebe isso também? O que acha deles, os mineiros profissionais?

A.P. – Humberto Werneck está certíssimo. Mineiro profissional faz tanto estrago quanto a baianidade capitalizada. Ser mineiro ou baiano só tem graça no contexto da brasilidade. Separado, pode ser uma gafe. 

A senhora esteve em Itabira duas vezes: em 1999, para participar de um fórum drummondiano, e em 2004, na reabertura da casa-sede da Fazenda do Pontal. Como foi estar na cidade do poeta que tanto admira? Há algo na cidade que a tenha marcado fortemente?

A.P. – Sim, fiquei marcada com um modo de tristeza que respirei em Itabira. Seria mesmo a cidade ou a melancolia era minha?

Fala-se muito nessa melancolia itabirana. Uma das causas, aponto, é a nossa tristíssima paisagem, com montanhas destruídas pela empresa Vale, que deixa a cidade com o íntimo às escâncaras. Com a palavra, ólogos e istas. Prosseguindo: a senhora disse em Itabira, em 2004, que Drummond é do tamanho de William Shakespeare. Emoção por estar em Itabira, em noite drummondiana, ou mantém o dito?

A.P. – Mantenho. São dois clássicos.

Claro que ter sido abonada por Drummond foi uma alegria e grande incentivo, mas não há um lado um pouco chato nisso, o do carimbo? Em todas as aberturas de entrevistas com a senhora, por exemplo, os jornalistas lembram: Adélia Prado foi abençoada por Drummond e tal e tal.

A.P. – A pergunta volta e eu penso: nunca vou ficar veterana se, após três décadas de publicação, ainda se admiram de que uma dona de casa faça poesia. Graças a Deus!

Itabira tenta, confusamente, se tornar turística usando Drummond como principal chamariz – há cinco estátuas do poeta em praça pública. O que acha de uma cidade se capitalizar à custa de um poeta?

A.P. – Itabira não precisa disso. Drummond detestaria. Ele ter nascido em Itabira já consagra a cidade. Descansai, itabiranos, a poesia desaprova o esforço.

No Brasil, falam em inclusão disso, inclusão daquilo… Não está faltando a inclusão poética? Afinal, como a senhora disse, “sem a poesia corremos perigo”.

A.P. – Sim, corremos o perigo da desumanização. Há outra fome que não a de pão.

Como vê esses milhões e milhões e milhões que não têm o hábito da leitura, preferem gastar vida com novelas péssimas da TV Globo – raríssimas as boas – e não se beneficiam da grande diversão que é a boa leitura? Tem dó desse rebanhão?

A.P. – Tenho desgosto de quem se aproveita da fome de vida simbólica do povo e lhe oferece a péssima comida enlatada em novelas, humorísticos e programas religiosos que passam a léguas do que chamaríamos beleza, sensibilidade, emoção. Tanto lixo está cobrando alto o preço da vulgarização da vida e dos costumes. É hipocrisia dizer que o povo gosta disso. Claro, quem só conhece o pior e nem sabe de comida boa continua matando a fome com proteína vazia e algumas vezes envenenada.

Tem esperança de ainda ver o povo brasileiro equipado intelectualmente para participar com a necessária energia da política do país – e parar de eleger canalhas que deviam estar na cadeia, como alguns deputados e senadores?

A.P. – Esperança tenho sim. Sem esperança, não posso chamar cristã. Espero e rezo, rezo e espero.

Eu disse no Bar do Tatado, em Itabira, que iria entrevistar a poeta mineira Adélia Prado e perguntei se alguém gostaria de fazer uma pergunta. Toda Noite, assíduo frequentador, como o nome denuncia, mandou esta: “Dona Adélia, um poeta escreve um poema sublime e os brasileiros nem se dão o trabalho de lê-lo. Um cantor de quinta faz uma musiquinha péssima, atrai multidões e ganha rios de dinheiro. O Brasil é um país doente?”

A.P. – Poema sublime aprendo a apreciar na escola. Musiquinha péssima é fácil, não dá trabalho e dá dinheiro. Esse fenômeno não é só brasileiro. Há no mundo uma falência de valores, um apetite do consumo do mais fácil, uma ignorância diplomada, uma desatenção programada para que consumamos novidades sem gastar tempo e ao mesmo tempo desperdiçá-lo. A musiquinha, o livro digestivo de autoajuda e por aí vai. Já é uma epidemia cultural, do livro ao sanduíche, tudo pré-cozido. É doença, sim. Uma doença da alma.

O que perde quem ainda não leu os livros de Adélia Prado?

A.P. – Apenas a chance de gostar ou não.

Se pudesse dialogar com um brasileiro morto, de qualquer século, qual seria e sobre o que conversariam?

A.P. – Com Guimarães Rosa, sobre a dúvida metafísica do jagunço Riobaldo.

( ) A literatura muda o mundo. ( ) A literatura não muda o mundo. Onde marca o xis, e por quê?

A.P. – Não arrisco nenhum xis. Mudar o mundo? Não sei. Muda pessoas.

Às vezes, uma pergunta bobinha suscita ótima resposta. Se pudesse dar um presente ao Brasil, qual seria?

A.P. – Boas escolas para todo mundo. Professores felizes e bem pagos.

Vejo no Brasil escritores bons e ótimos, mas escondidos, sem divulgação de suas obras; e, por outro lado, ruins e péssimos incensados, tratados como se fossem gênios. O que está errado?

A.P. – Em primeiro lugar, isso está errado. Por que acontece? Nascemos com o mal em nós e o capitalizamos como autores, editores e leitores quando em sã consciência escolhemos o sucesso antes da qualidade.

Nunca sentiu vontade de contribuir no plano governamental para que Minas vire estado de leitores? Ser secretária da Cultura, por exemplo, e abrir bibliotecas Minas afora, uma em cada bairro, cada povoado, nas brenhas mais distantes.

A.P. – Seria péssima funcionária, e abrir bibliotecas em cada bairro pode ser uma festinha inócua. De novo insisto na educação de base, em boas escolas. Disso sim, precisamos como do ar que respiramos.

Quase ninguém mais no Brasil fala entrega em domicílio, mas delivery. As lojas anunciam: 20% off. A mecânica do Dodô virou Dodô Car. As crianças falam bikeem vez de bicicleta. Em uma cidadezinha do interior, já li stop no asfalto em vez de pare. Que opinião tem sobre essa invasão da língua inglesa em nossa cultura?

A.P. – Nada muito desastroso em chamar uma bicicleta de bike e fazer happy hour, fora ser um pouquinho pernóstico. Seria até inocente se fôssemos não apenas um país, mas uma nação que prezasse a língua que fala. Se todo mundo sabe escrever corretamente um recado, não há mal nenhum em brincar com outras línguas. Gostaria demais de falar inglês e, por estar quase no fim, good bye.

Para terminar com leveza, conte-nos, por favor, uma história alegre, inspiradora, vivida pela senhora.

A.P. – Uma vez, numa leitura de poemas, quando as pessoas fazem perguntas ao final, minha neta Bibi, muito pequena ainda, levantou a mão para perguntar também. A mãe cochichou-lhe qualquer coisa do tipo: fique quietinha, só gente grande pergunta. Ao final perguntei à menina: o que você ia perguntar à vovó? Ela respondeu: se você ia dormir lá em casa.

Ótima historinha para encerrar esta entrevista. Obrigado pelo papo.

A.P. – Marcos, um abraço, e quero dizer-lhe que há muito tempo admiro a qualidade dO TREM Itabirano. Muito obrigada.

***

Divinópolis

Adélia Prado

As hastes das gramíneas

pesavam de sementes

sob uma luz que,

 asseguro-vos,

nascia da luz eterna.

Quis dizê-la e não pude,

ingurgitada de palavras

 minha língua se confundia.

Cantei um hino conhecido

 e foi pouco,

disse obrigada, Deus

 e foi nada.

Em meu auxílio

meu estômago doeu um pouco

pelo falso motivo

de que sofrendo

 Deus me perdoaria.

Foi quando o trem passou

uma grande composição

 levando óleo inflamável.

Me lembrei de meu pai

 corrompendo a palavra

 que usava só para trens,

dizendo “cumpuzição”.

O último vagão na curva

e passa o pobre friorento de

 blusa nova ganhada.

Aquiesci gozosa,

 a língua muda,

 a folha branca,

 a mão pousada.

******

Marcos Caldeira Mendonça é editor d’O TREM Itabirano

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