Terça-feira, 26 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Dia do Professor em época de eleição

Por Gabriel Perissé em 19/10/2010 na edição 612

O Dia do Professor deste ano coincidiu com a disputa em segundo turno pela Presidência da República. Sem esta circunstância em jogo, os candidatos Dilma e Serra não se sentiriam chamados a se manifestar, pelo menos em tenso clima de campanha, sobre a realidade e o futuro da educação. A duas semanas da decisiva votação, como pretendem nos convencer de que é possível uma educação de qualidade no Brasil? E como vão conquistar os professores brasileiros, uma das categorias mais (romanticamente) louvadas em sua data comemorativa e tão desvalorizada ao longo das últimas décadas, do ponto de vista profissional e salarial?


Entre as grandes contribuições de José Serra para as escolas de São Paulo aponta-se a ideia de que haja ‘duas professoras’ nas salas da 1ª série do ensino fundamental. Não se esclarece, porém, o que em outros momentos Serra admite. Que se trata, não de uma segunda professora, mas de uma estudante universitária que recebe uma ‘espécie de bolsa’ (cf. entrevista para o programa Roda Viva, em 21/06/2010). Uma ‘auxiliar’ sem experiência, em situação tão ou mais precária do que a dos milhares de professores temporários na rede de ensino estadual de São Paulo (ver, neste Observatório, meu artigo ‘O temporário e o precário‘).


O programa do PSDB no dia 15 de outubro, veiculado no rádio, quis descolar Dilma da performance petista: ‘Não consegui lembrar nada que a Dilma tenha feito pela educação’, disse um dos locutores. E a outra respondeu: ‘É que ela mesma realmente não tem mesmo nada pra mostrar.’


Condições de trabalho


No mesmo dia 15, na TV, a propaganda de Dilma mencionou, com relação à educação, que a futura presidenta pretende construir muitas creches e escolas, além de criar mais escolas técnicas. No rádio, a mensagem de Dilma foi objetiva e sóbria: ‘Não basta celebrar o mestre, mas sim, valorizar de fato o seu trabalho, garantindo formação continuada e remuneração digna.’ E sobre isso insistiu, quase com as mesmas palavras, ao despedir-se no debate do dia 17 de outubro, pela Rede TV.


José Serra proclama ter ‘carinho pela educação’, coisa que os docentes desmentem, em especial os que trabalham em São Paulo e experimentam há quase duas décadas o ‘carinho’ do PSDB, incluindo os cassetetes dos policiais. Um crescente número de professores universitários, de instituições públicas e privadas, acaba de lançar um manifesto, cujo texto começa assim:




‘Nós, professores universitários, consideramos um retrocesso as propostas e os métodos políticos da candidatura Serra. Seu histórico como governante preocupa todos que acreditam que os rumos do sistema educacional e a defesa de princípios democráticos são vitais ao futuro do país.’


A Folha de S.Paulo, que apoia as medidas do governo do PSDB na área educacional, mostrou-se preocupada no principal editorial deste domingo (17/10), ‘Estresse na escola’:




‘A última sexta-feira, Dia do Professor, não foi data para muita comemoração. A educação no Brasil vai mal, já se aprendeu. Mas nem todos sabem, ou querem saber, que os docentes também participam dessa tragédia nacional como vítimas.


‘[…] A deterioração dos relacionamentos em classe tem como sintoma mais visível o estresse dos professores – alguns deles submetidos a situações extremas, como ameaças de morte.


‘Por mais que se imagine a ocorrência de abusos na concessão de licenças médicas por problemas emocionais, os números chamam a atenção. De janeiro a julho deste ano elas chegaram a 19.500 na rede estadual de São Paulo.


‘[…] O governo estadual precisa fazer algo a respeito, mas o alcance de sua ação é limitado. Seria um bom começo melhorar as condições gerais de trabalho, aprofundando as políticas de reduzir a um mínimo as vagas de professor temporário e de valorizar a função, por meio de aumentos na remuneração básica ou de prêmios por desempenho e requalificações.’


Mais empenho com trabalho de Haddad


Se depender do ‘carinho’ do PSDB pela educação, esse estresse aumentará, com a volta de Geraldo Alckmin, agora sem a ajuda de quem foi outrora seu afilhado político, o ex-secretário da Educação Gabriel Chalita, que contrabalançava, com a visão de mundo ‘cançãonovista’, a truculência típica da direta ‘católica’.


Na hipótese de Serra vencer, o modelo paulista será transplantado para todo o país. O MEC voltará para as mãos de Paulo Renato Souza. O bônus (ver meu artigo ‘Mais ônus do que bônus‘, neste OI) e a auxiliar na sala de aula, medidas tacanhas e insuficientes, serão implantadas Brasil afora. Teremos na educação um triste passado pela frente!


Por seu lado, Dilma tem a seu favor as realizações do MEC, à frente do qual Fernando Haddad está entre os ministros que mais contribuíram para a boa avaliação da gestão Lula. A luta pelo piso salarial mínimo do professor, o ProUni e a criação e expansão das universidades federais são algumas das muitas iniciativas que a candidata do PT deveria divulgar com mais ênfase, reações positivas à queda de qualidade do ensino a que assistimos desde a década de 1980.


Dilma teria de apropriar-se com mais empenho do trabalho de Haddad. Sua assessoria considera essa questão menos relevante? Se eleita, terá de confiar em alguém à altura do que o atual titular da pasta realizou desde 2005. Esse trabalho de cinco anos ainda trará boas notícias até o final de 2010, como a oficialização do esperado Exame Nacional de Ingresso na Carreira Docente.

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Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br

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