Sábado, 11 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ARMAZéM LITERáRIO >

Diálogo mais ou menos desorganizado

Por Fabio de Oliveira Ribeiro em 22/06/2010 na edição 595

O livro de Umberto Eco, Jean-Claude Carrière e Jean-Philippe de Tonnac não pode ser resenhado. Como resumir a infinidade de informações preciosas e desnecessárias que povoam quase todas as páginas da obra? Que critério usar para selecionar as ideias principais de um livro que trata de livros, de internet, de história, de literatura e de muito mais?

Não contem com o fim do livro trata de livros que existem, de livros que nunca existiram, de livros que não precisam ser lidos e de livros que desgraçadamente não poderemos ler porque deixaram de existir. Trata de escritores conhecidos e esquecidos, de colecionadores sortudos e maníacos, de homens que fundaram e que queimaram bibliotecas.

O livro é um diálogo mais ou menos desorganizado entre Eco e Carrière, mediado por Tonnac com bastante elegância. Quando os titãs da literatura e do cinema se desviam do tema, Tonnac os reconduz aos trilhos com a tranquilidade de um expert em homens e livros.

O livro é divertido demais para ser perdido

A obra trata dos livros e dos leitores, dos inimigos dos livros, das esperanças e desventuras dos colecionadores, dos encadernadores, de homens verdadeiros que são considerados personagens por alguns e de personagens que outros juram que existiram de verdade. Para os três, o livro e a roda são invenções que não podem ser melhorada. Não podem ser melhoradas nem pela internet, condenada a conviver com o livro tanto quanto o isqueiro está condenado a conviver com o fósforo. Quando Eco e Carrière criticam de maneira mais ou menos teórica a internet e os computadores, é impossível não rir dos jornalistas que fazem a apologia desmedida do mundo virtual.

O livro e a roda não podem ser melhorados, mas podem ser piorados. E os autores mostram que o livro certamente o foi, não pela forma e sim pelo conteúdo. Entretanto, Não contem com o fim do livro é bastante democrático. Livros medíocres e leitores intolerantes parecem não incomodar Eco e Carrière. Ao longo das páginas mais divertidas da obra ambos fazem o elogio do erro, do absurdo e do preconceito que povoam as páginas dos livros e que despovoaram bibliotecas. Eles fazem um justo tributo ao livro como objeto digno de ser no mínimo colecionado e, nesse sentido, mesmo um livro ruim é um livro.

A leitura é agradável porque este livro-conversa vai cativando lentamente a atenção do leitor. As surpresas são muitas e as ironias a que os livros, escritores e leitores estão sujeitas parecem ser inesgotáveis como o repertório de histórias que Eco e Carrière tem para narrar. O episódio envolvendo o colecionador de livros brasileiro José Mindlin, contado na obra, é exemplar.

Mindlin foi a Europa comprar uma edição rara de um autor brasileiro, pagou uma pequena fortuna pelo livro e o esqueceu no avião quando desembarcou no Brasil. No caso de Mindlin a aventura da caçada ao tesouro literário parece ter sido mais interessante do que o objeto adquirido (e esquecido no assento de um avião como um livro qualquer). O objeto produzido por Eco, Carrière e Tonnac, publicado no Brasil pela Record, também proporciona uma aventura maravilhosa pela história dos livros, dos escritores, dos colecionadores e leitores. Mas quem começar a ler Não contem com o fim do livro certamente não vai esquecê-lo na poltrona de um ônibus, trem ou avião. O livro é divertido e interessante demais para ser perdido antes de lido até o final.

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Advogado, Osasco, SP

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