Quinta-feira, 28 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ARMAZéM LITERáRIO >

‘É gostoso ter saudade de Minas’

Por Marcos Caldeira Mendonça em 01/02/2011 na edição 627

Eis um dos principais mandamentos do Manual de Jornalismo de O Trem: ‘Tenha pena do atarefado leitor. Só entreviste quem tem o que dizer, não gaste tempo, tinta, tecla de computador e papel (que é árvore, não se esqueça) com cacholas vazias ou cheias de nada’. Nessa linha, e para abrir os trabalhos em 2011, esta locomotiva puxou conversa com o belo-horizontino Humberto Werneck, talentoso cronista, biógrafo e jornalista, com passagens por importantes redações – Jornal da Tarde, pelo qual foi correspondente em Paris, Jornal do Brasil e revistas Veja, IstoÉ e Playboy. Desde dezembro de 2010, escreve crônicas aos domingos no caderno Metrópole do jornal O Estado de S. Paulo. ‘Os leitores, não sei, mas o cronista está adorando’, disse, jocosamente, a O Trem.

Nascido em 1945, está em São Paulo desde 1970. O começo foi como jornalista no Suplemento Literário do Minas Gerais, levado pelo contista Murilo Rubião. É autor, entre outros, dos livros O Desatino da Rapaziada – Jornalistas e Escritores em Minas Gerais (Companhia das Letras/Instituto Moreira Salles), O Santo Sujo – a Vida de Jayme Ovalle (CosacNaify), prêmio de melhor biografia do ano concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, e O Pai dos Burros – Dicionário de Lugares-Comuns e Frases Feitas (Arquipélago).

Pelo menos, uma mentira

Na entrevista a seguir, exclusiva, Humberto Werneck fala sobre o ofício de cronicar, internet e o anunciado fim do jornalismo em papel, Carlos Drummond de Andrade, ‘um sábio sentado a meu lado num meio-fio’, e Minas Gerais, entre outros assuntos. Ele descarta a possibilidade de se enveredar pela poesia como autor e explica o que são os ‘mineiros profissionais’, categoria que chama de patética e que diz abundar no Rio de Janeiro, em São Paulo e no Congresso Nacional. ‘Não me peçam exemplos.’

Sobre leitura no Brasil, diz ser preciso extinguir o ‘temor reverencial’ com que muitos veem o livro. ‘Brasileiro parece ter medo de livraria, vista tantas vezes como um intimidador templo do saber. Seria bom se a frase `Eu tenho que ler´, frequentemente carregada de sentimento de culpa, desse lugar a `Eu quero ler´, carregada de desejo e prazer.’

Uma mentira, no mínimo, há nas respostas do escritor mineiro. Humberto Werneck disse que ninguém perderia nada se ele não escrevesse. Perderia, sim, perderia um texto gostoso de ler, bem-humorado e que enriquece culturalmente.

***

A categoria patética de mineiros profissionais

Mineiro inventa cada uma. Digamos que um nosso conterrâneo inventou um aparelho pelo qual é possível falar e ser escutado simultaneamente por todos os brasileiros, mas o equipamento é imperfeito: só funciona uma vez, depois se desintegra. Se fosse usá-lo para dizer duas verdades urgentes, o que todos escutaríamos?

Humberto Werneck – Eu tomaria de empréstimo uma recomendação do poeta, psicanalista e genial louco manso Hélio Pellegrino, nosso coestaduano: ‘Quem de si faz alarde, cedo o rabo lhe arde!’ Recomendaria também, como diretriz de vida, o que ouvi outro dia do fotógrafo carioca Paulo Leite, e que já adotei para mim: ‘Um pé na terra e outro na jaca!’

Mineiros das letras. Do lado de lá, temos Eduardo Frieiro, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Cyro dos Anjos, Roberto Drummond, Guimarães Rosa, Oswaldo França Júnior, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Fritz Teixeira de Salles, Murilo Rubião, Bernardo Guimarães, Wander Piroli, Emílio Moura, Adão Ventura… Do lado de cá, temos você, Affonso Romano de Sant´Anna, Jaime Prado Gouvêa, Autran Dourado, Silviano Santiago, Bartolomeu de Queirós, Sebastião Nunes, Ronald Claver, Alcione Araújo, Ruy Castro (se é que Ruy Castro pode figurar num rol de mineiros), Rui Mourão, Adélia Prado, Ziraldo Alves Pinto, Fábio Lucas… Em qualidade literária, qual lado ganha?

H.W. – O primeiro time, lógico. Mas a gente torce para que o segundo, a bem de todos, iguale o marcador…

O que é isto: ser mineiro?

H.W. – Fernando Sabino dizia que é não falar no assunto. Me considero um mineiro não-praticante, e não só por ter dois costados cariocas e viver fora de Minas faz quarenta anos. Gozado: enquanto vivi em Minas, não me lembro dessa conversa de ser mineiro. Ninguém se preocupava com isso. Ao contrário do que se passa em São Paulo ou no Rio de Janeiro, onde esse é um tema, constantemente alimentado por essa categoria patética que chamo de mineiros profissionais.

Drummond não aprovaria

Epa, boa provocação. O que são os mineiros profissionais?

H.W. – O mineiro profissional vem a ser um mineiro que não vive em Minas e que, à distância, ajuda a alimentar e propagar o mito da tal mineiridade, vendida como uma condição superior, feita só de qualidades – como a desconfiança, que a mim me parece mais um defeito. Não me peçam exemplos. No eixo Rio-São Paulo há um punhado de notórios mineiros profissionais, é só prestar atenção. No Congresso Nacional também há.

Por que cascou fora de Minas Gerais, e como lida com essa lâmina perfurocortante chamada saudade?

H.W. – É uma delícia sentir saudade de Minas. Algo que aí seria impossível.

Em nossa redação, temos um jovem aspirante a cronista que, ao saber que faríamos esta entrevista, pediu: ‘Por favor, perguntem ao Humberto que conselhos ele dá a alguém que deseja ser bom cronista como ele.’ Perguntado está.

H.W. – Quem sou eu pra dar conselhos? Mas vamos lá. Fugir da solenidade, da grandiloquência, da impostação, do didatismo, do comentário, do editorial, do tom edificante. O cronista tem mais chance de cativar o leitor quando envereda por uma conversa boa. Como disse o Antonio Candido, uma conversa aparentemente fiada…

Como O Trem é sediado em Itabira, esta pergunta é obrigatória a todo entrevistado: e Carlos Drummond de Andrade? Fale-nos um pouco sobre a obra do itabirano. O que gosta, o que não gosta?

H.W. – Todo mundo tem o seu poeta e dou a sorte de que o meu seja o melhor que já tivemos. Digo ‘meu’ porque Drummond sempre me socorre, não como referência literária, mas como referência de vida – um sábio sentado a meu lado num meio-fio. O que mais gosto dele vai até Lição de Coisas [lançado em 1962], inclusive. Daí em diante, ele lasseou um pouco, o que é natural quando se envelhece. Acho que Drummond não aprovaria a publicação póstuma de uns fundos de gaveta – assim como odiaria, tenho certeza, estar convertido em bronze na praia de Copacabana e na rua Goiás, em Belo Horizonte.

Aprendi um palavrão: bedamerda

Em Itabira, há quatro esculturas do poeta em locais públicos, colocadas pela prefeitura – um absurdo.

H.W. – Como disse alguém: se ele estivesse vivo, já estaria morto… Estive com Drummond algumas vezes, mais demoradamente para entrevistá-lo para as ‘páginas vermelhas’ da IstoÉ, em 1985. Aqueles encontros me ressarciram da frustração de não ter me recebido quando cismei de fazer com ele uma matéria de capa para a Veja, nos seus 75 anos. Na época, não recebia ninguém. Se começou a receber, mais adiante, foi por causa do Vinicius de Moraes – mas isso é uma história que talvez não caiba aqui. Não me recebeu, mas quando a revista saiu ele enviou um telegrama que ainda hoje me deixa, digamos, de ego duro. Estive com Drummond também no Sabadoyle [encontros literários na casa do advogado e bibliófilo Plínio Doyle, no Rio de Janeiro], algumas vezes. Em todos os encontros ele foi simpático, divertido, cooperativo e, sem derramamento, acolhedor. E surpreendente: eu não sabia da espontaneidade – e a pertinência – com que ele dizia palavrão.

Quais?

H.W. – Ele usava os triviais, sem abuso nem economia. Insisto: com muita pertinência. Tem um que aprendi com ele: bedamerda. Mandar alguém à bedamerda. O poeta achava que a palavra se formou a partir de ‘beber da merda’. Vá beber da merda! – já pensou? Não é bem o que diz o dicionário Houaiss, no qual bedamerda aparece como sinônimo de joão-ninguém. Mas também aqui sou mais o Drummond.

A burrice toma o poder

Entre os três livros que o marcaram profundamente, você coloca O Encontro Marcado (Fernando Sabino), O Estrangeiro (Albert Camus) e Claro Enigma, de Drummond. Por que essa obra do itabirano o tocou tanto?

H.W.Claro Enigma é o Drummond chegado à maturidade, depois de ilusões, embates, engajamentos e decepções de juventude. Discutia isso outro dia com o Ferreira Gullar. Ele acha que o melhor Drummond é o de A Rosa do Povo – um livro altíssimo, nem se discute. Mas sou mais, insisto, Claro Enigma – a partir do que anunciam o título, a epígrafe de Paul Valéry (‘Os acontecimentos me entediam’) e aquele poema, ‘Dissolução’, que abre o livro: ‘Vazio de quanto amávamos, mais vasto é o céu.’ Uma vastidão, parece dizer Drummond, que podemos povoar também com a esperança.

Se fosse nomeado ministro da Cultura – pronto, agora perdemos o talento de Humberto Werneck para a burocracia –, o que faria para aumentar o número de leitores neste país?

H.W. – Só um insensato me entregaria o Ministério da Cultura. O da Natureza, quem sabe… Eu buscaria, de todas as formas, trazer o livro para dentro da vida das pessoas, de modo a desfazer o temor reverencial com que tantos brasileiros o veem. Falta intimidade com o livro. Brasileiro parece ter medo de livraria, vista tantas vezes como um intimidador ‘templo do saber’. Idem as bibliotecas, onde a maioria dos frequentadores só põe os pés para fazer trabalhos escolares. Seria bom se a frase ‘Eu tenho que ler’, frequentemente carregada de sentimento de culpa, desse lugar a ‘Eu quero ler’, carregada de desejo e prazer.

Em Itabira, infelizmente, temos um governo que parece ter alergia a livros. Pouquíssimo faz pela leitura; pior, destrói bibliotecas. Acabou com três recentemente. Não queremos chateá-lo com problemas itabiranos, é coisinha nossa, que temos de resolver no grito, na coragem e no voto. É só gancho para perguntá-lo: qual a importância dos livros para uma cidade, para um estado, para um país?

H.W. – Acabar com bibliotecas? Não há limites para a insânia, diria um grande jornalista mineiro, o falecido Geraldo Mayrink. É triste, mas a gente vai criando calos na alma: volta e meia, a burrice toma o poder. Às vezes tenho a impressão de que o camburão da ONU [Organização das Nações Unidas] vai passar e recolher um certo Brasil.

Homenagem póstuma

Internet, livro eletrônico, o anunciado fim da letra no papel, rumos do jornalismo neste início de milênio. Alumia o breu para nós, o que será que será?

H.W. – Também estou nesse breu, sem saber se o jornalismo impresso vai ou não sobreviver. Não sou apocalíptico: se precisarmos dele, de alguma forma sobreviverá. Mas será perfeitamente dispensável e nesse caso desaparecerá sem muita lamentação, se não nos der informação da melhor qualidade, leia-se: reportagem em vez de telefone e Google, embalada num texto à altura. Num caso como no outro, precisamos urgentemente dar meia-volta.

Em entrevista acerca da biografia sobre o poeta e boêmio Jayme Ovalle, o senhor disse gostar mais é de ler poesias. Continua gostando? Sente-se tentado a escrever versos? Futuramente, poderemos ter um livro seu de poesias?

H.W. – No que tange à lira, me comprometo a não tangê-la. Não mereci nascer poeta – também por isso vou à forra, lendo cada vez mais poesia.

Vou dizer uma palavra e o senhor fala a primeira coisa que lhe passar pela cabeça: Brasil.

H.W. – Uma encrenca da qual não haveremos de escapar.

Todo mundo que escreve quer fazer sucesso, ou seja: quer ganhar dinheiro para poder conhecer o mundo e poder escrever mais e melhor; quer ser lido por muitas pessoas; quer ser admirado e respeitado como autor inteligente, sagaz, culto, que escreve textos que enriqueçam as pessoas. Como lida com a busca do sucesso?

H.W. – Sucesso? Meu tempo de janela não autoriza a menor veleidade. Não tenho, se é que tive um dia, vertigem de sobreloja – o sentimento de apoteose mental que faz o sujeito sentir-se nas alturas quando mal subiu alguns degraus. Paulo Mendes Campos disse bem: na carreira literária, a glória vem no começo; em seguida, o que há é um longo aprendizado para o anonimato, do olvido. Faz tempo que não tenho dúvida disto: se eu não escrever, ninguém perderá nada – mas eu ficarei mais incompleto ainda.

Para terminar, conte uma história alegre, alto astral, inspiradora, vivida em sua caminhada nas letras.

H.W. – Me ocorre uma historinha que talvez não seja alegre, alto astral e inspiradora, mas que ajuda a vacinar contra a vertigem de sobreloja. Em Manaus, um livreiro soube que eu estava na cidade e quis me conhecer. Mandou me apanhar no hotel e, na chegada, só faltou desenrolar um tapetinho vermelho. Com mil rapapés, me levou para o fundo da livraria, onde me esperava uma dúzia de senhores e senhoras. O homem me instalou numa poltrona que mais parecia um trono e, solenizado, anunciou: ‘Temos a honra de acolher entre nós o grande Nelson Werneck Sodré!’ Agradeci a homenagem, a rigor póstuma, pois fazia seis anos que o crítico e historiador marxista tinha morrido, aos 88.

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Jornalista, editor do jornal O Trem Itabirano

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