Terça-feira, 26 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ARMAZéM LITERáRIO >

Muito longe da perfeição

Por Matías M. Molina em 20/03/2012 na edição 686

Os Imperfeccionistas, um romance sobre jornalistas, o primeiro de Tom Rachman, foi recebido pela imprensa com um entusiasmo que deve ter surpreendido a editora, a Random House, que o lançara discretamente. Um jornal canadense, o National Post, o considerou o melhor romance de 2010, The New York Times publicou duas resenhas laudatórias, The Washington Post e Financial Times publicaram apenas uma, mas igualmente elogiosa. Foi comentado em dezenas de jornais, revistas, sítios e blogs. Uma reação que pode ser atribuída, em parte, ao narcisismo da profissão. Mas Hollywood também foi fisgada pelo livro: a produtora de Brad Pitt já contratou os direitos para o cinema.

“Imperfeccionista” – assim como o seu equivalente em inglês – não existe no dicionário. É um neologismo criado nesse romance e aplicado a um grupo de pessoas que trabalha num jornal em língua inglesa publicado em Roma. Cada capítulo retrata um aspecto da conturbada vida de um imperfeccionista. São em geral frustrados, desajustados, mal-adaptados, inseguros emocionalmente.

Lloyd Burko, o correspondente em Paris, decadente e em fim de carreira, não tem seus artigos aceitos pelo jornal, está sem dinheiro, a mulher o trai com um vizinho e é desprezado por três dos quatro filhos; o quarto é um fracassado na vida, mente para ele, mas é o único que fica ao seu lado. O principal objetivo no jornal de Arthur Gopal, o redator de obituários, “é acalentar a indolência, publicar o menos possível e ir embora de fininho, quando ninguém estiver olhando. Por enquanto ele vem cumprindo com louvor essas ambições profissionais”. Sua vida e atitude mudam com a morte da pequena filha.

A baronesa atrasada na leitura

A redatora de economia, Hardy Benjamin, competente e dedicada, faz regime há 12 anos e está tão desesperada aos 36 anos para encontrar alguém que a afague e acaricie que chega a procurar a companhia do rapaz que a roubou e não lhe dá muita atenção.

Herman Cohen, o enorme chefe da redação, encarregado de zelar pela língua escrita e pela precisão do jornal, é dado a broncas homéricas. Vê impressa a sigla GGCT e grita: “G o quê?” “GGCT não consta da ‘Bíblia’ e no entanto foi incluído aqui!” Quando os redatores negam ter sido os autores, diz: “Se nenhum de vocês tapados conhece o significado de GGCT, então por que saiu no jornal?” Silêncio glacial: “Já leram a ‘Bíblia’?” A Bíblia é o manual de redação feito e atualizado por Herman, que se senta e acrescenta mais um tópico: GGCT é Guerra Global Contra o Terrorismo.

Apesar de sua vigilância, ele não consegue evitar erros como a inclusão de Tony Blair numa lista de “dignatários japoneses recém-falecidos”, dizer que os alemães sofrem de um “desconforto genital da economia” ou dar ao ex-ditador do Iraque o nome de “Satã Hussein”. Os “tapados” a que Herman Cohen se dirigira são: “Dave Belling, um cara bobo e alegre demais para escrever uma manchete que se preze; Ed Rance, que vive com os cabelos brancos presos num rabo de cavalo (preciso dizer mais alguma coisa?); e Ruby Zaga, eternamente convencida, e com razão, de que todos os jornalistas dali conspiram contra ela.”

A editora-chefe, Kathleen Solson, decidida e de pulso firme, percebe que é traída por seu companheiro, um advogado aposentado que não faz nada na vida. Encontra por acaso um antigo namorado italiano, já casado, que ela largara anos atrás, e tenta, sem conseguir, ter um caso com ele. A baronesa Ornella de Monterecchi, a excêntrica e dominadora mãe do antigo namorado de Kathleen, é leitora do jornal. Ela lê todo o jornal, do começo ao fim, mas fica atrasada na leitura; em 2007 ainda está nas edições de abril de 1994.

Aos cuidados de um inútil

E assim vão desfilando vários imperfeccionistas, cada capítulo uma narrativa separada, mas com as histórias interligadas e com um fim inesperado em cada capítulo. Tom Rachman suaviza a decadência ou o sofrimento dos personagens ao adotar um tom sem recriminação e um toque de humor que numa ou outra ocasião pode parecer excessivo. O personagem central do romance é o jornal – tão disfuncional quanto seus jornalistas. A redação tem uma vida interna isolada da cidade. Na porta do elevador está escrito “Lasciate ogni speranza, voi ch’uscite – outside is Italy” e quando alguém sai para comprar sanduíches grita: “Vou à Itália, alguém quer alguma coisa?” A história do jornal é contada em curtos textos em itálico depois de cada capítulo. Foi fundado por um rico empresário americano, Cyrus Ott. Queria um diário internacional em língua inglesa, com sede em Roma e vendido no mundo todo. Numa mesa do Caffè Greco, em 1953, convidou para dirigi-lo um casal de jornalistas americanos, Betty, de quem se enamorara e ficara sem ver durante 20 anos, e seu marido, Leo.

O jornal, cujo nome, curiosamente, nunca é mencionado, começa bem equipado e com boa aceitação. Morre Ott, seu filho maior decide mantê-lo em homenagem ao pai. Leo passa a mulher para trás, ela se separa e o jornal entra em decadência. Volta a recuperar-se com um novo editor-chefe, Milton Berber, que o tornou mais ousado e bem-humorado e de novo rentável. Contratava repórteres ávidos, como Lloyd Burko em Paris, ou metódicos na escrita, como Herman Cohen. O jornal atraía profissionais de prestígio e jovens promissores, que anos depois iriam para os grandes órgãos da imprensa. Quando Berber, adoentado, decidiu sair, a circulação estava declinando. Foi substituído por uma série de editores medíocres até a contratação de Kathleen Solson, que não recebeu os recursos prometidos. O jornal ficou aos cuidados de um inútil completo, Oliver Ott, neto do fundador. Nunca o leu; sua única preocupação era o cachorro. Conseguiu acabar com a obra iniciada pelo avô.

História real e intrigante

É um livro bem escrito, fácil de ler, perspicaz, divertido, mas, talvez pela sua estrutura, não chega a empolgar.

Se o romance não dá nome à publicação, é fácil verificar que existiu em Roma um jornal vespertino em inglês, o Rome Daily American, de curiosa trajetória. Fundado em 1945, depois da Segunda Guerra, por três soldados americanos, recebeu financiamento da CIA, que, além de influir na opinião pública, queria usar o jornal para credenciar seus agentes como jornalistas. Na década de 60, o embaixador americano convenceu o banqueiro Michele Sindona, “o Tubarão”, ligado à Máfia e ao Vaticano, a comprar o jornal. Sindona morreu na prisão, envenenado. O filho do antigo dono, ligado à extrema-esquerda italiana, lançou um jornal concorrente, acentuando a decadência do Rome Daily American, fechado em 1984. Uma história real mais intrigante que a ficção.

***

[Matías M. Molina é autor do livro Os Melhores Jornais do Mundo, em segunda edição]

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