Quinta-feira, 09 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ARMAZéM LITERáRIO >

Escritores longe da mídia

Por Deonisio da Silva em 11/05/2010 na edição 589

Na terça-feira (11/5) fez aniversário o escritor Rubem Fonseca, nascido em Juiz de Fora, em 1925, no mesmo ano em que nascia Dalton Trevisan. Dalton ficou no estado em que nasceu, mas Rubem, mineiro, tornou-se o mais carioca dos escritores, ao acompanhar a família de volta à cidade de onde nunca mais saiu. Ele tem um conto com o título Onze de Maio.


Por coincidência, dois de nossos maiores escritores detestam a mídia, mas se Dalton ainda esbraveja, como recentemente, com exposições não autorizadas, como a que fez o ficcionista e crítico Miguel Sanches Neto em livro recém lançado, Rubem pareceu render-se ao inevitável e não faz mais cara feia para fotos e indiscrições.


Posso dizer que sei mais de Dalton do que a mídia divulga, mas jamais utilizarei isso em livros ou artigos. Há anos guardo segredos eternos do que Rubem e Dalton me contaram ou depreendi de nossas conversas, mas jamais os revelarei a alguém. Todavia, não reprovo aqueles que revelam. Nem sei se estou certo ou errado em guardar o que sei. Mas, desconfiado do tempo em que vivemos, em que parecem ter sido rebaixados valores imperecíveis, como a amizade, sigo meu caminho. Se os dois me contaram coisas na mesa de um bar ou restaurante, ou de uma confeitaria, no caso de Dalton Trevisan, contaram para mim. Se quisessem contar para todo mundo, dariam entrevistas, e entrevistas eles não dão.


Solidariedade rara


Bem, mas Rubem Fonseca foi fotografado há algumas semanas dando alpiste a um pássaro, melhor dizendo, a uma linda pássara, a escritora Paula Parisot. Quando ela lançou o primeiro livro, escrevi neste Observatório:




‘Se dependermos da mídia, não vamos descobrir escritor algum. Mas Paula Parisot, com a força de seu texto, mais cedo ou mais tarde vai levar a mídia a ocupar-se de sua literatura. Um outro dado insólito é que Rubem Fonseca, ausente da mídia desde década de 1970, é o escritor que mais influencia os novos ficcionistas. O lado bonito disso tudo é: ele influencia pelas livrarias. É lá que estão os seus livros.’


Na entrevista que então me concedeu (ver ‘O amor pela literatura e a crença na vida‘), quando vi que surgia uma autora que fazia por merecer um registro, ela disse:




‘Tudo começou quando era adolescente e recebi da minha avó o livro Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca. E foi naquela noite que o Rubem Fonseca entrou na minha vida, foi naquela noite que o meu mundo se transformou. Eu descobri a leitura, os livros.’


Depois dos contos de A Dama da Solidão, veio o romance Gonzos e Parafusos. À semelhança de escritoras como Betty Milan, Lya Luft e Adriana Lunardi, Paula Parisot mergulha no inconsciente de seus personagens como uma força incomum, contrariando a hegemonia do documental na prosa brasileira contemporânea.


O apoio de Rubem Fonseca e Dalton Trevisan a novos escritores é dado segundo sutis complexidades dos relacionamentos entre eles e os favorecidos, mas penso que o tema poderia ser abordado de forma mais profunda e mais ampla, descortinando uma solidariedade infelizmente rara entre escritores.

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Escritor, professor da Universidade Estácio de Sá e doutor em Letras pela USP; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e De onde vêm as palavras

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