Sábado, 04 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ARMAZéM LITERáRIO >

Jornalista de dois mundos desavindos

Por Lúcio Flávio Pinto em 08/06/2010 na edição 593

No dia 18 de maio morreu, em São Luiz, aos 61 anos, um dos maiores jornalistas paraenses. Tão grande – e tão raro – que sua competência transbordou da terra natal para o Estado vizinho. A vida de Walter Rodrigues se dividiu ao meio entre o Pará e o Maranhão. Atuou com a mesma competência de um lado e do outro da divisa, em torno da qual costumam ser cultivadas diferenças, desentendimentos e incompreensões mútuas.

Walter foi o paraense que mais bem se ajustou ao novo cenário, com o qual passou a ter tal intimidade que se tornou referência necessária. Ninguém entenderá o Maranhão contemporâneo sem passar pelos seus textos. O Pará que passou ficou em algumas das matérias que Walter criou, quando pelo lado de cá gorjeava, com seu texto limpo, sua ironia fina e seu sarcasmo cortante, arrasador. Merecia um final mais à altura dos seus méritos e do que produziu, patrimônio que se valorizará na medida do tempo, pelo simples fato de não ter substituto. O lugar que Walter Rodrigues ocupou – e, de certa forma, criou para si – era único. Ficou vago.

Embora fossem de pura iconoclastia algumas das características da sua personalidade, Walter não foi um dado aleatório no jornalismo. Ele deixaria sua marca e faria o que fez em qualquer lugar e em qualquer época porque não lhe faltavam qualidades absolutamente pessoais e intransferíveis. Mas sua presença mais forte no jornalismo se explica por determinado contexto, que começou a se delinear em 1973, na redação de O Estado de S. Paulo.

Foi quando o responsável pelo jornal, Júlio Mesquita Neto, avalizou um projeto que lhe apresentei, de criar uma sucursal amazônica, com sede em Belém e ramificações por toda Amazônia Legal. Graças ao suporte de Raul Martins Bastos, coloquei o que havia de melhor no jornalismo em cada Estado da região. Esses correspondentes passariam a ter vinculação profissional com o Estadão (que não havia até então: o serviço era realizado por ‘colaboradores’), ganhariam salários melhores do que os locais e teriam o apoio do jornal mais influente do país. Além de generoso espaço para publicar seus despachos sobre a abertura (e fechamento e destruição) da fronteira amazônica.

Luz em vez de tédio

O laboratório para essa equipe foi o Bandeira 3, semanário em formato tablóide, com 24 páginas, que lancei em Belém, em janeiro de 1975. Lá estava a futura equipe do Estadão (e, depois, de outras publicações, como Veja): Walter, Raimundo Costa, Elson Martins, Guilherme Augusto Pereira, Raimundo José Pinto – e mais outros nomes que se destacariam em outros escaninhos jornalísticos, como Paulo Roberto Ferreira, Nélio Palheta e Regina Alves.

Quando o B3 acabou e o projeto de grande cobertura amazônico foi se apequenando, consegui colocar Raimundo Costa em São Luiz. O Maranhão passou a ser tratado também como parte da Amazônia e a se desligar do mandonismo dos coronéis. Walter foi o sucessor natural quando Raimundo se transferiu para a sucursal de Brasília, em 1976.

O Estadão não conseguiria ninguém melhor para posto tão difícil. Seu correspondente enfrentava temas áridos, questões graves e todo tipo de armadilhas, saindo-se ileso. Suas interpretações e opiniões podiam provocar celeuma, mas não a base factual sobre a qual se edificavam nem a lisura do procedimento. Em reconhecimento, a empresa paulista mobilizou uma UTI aérea quando Walter sofreu o primeiro enfarte, providência que lhe salvou a vida.

Mas O Estado de S. Paulo já estava em outra. Não tinha mais compromisso com a verdade na Amazônia. Eu saí e fiz o Jornal Pessoal. Tempos depois Walter fez quase o mesmo, não numa publicação independente, o que lhe deve ter sido impossível nas circunstâncias maranhenses: o Colunão surgiu como suplemento dominical do Jornal Pequeno, com uma liberdade rara nesse tipo de associação. Tão inusual que a relação acabou se rompendo e Walter, para manter sua voz, recorreu ao blog.

Nunca deixei de ser seu leitor. Era através dele que bem me informava sobre o que acontecia num local tão importante e interessante para nós do Pará (e do Brasil). Mesmo quando algum localismo escapava ao meu interesse específico, o prazer não diminuía. A prosa de Walter era uma das melhores da imprensa brasileira. Nunca entediava. Sempre iluminava. Sabia manejar as idéias tão bem quanto a língua. E sua memória era uma arma formidável. Uma combinação que permite aos seus textos passar da página de jornal para o livro sem qualquer prejuízo.

Pudor descalibrado

Ano após ano cobrei-lhe o livro que só ele podia escrever sobre as mais de três décadas como testemunha privilegiada dos acontecimentos maranhenses. Walter ajudou terceiros a realizar essa tarefa, enquanto adiava a sua, talvez pelo rigor da sua apreciação crítica. Certamente agora haverá quem penetre na montanha de textos que ele deixou para extrair-lhes o fio condutor e assim reconstituir o que aconteceu nesse período na terra espoliada por elites tão ou mais predatórias do que as paraenses.

O melhor e mais exclusivo de Walter é a compreensão dos processos políticos. Ele conhecia os poderosos pelo nome, por contato pessoal, por histórias íntimas. Suspeito que perdeu muita energia com essa geléia geral infértil, mas a tentação de desnudar falsos Catões e Cíceros de araque o tenha impedido de se livrar dessa craca aderente.

Faltou um pouco mais de atenção e concentração na parte econômica e produtiva do Maranhão, no colonizador, no elo entre os dois enclaves, que dispersam suas forças digladiando-se pelo que, imaginando ser butim, não passa de restos do banquete, o boi que se atira às piranhas para que a manada cruze incólume as fronteiras nacionais. Mas entendo o atrativo dessa história pelo fato de que a miséria política maranhense é maior do que a paraense, se tal cometimento é possível. Com sua verve, seu rigor e sua visão ampla, Walter Rodrigues estabeleceu uma cabeça-de-ponte em defesa da verdade num território minado pela mentira e a sordidez. Só isso lhe garante a perenidade da história.

Quero aqui dar uma pequena contribuição a essa memória reproduzindo o texto que Walter escreveu quando lhe mandei o livro Contra o Poder, que registrou os 20 anos do Jornal Pessoal, em 2007, e que, por um pudor descalibrado, não reproduzi na época. Não há mais esse pudor agora porque, falando de mim, Walter Rodrigues também falou de si e do mundo que nos uniu, nos forjou e nos explica, a nós e a muitos mais que participam da mesma caminhada.

Segue-se a resenha de Walter. Com minha lágrima mais sentida.

Lúcio Flávio Pinto é o maior jornalista do Pará e um dos melhores do Brasil. Antes que alguém no Pará discorde, esclareço que saí de Belém há 30 anos e tenho menos que uma vaga idéia de quem são os expoentes das novas gerações paraenses, incluindo essa gente que escreve na Internet e pouco a pouco arrebenta para sempre com a reserva de mercado dos profissionais. Pode ser que um ou outro escreva melhor, ou raciocine com mais sensatez ou fareje melhor uma boa notícia. No conjunto, duvido muito. Mas não discuto.

Meu juízo se refere ao papel social do jornalista, tema de palestra que recentemente proferi (verbo empolado e detestável) em Imperatriz, a convite do campus local da UFMA (Universidade Federal do Maranhão). Lúcio é o melhor não somente por suas qualidades pessoais, que só meia dúzia de desafetos seria capaz de negar, entre elas a conditio sine qua non da honestidade profissional, mas, sobretudo, porque exerce essas qualidades de forma socialmente mais útil que qualquer outro.

Sua principal trincheira é o quinzenário Jornal Pessoal, uma espécie de Colunão mais antigo e mais radical na concepção, pois vive exclusivamente da venda avulsa necessariamente limitada, não aceita anúncio nem público nem privado, não está disponível na Internet e não oferece quase nenhum atrativo gráfico. Chega a ser até maçudo, às vezes, e só não é mais porque o editor de arte L. A. de Faria Pinto, irmão do editor chefe (este último também repórter, copidesque e revisor apenas um pouco melhor que o das últimas edições do Colunão de papel, além de gerente administrativo e da distribuição), ameniza a paisagem com charges, caricaturas e outros desenhos.

Até nos títulos Lúcio Flávio parece pouco empenhado em seduzir leitores. ‘Há democracia no Brasil?’, pergunta um. ‘Salvar o antigo cinema’, recomenda outro. ‘Retrato da realidade’, desencoraja um terceiro. ‘Uma cidade para ver (e viver)’, generaliza outro mais. Tudo isso na edição mais recente, nº 410. 

Temas exclusivos

Mas veja só que matérias, que assuntos. 

Logo na capa, ‘Jornais, vendas em queda’, uma análise bem informada com ataque moderado e responsável e por isso mais certeiro aos dois principais matutinos da cidade, o de Jader Barbalho, Diário do Pará, atual líder de vendagem, e O Liberal, da família Maiorana, que durante mais de 20 anos, talvez iludida pelo próprio sobrenome, supôs-se imbatível. Um pelo outro, entretanto, é quase a mesma coisa, embora nenhum dos dois baixe ao nível, digamos, do atual governismo caipira do Jornal Pequeno, que é assim uma espécie de Estado do Maranhão de ceroulas. Ou de canibal comendo com a mão onde o outro comia de garfo e faca — e com muito mais proveito.

A matéria do JP de Lúcio Flávio fala de vendagens declinantes (ambivalente fenômeno nacional), de fraudes que já enrolaram até o IVC (Instituto Verificador de Circulação), de ‘ziguezagues editoriais’ que acompanham as conveniências pessoais e comerciais dos donos da mídia, da torpe exploração da desgraça dos fracos. 

Detenho-me num trecho: ‘Já está na hora de o Ministério Público do Estado, como defensor dos direitos difusos da sociedade, chamar os jornais para um Termo de Ajuste de Conduta. Por que essas fotos escandalosas [de cadáveres furados, queimados, estraçalhados e esbugalhados] são apenas de pessoas pobres? Os pobres não têm direito à preservação de suas imagens, ou essa prerrogativa é exclusiva de grã-finos e socialites, que nunca viram ‘presuntos’ [viram do verbo virar, está claro, não do verbo ver, que a morte é socialista)?

O leitor do Colunão certamente reconhece aí a cobrança habitual ao Ministério Público do Maranhão, não exatamente a mesma, que meu otimismo não chega a tanto, mas alguma coisa que se aparenta à sugestão de que o MP-MA (e a OAB) deveriam coibir abusos na mídia contra menores e vítimas de violência sexual. Ou de atropelamentos, que a tradição é ficar por isso mesmo, seja o homicida ao volante um vereador, um ex-presidente da OAB, a esposa de um ex-prefeito, um ex-presidente do Banco do Estado ou um jovem capitão do ramo imobiliário — para citar somente os exemplos que me vêm à cabeça agora. 

Favelas e espigões

‘Uma cidade para ver (e viver)’, já referido aqui, foi escrito originalmente para L´Unitá, o velho jornal de Gramsci, ex-órgão oficial do Partido Comunista Italiano. Fala da Belém que sediará o Fórum Social Mundial em 2009, uma cidade que ostenta ‘torres de concreto e vidro’ de até 40 andares, ‘recorde no Norte e Nordeste’, e, ao mesmo tempo, ‘a maior favela horizontal do país, com 100 mil habitantes mundo’. 

Adiante: ‘Mais de dois terços da economia urbana dependem de serviços e do Governo …. Com um rico subsolo, o Pará é um minerador em escala planetária, principalmente de ferro, bauxita, alumina e alumínio …. É o sexto maior exportador e o terceiro em saldo de divisas. De cada 10 dólares líquidos que o Brasil recebe por suas divisas, 1 dólar sai do Pará. Belém recolhe as migalhas…. Sendo o segundo estado em território e o nono em população, é o 16o em IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e o 23o em PIB per capita, só à frente dos quatro estados nordestinos mais pobres do Brasil’.

Que distância da lengalenga do jornalismo tradicional do Pará, onde os ensaios de contestação ao modelo ‘economia de enclave’ quase sempre escondem intenções diversas do interesse público, como acontece quando O Liberal de repente descobre um defeito na Vale, para em seguida voltar a encobri-lo com a maior sem-cerimônia… 

Amor à verdade

Chego à última das oito páginas tamanho ofício do JP do Pará. Um texto sobre Vieira, outro sobre Simone de Beauvoir, e uma grata surpresa: Rosa Corrêa, vice-presidente da Sociedade Paraense de Direitos Humanos (SPDH), que acaba de completar 30 anos (como sua congênere do Maranhão), escreve para ‘prestar os primeiros esclarecimentos’ acerca de questionamento do jornalista relativo às finanças da entidade. 

Ficamos sabendo que a SPDH recebeu R$ 730 mil do Governo Federal e mais R$ 124 mil do estadual, para execução local do Provita, programa de proteção a testemunhas, vítimas e pessoas ameaçadas. E que também usa verbas públicas num programa chamado NAV, núcleo de atendimento a vítimas de violência. Nada mal para uma ONG (Organização Não-Governamental), que possivelmente ainda receba recursos de fontes particulares nacionais e estrangeiras.

Pense você o que pensar a respeito desse novo papel das sociedades de direitos humanos, acredite ou não que elas mantenham a eficiência de outrora no desempenho de sua atividade precípua, o importante aí é a abertura para o diálogo, sempre um indicativo de boa fé e probidade. ‘Estamos organizando todas as informações para repassar a este veículo de comunicação, de alta respeitabilidade em nosso estado, por obrigação, mas também pelo grande amor que nossa entidade nutre pela verdade’.

Magníficas palavras. Por obrigação, pois quem maneja recursos públicos tem o dever de fazê-lo à luz do dia, aproveitando cada oportunidade que lhe surja de exibir suas contas. E por amor à verdade, que quem não deve não teme, e sente-se até agradecido quando lhe convidam a mostrar o que nunca desejou esconder. 

Antes que você me censure por não ter feito esse desafio à SMDH — tarefa que ainda haverei de cumprir — lembre-se que aproveitei os 30 anos da entidade para criticá-la pela baixa eficiência na luta contra a tortura, tema de igual ou maior relevância que sua contabilidade. A diferença é que ninguém me escreveu para dialogar, contestar ou oferecer explicações, ainda que apenas por amor ao tema ou à verdade. É que não basta a figura indispensável do jornalista inquiridor, há que ter a sorte de encontrar quem lhe responda.

Paixão e teimosia

Lúcio Flávio acaba de contar em livro os 20 anos de Jornal Pessoal: uma paixão amazônica, história e coletânea sumária de uma teimosia destinada a morrer na adolescência e que, entretanto, já entrou no ano 21, a maioridade absoluta. 

São mais de 400 edições (411, para ser exato), intercaladas por breves períodos de desânimo em que anuncia a própria morte, para dali a pouco renascer das cinzas. Começa contando a história da reportagem que lhe deu origem, o assassinato do deputado Paulo Fonteles (PCdoB), abatido por um pistoleiro de aluguel em 11/6/1987. Foram três meses de pesquisa, cujo resultado apresentou em texto a Rosângela Maiorana, um dos sete herdeiros do patriarca do Grupo Liberal, Rômulo Maiorana. 

‘Rosângela’, lembra o jornalista, ‘leu e ficou impressionada. Mas não podia publicar, me disse logo: a matéria deixava em má situação dois dos homens mais ricos do Pará, além de grandes anunciantes’. Prontificou-se, entretanto, gente boa, a imprimir de graça o Jornal Pessoal — que surgia naquele instante, de estalo — desde que as oficinas do Liberal não fossem citadas no expediente. Lúcio topou. 

Já na edição seguinte, porém, nem pagando ele obteve o mesmo acesso. A principal reportagem tratava do desfalque de US$ 30 milhões que o advogado Augusto Barreira Pereira, diretor e presidente interino do Basa, aplicara à instituição. Barreira era também o diretor jurídico da Delta Publicidade, a editora do Liberal.

Desde então já foram quatro ou cinco, ou mais, as oficinas que acolheram e desacolheram o Jornal Pessoal. Ele continua, noticiando e comentando o que os outros não podem, até mesmo porque não querem. 

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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