Terça-feira, 07 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ARMAZéM LITERáRIO >

Justiça manda prender o
jornalista Pimenta Neves

Por Luiz Antonio Magalhães em 15/12/2006 na edição 314


Leia abaixo os textos de quinta-feira selecionados para a seção Entre Aspas.


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O Estado de S. Paulo


Quinta-feira, 14 de dezembro de 2006


CASO PIMENTA NEVES
Laura Diniz


TJ manda prender Pimenta Neves


‘O jornalista Antônio Marcos Pimenta Neves deve ser preso pelo assassinato da ex-namorada, a jornalista Sandra Gomide, em agosto de 2000. A ordem foi dada pela 10ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça (TJ). Ontem mesmo a defesa entrou com um habeas-corpus no Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar evitar a prisão.


Pimenta pode apresentar-se em qualquer delegacia ou os policiais podem ir buscá-lo em casa, na Chácara Santo Antônio. O mandado de prisão foi expedido no fim da tarde de ontem pelo juiz Diego Ferreira Mendes, de Ibiúna. Por volta de 20 horas, a ordem chegou à polícia de Ibiúna, que a encaminhou ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).


A casa de Pimenta passou o dia fechada, aparentemente vazia, mas uma luz foi acesa às 19h40. O delegado Marco Antonio Olivato, do DHPP, chegou lá às 20h25, tocou a campainha e não foi atendido. A polícia ficou de plantão na frente da casa. Às 6 horas, eles voltariam a tentar contato. Segundo Olivato, Pimenta ainda não era considerado foragido porque a polícia chegou em sua casa depois das 18 horas.


Por 3 votos a 0, os desembargadores negaram a apelação do jornalista contra a sentença da Justiça de Ibiúna, que o condenou, em maio, a 19 anos, 2 meses e 12 dias de prisão. Pimenta saiu do júri popular condenado, mas com direito a recorrer em liberdade. Como o recurso foi negado, a ordem de prisão da sentença deve ser cumprida. A única vitória da defesa do jornalista, feita pela advogada Ilana Muller, foi a redução da pena para 18 anos. Os desembargadores entenderam que o fato de ele ter confessado o assassinato era um atenuante, que poderia diminuir a punição.


O principal argumento da defesa, rejeitado pela Justiça, era de que o júri seria nulo porque os jurados já tinham uma convicção formada contra Pimenta, por influência da imprensa. Ilana disse ontem aos desembargadores que, durante o julgamento, populares na Praça de Ibiúna gritavam ‘ripa nele’, referindo-se à Pimenta. Jornalistas do Estado, presentes ao julgamento, não ouviram tais palavras de ordem.


Se a defesa conseguir anular o júri, o novo julgamento terá de ser realizado até 2010, para que o crime não prescreva. Pimenta fará 70 anos em 2007, o que diminui para a metade o período de prescrição – de 20 para 10 anos. ‘Hoje se consagra aquilo que aconteceu em maio. O júri foi legítimo, sem nenhuma nulidade’, disse o advogado Sergei Cobra Arbex, assistente de acusação, que representa a família da vítima.


O criminalista Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, que já defendeu Pimenta, discorda da prisão. ‘Seria melhor aguardar em liberdade o trânsito em julgado do processo. Se não causou problema até agora, não causaria daqui para frente.’ O advogado Alberto Toron, também especialista em Direito Penal, disse que a decisão não o surpreendeu. ‘Tive um caso semelhante naquela câmara, recentemente, e eles também mandaram prender.’


‘Eu me senti satisfeito’, disse João Gomide, pai de Sandra. ‘Se ele ficasse cinco anos preso, estaria bom. Mas deve ficar no máximo três, como a lei permite’, afirmou, realista. A prisão, para Gomide, não encerra o caso. ‘Só vou enterrar o caso quando o Pimenta não existir mais ou eu não existir mais. É um alívio que ele seja preso, mas a imagem da maldade dele vai ficar para sempre na minha cabeça.’ Colaborou Flávio Lobo e Camilla Rigi’


TELES vs. TELEFÔNICA
Renato Cruz e Gerusa Marques


Net vê monopólio da Telefônica


‘A Net resolveu rebater a reclamação do presidente do Grupo Telefônica no Brasil, Fernando Xavier Ferreira, feita na segunda-feira, de que a operadora espanhola seria alvo de discriminação das autoridades brasileira, ao ser impedida de atuar em TV por assinatura. Na visão da Net, o tratamento é diferente do que recebe a mexicana Telmex, que está no controle da Net e da Embratel, porque a situação das empresas é diferente. A Telmex é a principal concorrente da Telefônica na América Latina.


‘A Telefônica é dominadora quase monopolista do mercado de telefonia fixa local’, apontou a Net, em comunicado, acrescentando que a operadora conta com 96,6% dos telefones em uso de São Paulo e 99,1% da receita do serviço em 2005.


A Telefônica lançou um serviço de TV por satélite, em parceria com a empresa DTHi (Astralsat), e recebeu críticas do Ministério das Comunicações e da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). O ministro Hélio Costa ameaçou e só não tirou o serviço do ar porque não encontrou fundamentos legais para fazê-lo.


Comandada por Francisco Valim, a Net argumenta que a Lei do Cabo e o contrato de concessão da Telefônica ‘proíbem a exploração do serviço de TV a cabo por ela ou coligada/controlada/controladora’. A Telefônica anunciou recentemente a compra da TVA, que depende de aprovação da Anatel, e, por causa dos impedimentos legais, ficará com somente 19,9% da empresa de cabo em São Paulo. Na visão da Net, a proibição se estende a outras tecnologias, como a TV por satélite (também chamada DTH) e microondas (MMDS). A Telefônica planeja comprar 100% do MMDS da TVA em São Paulo.


Apesar de a Telefônica dizer que quer aumentar a competição na TV paga, o que preocupa a operadora é a concorrência da Net e da Embratel em banda larga e telefonia. A Net indicou que, onde concorre em telefonia local com a Telefônica, a operadora espanhola chega a oferecer 40% de desconto. Em outubro, a Net tinha 68 mil telefones fixos no Estado de São Paulo, comparados a 13,241 milhões da Telefônica, no fim de 2005. ‘No Estado de São Paulo, as iniciativas da Telefônica em TV por assinatura são proibidas e anticoncorrenciais’, disse a Net.


CONTROLE NACIONAL


Em Brasília, o vice-presidente de Relações Institucionais das Organizações Globo, Evandro Guimarães, defendeu a permanência do controle da programação e da gestão das emissoras de TV nas mãos de brasileiros. Ele participou do seminário promovido pela Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados. ‘Perder essa característica nacional é o mais importante atalho para a desnacionalização da imagem e do senso de ser brasileiro.’


Ele fez um alerta sobre a ofensiva das empresas de telecomunicações no setor de TV paga e afirmou que o setor de rádio e televisão não tem condições econômicas para resistir à concorrência. Segundo ele, enquanto as telecomunicações têm receita de R$ 100 bilhões, a receita das empresas de radiodifusão é de R$ 8 bilhões. A Constituição estabelece um limite de 30% para a participação de capital estrangeiro em empresas de rádio e TV abertas. No cabo, a limitação é de 49%, e, no DTH, não há limite.’


INTERNET
O Estado de S. Paulo


Submarino aprova fusão com Americanas


‘Os acionistas do site de comércio eletrônico Submarino aprovaram ontem a fusão da empresa com a Americanas.com e a criação da B2W, que consolidará as operações dos dois grupos. As Lojas Americanas ficam com 53,25% do capital total da B2W e os acionistas do Submarino possuem os 46,75% restantes.’


TELEVISÃO
Beatriz Coelho Silva


TV Globo descobre o Acre


‘A Globo começa 2007 com uma superprodução que carrega pretensão hollywoodiana – vide …E O Vento Levou e Lawrence da Arábia. Essa é a impressão causada pelas primeiras imagens da minissérie Amazônia, que estréia em 2 de janeiro e vai até março.


O texto é de Glória Perez, que sonha, há anos, em contar a história de seu Estado natal, o Acre. Ela espalhou a ação por um século, a partir da década de 1880, quando começaram os movimentos para anexar ao Brasil a região que então era território boliviano. Para contar essa história, há um elenco de mais de 100 atores, além de extras contratados no local.


Além de divulgar o Estado, a cidade cenográfica construída para a produção vai virar um parque temático para incentivar o turismo na área.


Amazônia conta a história do Acre desde as batalhas (reproduzidas com realismo) que levaram a sua anexação pelo Brasil, até a morte de Chico Mendes, vivido por Cássio Gabus Mendes. José Wilker (que será Galvez, o espanhol que conquistou o território) e Alexandre Borges (Plácido, o revolucionário que lutou pela anexação) completam o trio de protagonistas históricos. Do elenco feminino destacam-se Vera Fischer e Christiane Torloni como personagens que disputam o amor de Galvez, e Giovanna Antonelli (Delzuite) do núcleo ficcional. Há ainda inúmeras participações especiais.


As gravações na Amazônia já terminaram e devem continuar no Projac até março. O diretor Marcos Schechtman espera ter 12 capítulos de frente (ou três semanas de adiantamento em relação ao que vai ao ar) e contou que terá três tipos de trilha sonora. ‘Há as músicas das cenas, como as zarzuelas (dança típica espanhola) e as óperas, as canções de cada personagem e a música incidental’, promete.’


Keila Jimenez


Globo divide transmissões com a Band


‘A Band agora resolveu admitir que está negociando os direitos de transmissão do pacote de futebol da Globo, informação dada pelo Estado há três semanas e então negada pela emissora. Na época, a Band estaria negociando o pacotão – que inclui Copa Brasil, Brasileiro e Campeonato Paulista – ao lado da empresa de marketing esportivo Sport Promotion, que chegou a propor uma parceria com a rede dos Saad no negócio.


A Sport Promotion confirmou o interesse no negócio ao lado da Band e as reuniões com emissários da Globo para o acerto de valores. No meio do caminho a Band mudou de idéia. Não sobre a compra do futebol, mas sobre a parceria. Deixou a Sport Promotion de lado e seguiu em frente com uma negociação paralela com a Globo – fato que ela negou até ontem.


O contrato entre Bandeirantes e Globo deve ser assinado até o final da semana, eliminando o receio da líder em ser acusada de monopólio na transmissão dos principais campeonatos de futebol.


entre-linhas


Vidas Opostas estreou bem na Record, mas a média de audiência da novela já caiu para a casa dos 9 pontos.


A Globo negocia com Letícia Birkheuer, modelo que estreou como atriz em Belíssima, sua participação em uma novela da casa em 2007.


No domingo, às 14h30, estréia na Cultura a série A Volta ao Mundo em 80 Tesouros, produzida pela rede BBC, sobre a jornada que o apresentador Dan Cruickshank fez ao dar a volta ao mundo em cinco meses. No primeiro episódio, Dan viaja do Peru ao Brasil.’


MEMÓRIA / PETER BOYLE
O Estado de S. Paulo


Aos 71 anos, morre ator Peter Boyle


‘O ator Peter Boyle morreu na noite de anteontem no Hospital Presbiteriano de Nova York, aos 71 anos de idade. Seu último trabalho na televisão foi a série Everybody Loves Raymond, exibida no Brasil pelo canal pago Sony, em que faz o papel do pai mal-humorado do protagonista. Ele atuou no filme O Jovem Frankenstein (1974), do diretor Mel Brooks, e em Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese. Lutava há anos contra problemas cardíacos e um mieloma (câncer de medula).’


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Folha de S. Paulo


Quinta-feira, 14 de dezembro de 2006


CASO PIMENTA NEVES
Mariana Tamari, Afra Balazina, Kleber Tomaz e Gilmar Penteado


Justiça determina a prisão de Pimenta Neves


‘A 10ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo determinou ontem pela manhã, por unanimidade, a prisão do jornalista Antonio Marcos Pimenta Neves, 69, condenado em maio deste ano pelo assassinato da ex-namorada e também jornalista Sandra Gomide, 32. O crime ocorreu em 2000, em Ibiúna (64 km de SP).


A ordem de prisão não tinha sido cumprida até a conclusão desta edição. No começo da noite de ontem, policiais foram até a casa de Pimenta Neves, mas não o encontraram. Vizinhos afirmam não ter visto o jornalista em sua casa, no Alto da Boa Vista (zona sul de SP), desde quinta-feira passada.


A defesa do jornalista, ex-diretor de Redação do jornal ‘O Estado de S. Paulo’, entrou ontem com pedido de habeas corpus no STJ (Superior Tribunal de Justiça) para tentar suspender a ordem de prisão.


Em maio deste ano, após receber pena de 19 anos, dois meses e 12 dias de prisão, Pimenta Neves ganhou o direito de aguardar em liberdade o julgamento de um recurso, contra a condenação em primeira instância, feito por sua defesa.


O julgamento do recurso ocorreu ontem. A defesa pedia a anulação do júri; a acusação solicitou a prisão de Pimenta Neves. Três desembargadores do TJ -segunda instância – decidiram manter a condenação por homicídio qualificado, mas diminuíram a pena para 18 anos de prisão. Eles consideraram a confissão de Pimenta Neves como uma atenuante.


Em seu voto, o relator Carlos Bueno determinou a prisão imediata do jornalista. A decisão foi seguida pelos desembargadores Fabio Gouvea e Otávio Henrique. O julgamento durou mais de duas horas. Pimenta Neves não compareceu.


‘Eu não tenho a mínima dúvida de que era injusto ele ficar solto. Ele matou uma mulher completamente indefesa. Portanto, ao ter seu recurso negado, ele deve começar a cumprir a prisão. E ele deve se recolher imediatamente à prisão’, afirmou Sergei Cobra Arbex, assistente de acusação e advogado da família de Sandra Gomide.


A advogada de Pimenta Neves, Ilana Müller, não quis conversar com a imprensa.


Por unanimidade, os jurados responsabilizaram, em maio, Pimenta Neves pela morte de Sandra. O jornalista foi condenado por homicídio com duas qualificadoras -motivo torpe (ciúmes) e recurso que impossibilitou defesa da vítima.


Réu confesso, o jornalista matou a ex-namorada com dois tiros, em um haras em Ibiúna, em agosto de 2000. Depois do crime, Pimenta Neves ficou preso por sete meses até 2001, quando uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) concedeu liberdade provisória.


Se for mantida a Lei de Crimes Hediondos, Pimenta Neves deve cumprir a pena de 18 anos em regime fechado. A lei, no entanto, é contestada nos tribunais superiores. Para os crimes considerados comuns, a exigência é de cumprimento de pelo menos um sexto da pena antes da progressão de regime.’


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Procurado em sua casa pela polícia, jornalista não é achado


‘Mais de seis horas depois que o Tribunal de Justiça de São Paulo determinou a prisão de Antonio Marcos Pimenta Neves, policiais do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) estiveram na casa do jornalista, na zona sul de São Paulo, mas não conseguiram encontrá-lo.


Os policiais tocaram a campainha por volta das 19h30 de ontem, e, por celular, ligaram para o telefone fixo da casa. Não houve resposta. Um carro da polícia permaneceria na frente do imóvel -único endereço fornecido pelo jornalista à Justiça- durante a noite.


O delegado Marco Antonio Olivato, do DHPP, disse que só recebeu às 18h30 de ontem a ordem judicial de prisão para ser cumprida. Segundo ele, como era noite, não havia como entrar na casa.


Ele afirma que, se o jornalista não aparecer até a manhã de hoje, a polícia vai pedir um mandado de busca e apreensão para entrar no imóvel.


A ordem de prisão foi assinada pelo juiz da 1ª Vara de Ibiúna, Diego Ferreira Mendes -comarca onde ocorreu o crime e onde Pimenta Neves foi condenado. A decisão dos desembargadores foi enviada, por fax, ao fórum de Ibiúna no final da tarde de ontem. Só depois disso o juiz redigiu o mandado de prisão e o enviou à polícia.’


CULTURA DA PERIFERIA
Rafael Cariello


Estudos analisam inclusão ‘na marra’ de periféricos


‘Décadas depois de emergir como um dos focos da representação cultural da pobreza urbana brasileira, problematizada (e romantizada) pelo cinema novo e acolhida nacionalmente por meio do samba e da canção popular, a favela vem sendo reciclada e assimilada nos últimos anos pela generalização de um outro conceito -o de periferia.


A periferia não é mais a antiga favela pendurada no morro do Rio, associada a malandros, sambistas e cabrochas. Agora ela se espalha pelo país, produz rap, funk e outras ondas, e sua nova cara vai se desenhando no cinema, na TV, na propaganda, na música e na literatura.


Natural que o fenômeno chame a atenção de estudiosos, como os que participam do mais recente número de uma das principais publicações de idéias e debates do país, a revista de antropologia ‘Sexta Feira’.


Os ensaios da revista tratam desde as ‘paradas do sucesso periférico’ -em que o antropólogo Hermano Vianna analisa essas produções musicais que parecem, aos olhos do centro, ‘populares demais para serem autenticamente populares’- às vinculações complexas entre pobreza e violência.


Periferia, diz Paula Miraglia, uma das editoras da ‘Sexta Feira’, ‘é um tema que ganhou corpo nos últimos anos em múltiplas áreas; e é complexo o suficiente para que possamos refletir sobre ele na revista’. ‘O que a gente queria responder e problematizar é a própria idéia de periferia. Se é um lugar, uma relação.’


‘O tema voltou’, diz Ivana Bentes, professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que promete para o ano que vem a publicação em livro (ainda sem editora) de sua extensa pesquisa sobre ‘as periferias globais’. Um dos objetivos de seu estudo, ela diz, é analisar de que modo se dá essa visibilidade maior.


Na televisão, por exemplo, Bentes identifica um comportamento quase ‘esquizofrênico’, ‘bipolar’.


Por um lado, ‘a TV está fazendo uma inclusão visual’, afirma a pesquisadora. ‘A publicidade usa os garotos negros da periferia para vender telefone celular. A televisão correu atrás com programas como o ‘Central da Periferia’ [apresentado, na TV Globo, por Regina Casé] ou o ‘Antônia’, minissérie que narra as desventuras de um grupo de hip hop formado por quatro amigas da Brasilândia, periferia de São Paulo.


Mas há um paradoxo, ela diz. ‘Ao mesmo tempo em que apresentam a periferia nessas produções de maneira às vezes até um pouco idealizada, romantizada -a favela legal-, eles criminalizam a pobreza o tempo inteiro no jornalismo.’


‘Esses mesmos sujeitos que aparecem no ‘Antônia’ ou na ‘Central da Periferia’, na hora do Jornal Nacional são mostrados como a causa da violência urbana. Faz-se um discurso de terror em torno desses grupos.’


Laboratório de ponta


Para Bentes, essa polaridade se liga a outra: ao fato de que a produção cultural da periferia é hoje o ‘laboratório de ponta’ do capitalismo, da criação de novidades para o consumo. A inovação cultural não vem da classe média ou dos ricos.


Ao mesmo tempo, os ‘criadores’, os moradores das áreas pobres urbanas do Brasil, têm vidas quase descartáveis. ‘Esse cara que faz o hip hop ou o funk pode ser morto amanhã pela polícia, que chega atirando sem saber se o cara é bandido ou não’, diz Bentes.


Não há favor na atenção à periferia, e, para além do reconhecimento de valor, há muitas vezes interesse -na criação de moda, de estilo- ou medo.


‘De fato as favelas estão mais presentes em obras de arte contemporâneas, talvez por estarem se tornando a cada dia um problema maior, fora de controle’, diz Fernando Meirelles, diretor de ‘Cidade de Deus’.


Sem favor


‘Não é por generosidade’ que o centro fala da periferia, diz Ivana Bentes. ‘Existe uma urgência social aí. Esses sujeitos são temidos pela classe média. Há uma necessidade de mapear e de domesticar o que está acontecendo.’


Isso que está acontecendo, afirma Hermano Vianna em seu texto para ‘Sexta Feira’, é ‘uma inclusão social conquistada na marra, quando a periferia deixa de se comportar como periferia, ou deixa de conhecer o ‘seu lugar’.


‘A gente sempre foi muito retratado de fora para dentro. Acho que hoje está tendo muito mais o retrato de dentro para fora. Daí vem a força maior’, declara Guti Fraga, fundador do grupo Nós do Morro, do Vidigal, no Rio.


Vianna lembra, em entrevista à Folha, que, ‘de certa forma, a arte moderna sempre colocou a periferia um pouco no ‘centro das atenções’.


‘Lembro -e é só um exemplo bem conhecido- da relação de Picasso com as esculturas iorubás; no Brasil, então, essa relação parece ainda mais intensa’, ele diz.


‘O que há de novidade é que talvez não seja mais necessário passar pelo centro para a cultura da periferia se transformar em cultura de massa. Além disso: nem os Racionais nem a banda Calypso precisam mais do aval do velho centro (com suas tradicionais instâncias -críticas- de consagração, sejam elas universitárias ou industriais) para se tornarem o centro de novos vastos mundos’, diz Vianna.


Para o antropólogo, ‘o centro está se dando conta da mudança’ que, paradoxalmente, ‘o coloca de lado, ‘fora do centro’ (o centro reduzido a um mundinho sem importância)’.


‘Por isso uma certa curiosidade espantada, ou uma rejeição categórica, mas ainda educada’ aos fenômenos e à cultura de periferia, diz.’


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Revista sugere idéias novas e propõe reflexão sofisticada


‘Uma das melhores publicações ‘cabeça’ do país se aproxima de uma década de existência insistindo na sua saudável ‘ambigüidade’.


‘Não era uma revista acadêmica, mas também não era uma revista para o público em geral’, diz Paula Miraglia, uma das editoras, sobre o ‘estranhamento’ causado por ‘Sexta Feira’ quando ela surgiu no final dos anos 90.


‘No começo, essa ambigüidade tornava difícil que ela tivesse um lugar tanto na academia quanto para um público mais amplo’, afirma a antropóloga.


O fato é que a revista continua nesse entroncamento mal definido, o que no fim das contas lhe dá liberdade para tratar temas com profundidade, ao mesmo tempo em que permite que os autores abram mão de fôrmas teóricas e conceitos mais rígidos.


De toda forma, ‘a própria persistência, essa insistência para chegar ao número oito, é um reflexo do reconhecimento que a revista teve’, acredita Miraglia.


Publicada pela editora 34, com 1.500 exemplares de tiragem, a revista que nasceu do encontro de alguns alunos de graduação em ciências sociais na USP é vendida agora em livrarias, ao preço de R$ 30.


‘Dos editores [nove, ao todo], hoje dois são professores, um da USP, outro da Unifesp; todo mundo é mestre e quase todo mundo é doutor; e com atividades das mais diversas’, relata Miraglia.


Um dos aspectos interessantes da publicação é o fato de ser temática -forma que foi adotada desde o número quatro. Idéias novas sobre ‘corpo’, ‘tempo’, ‘utopia’, ‘guerra’ e, agora, ‘periferia’ surgiram desde então.


‘A escolha dos temas tem muito a ver com o momento; ‘guerra’ foi muito assim, ‘utopia’ também tinha isso’, explica Miraglia. Qual o próximo assunto? ‘Sexo’, ela responde. Então está bom.’


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Maior escolaridade impulsiona inserção cultural


‘‘Exceto pela violência e em parte pela favelização, a situação social melhorou em quase todos os indicadores’ na periferia de São Paulo nas duas últimas décadas, diz o cientista político Eduardo Marques, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, em seu texto para o último número da revista ‘Sexta Feira’.


Esse aparente ‘paradoxo’ tem relação com a emergência de uma cultura urbana de periferia, afirma o antropólogo Hermano Vianna.


Marques afirma, em seu texto, que ‘os indicadores sociais dos moradores de favela’, se comparados os anos 80 com dados da década de 90 e com o ano 2000, ‘sugerem uma melhora da situação social nesses espaços em ritmo superior ao resto da cidade, embora as favelas continuem num patamar muito inferior’.


‘O que está presente nesse novo padrão?’, ele pergunta. ‘Uma população pobre, mas muito mais escolarizada, muito menos jovem, com grupos sociais mais idosos.’


Questionado sobre a possível associação entre o avanço cultural da periferia e a melhora objetiva de escolarização e menor pobreza absoluta, Vianna responde que vê relação entre os dois fenômenos.


‘Quando se fala na qualidade das escolas públicas brasileiras nos anos 40, com Villa-Lobos dando aula de canto orfeônico, geralmente se esquece que só uma minoria estudava -agora a maioria estuda, e mesmo se o ensino não é o mesmo (é feito aos trancos e barrancos, afinal não entra tanta gente na escola impunemente), isso sim provoca uma grande diferença, uma transformação emergencial na história de nossa ‘mentalidade nacional’, diz Vianna.


Ele repete a declaração de outro antropólogo, Otavio Velho, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, de que ‘não há mais grotões no Brasil’.


‘Além da escolaridade, há cada vez mais ferramentas de conexão com o resto do mundo em todas as periferias do Brasil -na Rocinha, no Rio, há cerca de 50 lan houses’, ele diz.


‘Em São Gabriel da Cachoeira, alto rio Negro, no Amazonas, eu conversei com um índio que me disse: ‘Se o governo trapacear, eu ligo para o ‘New York Times’.’


MERCADO EDITORIAL
Eduardo Simões


Ediouro assume a Nova Fronteira


‘A Ediouro Publicações negocia a compra de 50% das ações da Nova Fronteira, segundo apurou a Folha. O grupo já detém metade das ações da editora, e a negociação deve ser finalizada até o início de janeiro.


Após efetuada a compra, a Ediouro deverá manter o corpo editorial e o nome Nova Fronteira. Procurado pela reportagem, Carlos Augusto Lacerda, diretor da editora, não confirmou a venda das ações.


A Ediouro, no entanto, apresenta outra versão para as mudanças que estão por vir. Segundo Luiz Fernando Pedroso, diretor-superintendente da editora, o que está em curso não é uma operação de compra, e sim uma ‘reestruturação e profissionalização administrativa’ da Nova Fronteira.


‘O Lacerda passa a ocupar a presidência do Conselho Administrativo, eu acumulo a função de presidente da Nova Fronteira, e estamos contratando o Mauro Palermo para ser o diretor-editorial, ou seja, para a administração do dia-a-dia’, disse Pedroso.


Ainda de acordo com apuração da Folha, Lacerda continuará à frente de ações na internet -o editor é responsável pela colocação do texto integral de ‘Grande Sertão: Veredas’, de Guimarães Rosa, na rede- e permanecerá com o controle das obras de referência em língua portuguesa, como o dicionário Caldas Aulete e a gramática de Celso Cunha.


Bom negócio


Uma fonte do mercado considera que a Ediouro fez um ‘bom negócio’, porque comprou a empresa ‘no azul’. A Nova Fronteira teria vendido a outra metade da suas ações pelo dobro do valor pago pela Ediouro, pelos outros 50%, em meados do ano passado.


Há cerca de quatro anos, a Ediouro já havia adquirido a Relume-Dumará e a Agir. Atualmente, a editora conta com 3.500 títulos em seu catálogo. Após confirmar a compra da Nova Fronteira, a casa passa a ter mais 1.500 títulos e a contar com o prestigioso catálogo da Nova Fronteira, que publica obras de João Guimarães Rosa, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, João Ubaldo Ribeiro, João Cabral de Melo Neto, somente para citar os autores brasileiros.


Entre os estrangeiros, além de Virginia Woolf e dos premiados com o Nobel de literatura Thomas Mann, Jean-Paul Sartre e Günter Grass, a Ediouro ‘fisga’ para seu catálogo o escritor de origem afegã Khaled Hosseini, autor do best-seller ‘O Caçador de Pipas’.


Histórico


A fundação da Ediouro data de 1939, quando os irmãos Jorge e Antônio Gertum Carneiro, vindos de Porto Alegre para o Rio de Janeiro, criaram a Publicações Pan-Americanas, empresa que deu origem à editora. Já a Nova Fronteira foi criada em 1965, pelo jornalista e político Carlos Lacerda, avô de Carlos Augusto.’


POLÍTICA CULTURAL
Folha de S. Paulo


Senado aprova Fundo Setorial do Audiovisual


‘O Senado aprovou ontem, por unanimidade, o projeto de lei que cria o Fundo Setorial Audiovisual. A matéria, que foi encaminhada à sanção presidencial, cria novas receitas para o cinema, incluindo um mecanismo substituto ao da Lei Rouanet, que expira em 31/12.


A Ancine (Agência Nacional do Cinema) previu que haveria crise na produção cinematográfica em 2007, caso o projeto não fosse aprovado agora, já que quase todos os filmes feitos no país usam financiamento da Lei Rouanet.


Além de passar para a Lei do Audiovisual o mecanismo de patrocínio, o projeto prevê novas fontes de receita para o cinema e estende às TVs abertas o uso da renúncia fiscal.


A possibilidade de uma crise no setor, devido à expiração da Lei Rouanet, determinou a tramitação do projeto em regime de urgência, tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado. Na Câmara, foi feito um substitutivo ao projeto original. O novo texto acomodou pontos criticados por parte do setor audiovisual.’


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


‘JK’ e os movimentos


‘No intervalo de reuniões sobre o pacote econômico, Lula recebeu os movimentos sociais, sem ‘photo-op’. O encontro entrou na escalada de manchetes da Record, mas nem foi citado no ‘Jornal Nacional’.


MST, CUT etc. ‘pressionam a levar o governo para a esquerda’, na Reuters Brasil, e ‘querem Lula de volta à esquerda’, na Folha Online. O MST avisou que ‘acabou a fase do movimento chapa-branca’ e a UNE já programou ‘manifestações de rua, uma contra Henrique Meirelles’. Depois, no Terra e outros, Lula declarou que sua crítica à esquerda foi ‘brincadeira’.


De volta às reuniões sobre o pacote, na manchete do ‘Valor Econômico’ de ontem, o destaque de que seu plano de metas ‘se inspira em JK’, não na esquerda.


BARULHO AQUI E ALI


Longe dos movimentos sociais, após o primeiro encontro do ‘conselho político’, com presidentes dos partidos governistas, segundo a Folha Online, Lula saiu dizendo que o pacote econômico que vem desenhando deve provocar ‘um barulho aqui e outro ali’, mas é necessário porque:


– Há muita coisa que atrapalha o crescimento do país, muitas normas que têm que ser mudadas. E que só vão ser mudadas se a gente tiver boa cumplicidade com o Congresso e a sociedade brasileira.


OS PRIMEIROS


Como resultado do encontro, no registro do ‘JN’ e na manchete dos portais à noite, os presidentes dos ‘nove partidos da coalizão’ serão os primeiros a conhecer as medidas do pacote, em nova reunião na terça ou na quarta que vem. Mas nada de conversar também com os movimentos.


JÁ ESCOLHE


Antes do conselho, as exigências de cargos se espalhavam pela internet, como na manchete do UOL, ‘PDT decide apoiar Lula e já escolhe ministérios’. Não quer Pesca e coisas assim, mas Educação, Cidades, Previdência, por aí.


PRAGMATISMO


E prossegue a análise do ciclo eleitoral na América Latina. Ontem foi o ‘Washington Post’, com longo artigo de um diretor do Hudson Institute, ‘Uma esquerda pragmática na América Latina’. O início:


– Não muito tempo atrás, Lula era recebido como uma influência castrista na centralização da economia ao estilo comunista e na subversão das democracias vizinhas. Após quatro anos de governança responsável, não dispara mais os alarmes em Washington.


A idéia é que a Casa Branca ‘tenha Lula em mente’ ao lidar com os recém-chegados.


‘ENGAJAR’


É o que pensa também o subsecretário para o hemisfério no Departamento de Estado, Thomas Shannon, que quer ‘engajar de forma inteligente’ a região para conseguir ‘um impacto significativo’.


Em resposta à BBC Brasil, sobre a ‘agenda travada’ no comércio, disse que Brasil e EUA ‘têm política comercial agressiva, o que é positivo’, mas tudo se decidirá na OMC.


Já o novo embaixador do Brasil em Washington fala em ‘relançar’ a negociação entre Mercosul e EUA, ‘mas os americanos têm resistido’.


SEM SES NEM MAS


Em editorial sobre Pinochet, a ‘Economist’ foi direta:


– Sem ses nem mas. Seja o que for que o general tenha feito pela economia, ele foi um homem mau… Mesmo se a história vier a se importar de recordar que ele privatizou a previdência, isso não vai apagar a memória da tortura.


Já a reportagem ‘Acabando com a impunidade’ avaliou que seu ‘legado involuntário’ é o movimento crescente por punição de déspostas. Até o Brasil, observa, ‘acaba de abrir a sua primeira investigação’, sobre Brilhante Ulstra.


‘NÃO MEXA COM A RÚSSIA’


A capa da ‘Economist’ expõe o ‘abuso da Rússia com seu músculo de energia’. O poder do petróleo e do gás, o mesmo que dobrou o Brasil na Bolívia, levou agora a britânica Shell e parceiros japoneses a passar concessões à russa Gazprom. Isso, avisa a revista, ‘é ruim para seus cidadãos, para seus vizinhos’, a saber, a Europa Ocidental, ‘e para o mundo’.’


REINO UNIDO
Folha de S. Paulo


Jornal oferece recompensa por ‘serial killer’


‘O jornal ‘News of the World’ ofereceu uma recompensa equivalente a R$ 1 milhão em troca da identificação do assassino das prostitutas encontradas mortas desde o dia 2 de dezembro, no sudeste da Inglaterra.


Com a confirmação ontem pela polícia britânica de que os corpos de duas mulheres encontrados em Suffolk, um pequeno porto no oeste da Inglaterra, são de duas prostitutas desaparecidas, chegou a cinco o número de vítimas.’


INTERNET
Fabricio Vieira


Acionista do Submarino aprova fusão da empresa


‘Os acionistas do site Submarino aprovaram ontem a fusão da empresa de comércio eletrônico com a Americanas.com. Da fusão nascerá a empresa B2W, que terá ações negociadas na Bovespa.


No pregão de ontem, as ações do Submarino responderam positivamente à notícia e fecharam com valorização de 3,07%, após 533 negócios. Por enquanto, as ações do Submarino seguirão sendo negociadas normalmente na Bolsa de Valores de São Paulo.


As Lojas Americanas deterão o controle da nova companhia, com participação de 53,25% no capital social. Os outros 46,75% ficarão com os acionistas do Submarino. Os acionistas das Lojas Americanas já haviam concordado com a fusão.


‘Acho muito positiva a operação. As perspectivas de crescimento, que já eram boas para o Submarino, ficam ainda melhores’, avalia Luiz Antonio Vaz das Neves, diretor da corretora Planner.


Falta agora a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) aprovar e, conseqüentemente, conceder o registro de companhia de capital aberto à B2W.


A nova empresa terá apenas ações ON (ordinárias), que serão negociadas no Novo Mercado da Bovespa.


O Novo Mercado é um segmento especial da Bolsa em que são listadas ações de companhias comprometidas com práticas diferenciadas de governança corporativa.


Neves confia na aprovação da operação pela CVM e afirma que que em aproximadamente dois meses os papéis da nova companhia podem estar sendo negociados na Bolsa.


Como resultado da fusão, cada ação ordinária do Submarino será trocada por uma nova ação da B2W.’


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