Segunda-feira, 13 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Lembranças agridoces de José Saramago

Por Eduardo Szklarz em 29/06/2010 na edição 596

Conheci José Saramago no Rio de Janeiro, em 1999, durante a Bienal do Livro. Eu era repórter do saudoso caderno ‘Espetáculo’, do Estado de Minas, e ele acabava de ganhar o Nobel de Literatura – o único até hoje conferido a um autor de língua portuguesa. Foi uma entrevista exclusiva, mas nenhum de nós curtiu muito. Ele estava tenso com o assédio dos jornalistas e só topou sentar diante de meu gravador porque tinha um evento programado em Belo Horizonte na semana seguinte.

Nos encontramos numa sala do hotel onde ele se hospedava. Saramago chegou, me cumprimentou com cara fechada, sentou na poltrona e lançou um olhar do tipo ‘faça aí a pergunta, vamos acabar logo com isso’. Como ele havia citado Belo Horizonte e Tiradentes no livro Cadernos de Lanzarote II, perguntei se sentia alguma identificação por essas cidades. Quem sabe, assim quebrava o gelo. ‘Não há uma identificação, há um conhecimento’, respondeu o escritor, lembrando que já estivera em BH, Mariana, Ouro Preto, Congonhas e Tiradentes. E que gostava muito de Minas Gerais.

Saramago foi viver em Lanzarote, nas ilhas Canárias, depois que o livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) estremeceu de vez sua relação com a Igreja católica. Disse-me que não desejava voltar a morar em Portugal, embora considerasse que ainda vivia por lá. Também não guardava rancores da Igreja: ‘Disseram que eu era um velho comunista, mas isso não me desagradou. Pior seria se dissessem que eu era um comunista velho.’

Fui direto ao ponto.

O senhor tem falado muito dos problemas que o Nobel lhe trouxe, como a própria pausa no livro. Afinal, vale a pena o senhor continuar acreditando que o Nobel é notório apenas pelo lado material (quase um milhão de dólares)?

José Saramago – Eu disse algumas vezes que, no fundo, o que causava toda essa agitação tinha muito a ver com o próprio valor material do Nobel. Mas também é certo – e agora tenho a experiência – que o Nobel tem um certo valor mítico. No plano cultural, suponho que é o único acontecimento que reúne todo mundo diante do rádio e da TV. O Nobel confere à pessoa uma maior visibilidade no mundo. Recebê-lo faz aumentar não só a responsabilidade intelectual, mas também moral. Levar o Nobel nas costas é de fato muito agradável do ponto de vista material, mas envolve uma responsabilidade muito grande, que não se resolve por uma questão de prudência no que se diz ou faz. O que digo chega mais longe. As pessoas querem saber o que penso. Não passei a ter autoridade sobre tudo que há no mundo, mas as pessoas esperam uma opinião, um parecer, e não se pode fugir a isso.

Cegueira intelectual

Eu admiro muito alguns livros de Saramago. Ensaio sobre a Cegueira e O Evangelho… me parecem sublimes. Fiquei entediado com os Diários, mas ele sem dúvida foi um dos maiores artesãos da palavra, um dos grandes estilistas da língua portuguesa. No entanto, não posso dizer o mesmo sobre declarações que o escritor fazia. Para satisfazer a ‘responsabilidade moral’, creio que ele cometeu graves disparates.

Um deles foi comparar os territórios palestinos com Auschwitz. Para começo de conversa, os nazistas implementaram uma política sistemática de extermínio. Juntos, os cinco crematórios de Auschwitz podiam queimar 4.675 corpos por dia. Era a morte em escala industrial. Nada menos que 1,5 milhão de judeus, homossexuais, ciganos e outras minorias morreram nesse campo, a maioria em câmaras de gás. Dois terços da população judaica da Europa foram eliminados pelo regime nazista, que só parou a matança porque sucumbiu ante os aliados.

É preciso muita cegueira intelectual pra comparar isso com a Cisjordânia – onde a população palestina, aliás, cresceu acima de 3% ao ano entre 1997 e 2007, segundo a UNRWA. Para se ter uma ideia, a taxa anual do Brasil é inferior a 2%. Em Gaza, o crescimento populacional foi ainda maior: 4,5% ao ano, um dos mais altos do mundo.

Cegueira ideológica

Saramago não foi o único escritor cegado pela ideologia. O filósofo francês Jean-Paul Sartre foi no mínimo ambíguo diante do terror soviético e dos horrores perpetrados nos campos do Gulag. ‘Como não éramos membros do Partido’, escreveu Sartre, ‘não tínhamos o dever de escrever sobre os campos de trabalho forçado soviéticos.’ Em carta ao escritor Albert Camus, Sartre disse: ‘Como você, acho esses campos intoleráveis. Mas acho igualmente intolerável o uso que a imprensa burguesa faz deles.’

É verdade que Saramago levantou a voz contra a ditadura de Fidel Castro e defendeu os direitos dos dissidentes cubanos. Quando falava do Oriente Médio, porém, sua visão se tornava seletiva. Ele disparou de forma reiterada contra Israel, sem nunca mencionar os abusos que os palestinos sofrem nas mãos de seus próprios líderes. Ele se calou ante as matanças mútuas promovidas por militantes do Fatah e do Hamas. Ele se calou ante a opressão feminina nos territórios ocupados, do mesmo jeito que se calou ante as perseguições que escritores e jornalistas palestinos sofrem se ousam criticar seus governantes.

Em nenhum momento ele reconheceu que os escritores israelenses – como Amos Oz e Abraham Yehoshua – têm plena liberdade para denunciar a intransigência dos religiosos de Israel. Sem ter que ir viver numa ilha por causa disso.

Cegueira voluntária

Em seu último romance, Caim, Saramago faz o mesmo que os fundamentalistas religiosos que ele tanto criticou: uma interpretação literal do Antigo Testamento. Relata as ações do Deus ‘sanguinário e caprichoso’ dos judeus para concluir que a Bíblia é um ‘manual de maus costumes’. Puxa, terá sido Saramago tão ingênuo a ponto de não saber que as narrativas mitológicas são simbólicas? Como diz o escritor americano-português Richard Zimler, especialista em religiões comparadas, o Velho Testamento não é prosa. É poesia.

‘A história de Adão e Eva é poesia. Ou será que haverá alguém que acredite que Eva foi feita de uma costela de Adão?’, questiona Zimler. ‘O autor desta narrativa do Antigo Testamento está a recorrer a uma linguagem simbólica – tal como poetas muito posteriores, como Shakespeare ou Camões, recorreram à linguagem simbólica para criar suas obras-primas. Ou será que algum leitor de Os Lusíadas pensa que os navegadores portugueses depararam com um temível gigante chamado Adamastor nas suas viagens da época das Descobertas?’

O escritor americano Jack Miles, prêmio Pulitzer de Literatura, deixou bem clara essa distinção quando escreveu Deus, uma biografia. Ele informou o leitor que não estava fazendo uma análise teológica, mas uma abordagem do protagonista do romance mais vendido da História: a Bíblia. Ou seja, o Deus do livro de Miles é uma personagem literária. Arrogante, invejoso, cheio de defeitos humanos, mas uma personagem que é produto da compilação de histórias feita na Bíblia. Muito diferente do tratamento que Saramago lhe dá em Caim.

Pena que Saramago, o escritor brilhante, tenha sofrido dessa cegueira voluntária. Fico mais perplexo ao ver que muitos admiradores dos livros de Saramago admirem também seus comentários.

É fácil usar belas palavras para fazer comparações irresponsáveis. Difícil é ter discernimento para entender que nenhum prêmio – nem mesmo o Nobel – garante a um bom ficcionista o dom de distorcer a realidade.

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Jornalista

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