Domingo, 09 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ARMAZéM LITERáRIO >

No tempo das reportagens inesquecíveis

Por Marcelo Lyra em 15/02/2011 na edição 629

A revista Realidade é um mito do jornalismo brasileiro, referência sempre citada em quase toda escola de comunicação que se preze. Publicada de 1966 a 1976, ela reuniu um primoroso time de jornalistas que colecionou prêmios, fez escola e estabeleceu as bases do conceito de reportagem, mas não resistiu às pressões da ditadura militar. Este livro representa uma amostra do que foi essa revista, dando ao leitor atual ideia da qualidade desse jornalismo independente e iconoclasta, sempre interessado em dar o máximo de informações aos leitores, mas sem ser didático.

A seleção dos artigos foi feita por dois dos principais jornalistas da época, José Hamilton Ribeiro e José Carlos Marão. Pelos títulos selecionados, percebe-se que os autores procuraram ser ecléticos, abordando temas como saúde, religião ou política. A pretensão não foi escolher as melhores reportagens, mas as mais marcantes segundo a visão dos dois jornalistas.

Logo de cara, uma reportagem inesquecível: José Hamilton Ribeiro visita Chico Heráclito, um autêntico coronel do Nordeste. Como a maioria dos repórteres da revista, Hamilton é dono de grande facilidade para ganhar a confiança de seus entrevistados. Assim, o coronel, com a maior naturalidade, admite todos os vícios do coronelismo, como manutenção dos currais eleitorais, compra de votos, favores políticos, controle sobre a lei e a Justiça em sua região, eleição fácil de filhos e protegidos e um longo etc. A reportagem influenciou visivelmente o documentário Theodorico Imperador do Sertão, premiado filme de Eduardo Coutinho, feito em 1978.

Uma aula de jornalismo num livro imperdível

Algumas reportagens são muito atuais, enquanto outras são preciosos retratos de época. Além disso, são escritas de forma simples e objetiva, o que as torna deliciosas de ler. A visita ao espírita Chico Xavier, por exemplo, é um retrato honesto e emocionante, que não se furta, porém, a aspectos espinhosos da vida do líder. Justamente por isso, tornou Zé Hamilton persona non grata na região de Uberaba (MG), onde Xavier vivia. Ossos do ofício.

Mesmo assuntos difíceis são tratados de uma forma tão original que a história do primeiro transplante de rim feito no Brasil, por exemplo, se torna não apenas informativa, mas um retrato de superação e solidariedade. Uma lição de vida.

Mais adiante, outra reportagem busca retratar o cotidiano das desquitadas. Ela é particularmente interessante por fornecer um resumo do comportamento da classe média brasileira, absurdamente repressiva. O rótulo de ‘desquitada’ era uma pecha que tornava a mulher um pária da sociedade. Quase nenhum homem de bem aceitaria casar-se com uma delas e as tratava quase como prostitutas. Para o leitor de hoje, é inacreditável constatar que, tão poucos anos atrás, a sociedade brasileira era tão machista e reacionária quanto os fundamentalistas islâmicos do Irã, por exemplo.

Todas as reportagens são acompanhadas de um quadro que procura contextualizar o texto e sua época. O livro traz ainda entrevistas com Marão e José Hamilton, que descrevem o dia-a-dia da redação e da criação da revista que, curiosamente, iria se chamar Veja. Uma aula de jornalismo num livro imperdível, que nos mostra que infelizmente nunca mais as revistas brasileiras atingiram esse nível de reportagem.

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