Sexta-feira, 29 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ARMAZéM LITERáRIO >

Os deslimites da literatura

Por Beatriz Resende em 15/02/2011 na edição 629

A cada dia me convenço mais que a experiência literária é uma experiência de exílio. De muitas, diversas formas de exílio. Trazendo o imenso sofrimento que o exílio impõe, mas também como oportunidade da descoberta de amores, saudade, de necessidades insuspeitas e afetos inusitados. Falo do exílio imposto, daquele que separa, discrimina, expulsa. Mas falo também do exílio escolhido, necessário mesmo, na busca por uma solidão desejada, inevitável para que reencontros e satisfações se completem. No sentido contrário ao exilado fica o poderoso, o autoritário, o que decide a punição pelo afastamento, pela negação. Geralmente, são as qualidades do exilado que se tornaram insuportáveis ao covarde que o afasta. Banir, negar a territorialidade, a nacionalidade, o convívio com seus pares são formas, ainda que aparentemente mais civilizadas, mais longas e por mais tempo dolorosas, de punir o inimigo.

Júlia Kristeva, em escrito confessional, relativiza a questão dizendo que o exílio é um processo que é ao mesmo tempo uma dor e uma eleição. Reparo que às vezes preciso do exílio para o prazer ciumento que a obra literária oferece. Sei também que, se um dia me exilassem da literatura, era capaz de enlouquecer. Mas preciso voltar e dividir esse prazer para que ele se complete. No entanto, muitos dos marcados pela cicatriz do literário, como amantes enlouquecidos, não sabem partilhar a beleza, o conforto, o prazer que lhes parecem somente a eles dedicados. Edward Said, que vê no intelectual quase inevitavelmente um exilado, nos ajuda a compreender a dureza da segregação tantas vezes praticada pelos zeladores das letras quando afirma que o mais doloroso é ‘ser exilado por exilados, reviver o processo do desenraizamento nas mãos dos exilados’.

A condenação de Lima Barreto

Reger o mundo das letras é, frequentemente, ordenar a exclusão. A Poética, desde Aristóteles, é um documento, antes de mais nada, político.

Os que falam em nome do literário estão sempre prontos a levantar rapidamente as pontes levadiças de seus castelos diante de estranhos, plebeus, rebeldes. Fechados em nossos castelos ou conventos, só nos resta combatermos uns aos outros. Não o bom combate, que avança, mas as defesas reativas. A verdade, porém, é que no mundo globalizado, com tecnologias de informação e comunicação cada vez mais incontroláveis, o exílio completo vai se tornando cada vez mais difícil.

No ano passado, nosso mundinho foi sacudido pela corajosa polêmica levantada por Flora Sussekind com o ensaio ‘A Crítica como Papel de Bala’. A troca de respostas mobilizou jornalistas, escritores e professores. A desgastada oposição entre crítica acadêmica e jornalística ressurgiu. Deselegâncias e elegâncias destacáveis se revelaram. Pouco depois, Ítalo Moriconi levou o debate para mais próximo da vida acadêmica, dos programas de pós-graduação, antigos e fortes no país, e introduziu o tema do mercado.

No ensaio de Flora Sussekind, o mais polêmico foram as referências ao crítico Wilson Martins. Os que conviveram quinzenalmente com seu ímpeto destrutivo diante dos mais jovens, dos mais desimportantes academicamente, bem sabem quantos escritores poderiam ter ido adiante sem sua guilhotina. Difícil compreender o mérito de um autor que, pretendendo ser intérprete da inteligência brasileira, não hesitou em condenar, enfurecido, Lima Barreto, expulsando autor e personagens (cito ‘o mulatinho Isaías’) de seu cânone e concluindo: ‘O álcool foi a evasão compensadora do sentimento íntimo de malogro, a fuga psicanalítica para a loucura que, sendo nele hereditária, foi, entretanto, buscada com empenho sistemático.’ E ainda falam em censurar os coloquialismos de Monteiro Lobato!

A tecla ‘delete’ existe

Com isso, abandonou-se a reflexão final do ensaio de Flora, que vê a importância de troca criadora entre linguagens, em intervenções que interpelam leitor ou espectador a atravessar o abismo que separa a atividade da passividade. Penso no exemplo da dramaturgia atual, que numa renovação que levou séculos para abandonar cânones que foram além do gosto das elites e se impregnaram no telespectador cansado, fala, simplesmente, em ‘novas escritas cênicas’. Importante, radical e generoso.

Kindles, iPads e outros provocam hoje uma briga de cachorro grande em torno do livro real ou virtual, da cultura digital e suas imensas possibilidades. Independentemente dos rumos mercadológicos, os autores já se utilizam, e cada vez mais, da cultura digital, dos blogs como forma de apresentação e partilha de ideias e dos sites que promovem a desierarquização e eliminam espaços. Escritores de idades, origens sociais ou espaciais diferentes podem partilhar a mesma via, sem precisar esperar pelos julgamentos acadêmicos ou avaliações editoriais. Renovam a escrita literária e se expõem. Exageram por vezes na importância do que postam, de suas identidades ou seus avatares. Não é grave, a tecla ‘delete’ existe. Procuram, cada vez mais, reunir os múltiplos recursos das novas tecnologias.

‘Nova aventura intelectual’

Porém, se no mundo virtual a criação literária caminha, a crítica pouco avançou. Basta visitar os principais sites. São muitos os textos inéditos, diversas as propostas literárias, mas a crítica é pouca. Principalmente aquela que busca formas de incluir, e não exilar. A reflexão teórica sobre a literatura é, entre nós, escassa e necessária. Cabe sobretudo aos professores e pesquisadores, que merecem mais apoio.

Diante dos múltiplos suportes, dos lançamentos e relançamentos, de autores que se revelam por eles mesmos, a crítica é imprescindível. A crítica literária honesta e desinteressada – acadêmica, jornalística, blogueira – voltada para o leitor, talvez para o último leitor, e não para o mercado, pode colaborar decisivamente para a existência de uma literatura de múltiplas tendências, inovadora, competente.

Diz Jacques Rancière, à maneira de seu mestre ignorante: ‘Os artistas, como os pesquisadores, constroem o palco onde a manifestação e o efeito de suas competências ficam expostos, incertos nos termos do novo idioma que traduz uma nova aventura intelectual.’

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Professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ e pesquisadora do CNPq e da Faperj

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