Quarta-feira, 08 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ARMAZéM LITERáRIO >

Polêmica da propaganda em São Paulo acaba no NYT

Por Luiz Antonio Magalhães em 14/12/2006 na edição 314


Leia abaixo os textos de quarta-feira selecionados para a seção Entre Aspas.


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O Estado de S. Paulo


Quarta-feira, 13 de dezembro de 2006


SP SEM PROPAGANDA
Larry Rohter


Guerra de outdoors no ‘NYT’


‘Imaginem uma metrópole moderna sem nenhuma publicidade em outdoor: sem cartazes, anúncios em néon, painéis eletrônicos. Com a chegada do ano novo, esta cidade de 11 milhões de habitantes, sobrecarregada pelo que as autoridades chamam de poluição visual, pretende oferecer a seus moradores uma visão desimpedida da paisagem urbana.


Para isso, as autoridades desencadearam um debate e colocaram em conflito concepções divergentes do que esta cidade, a maior e mais próspera da América do Sul, deveria ser. Planejadores urbanos, arquitetos e defensores do meio ambiente argumentam que a proibição faz São Paulo chegar mais perto do ideal urbano. A lei é ‘uma rara vitória do interesse público sobre o privado, da ordem sobre a desordem, da estética sobre a feiúra, da limpeza sobre o trash’, escreveu Roberto Pompeu de Toledo, colunista da revista Veja.


Grupos empresariais e publicitários, porém, consideram a legislação lesiva à sociedade e uma afronta a suas profissões. Eles dizem que a liberdade de expressão foi inibida, empregos serão perdidos e os consumidores terão menos informações. Também alegam que as ruas serão menos seguras à noite, por causa da perda de iluminação da publicidade.


‘É uma lei radical que prejudica as regras da economia de mercado e o respeito ao império da lei’, disse Marcel Solimeo, economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo. ‘Vivemos numa sociedade de consumo, e a essência do capitalismo é a disponibilidade de informação sobre produtos.’


O impacto mais visível da lei promete ser ao nível do olho e acima. As enormes placas e telas que dominam o perfil urbano promovendo de tudo – de carros, jeans e celulares a bancos e sex shops – terão que sair, assim como todas as outras formas de publicidade em espaço público, como a distribuição de folhetos.


A lei também regulamenta as dimensões das placas de lojas, e obrigará muitas companhias conhecidas a reduzirem o tamanho delas.


Aprovada em setembro, por 45 votos a 1, a proibição vai entrar em vigor em 1º de janeiro. Os opositores reclamam que a data não dá tempo suficiente para os comerciantes cumprirem a lei, e que as multas são extremas e o resultado será, inevitavelmente, uma diminuição da vida urbana.’


O Estado de S. Paulo


Lojistas vão à Justiça contra Kassab


‘Associação Comercial compra briga contra a lei Cidade Limpa


A Associação Comercial de São Paulo (ACSP), representando 30 mil associados na capital, resolveu partir para a disputa judicial contra a lei Cidade Limpa, concebida pelo prefeito Gilberto Kassab (PFL) – vice-presidente licenciado da própria entidade. A ação será protocolada até o fim da semana para garantir, por intermédio de liminar, que os associados não precisem remover nos prazos indicados pela lei anúncios publicitários ou mudar o tamanho dos letreiros nas fachadas de lojas.


A lei de combate à poluição visual obriga à retirada de todo tipo de anúncio publicitário externo na cidade – como outdoors, painéis, totens e peças no alto e nas laterais dos prédios – a partir de 1º de janeiro. Os anúncios nas fachadas do comércio (peças indicativas) deverão se enquadrar nos novos tamanhos até 31 de março.


‘Como não houve uma chance para discutirmos com mais tempo o projeto de combate à poluição visual na Câmara Municipal, vamos tentar uma decisão judicial que obrigue a Prefeitura a negociar novamente com o setor’, disse Marcel Domingos Solimeo, economista-chefe da ACSP. O projeto foi aprovado em outubro. A entidade avalia que os prazos estabelecidos na lei são impraticáveis para seus 30 mil associados. ‘Queremos dialogar, porque não achamos que a cidade pode ficar do jeito em que ela está. Mas somos contra ao caráter proibitivo da lei aprovada na Câmara.’


LIMINAR


Solimeo afirmou que a entidade não vai orientar seus associados a manterem as peças publicitárias externas nas ruas após 1º de janeiro se a ação não for julgada até o início do ano. ‘É uma decisão individual de cada empresa. Não vamos arcar com a conseqüência, pois sabemos que a lei prevê a aplicação de multas’, afirmou.


O Sindicato das Empresas de Publicidade Exterior do Estado (Sepex) tem orientado todos os associados a não cumprirem prazos estabelecidos na lei. Com base em liminares já concedidas a algumas empresas, o Sepex aposta que a Justiça vai considerar o projeto inconstitucional.’


RÁDIO
Luciano Borborema


‘Hoje, o rádio tem muita coisa burra no ar’


‘Vinte de outubro de 1990, com o clipe Fullgás da cantora e compositora Marina Lima, a Music Television (MTV) começava sua história no Brasil. Já são mais de 16 anos dedicados à música. Durante esse tempo, a emissora voltada ao público jovem foi mostrando sua cara também fora da telinha. Atualmente, o canal marca presença na internet com o recém-lançado MTV Overdrive – canal de banda larga, o site: www.mtv.com.br e dispõe também de uma revista com circulação nacional. Trata-se da Revista MTV que já tem meia década no mercado. No ano que vem, a emissora pretende entrar no segmento radiofônico e colocar no ar a Rádio MTV FM. Ainda sem dial definido e muito trabalho pela frente, o diretor de Marketing do canal de TV, Zé Wilson Fonseca, em nome do diretor-geral da MTV, André Mantovani, concedeu uma entrevista exclusiva ao Estado e fala como e quando surgiu a idéia de criar uma rádio, diz se a audiência da TV pode cair com o telespectador virando ouvinte, conta se a Rádio MTV entra no dial como concorrente direta das rádios jovens, entre também, entre outras coisas, sobre a futura emissora de rádio brasileira.


Como e quando surgiu a idéia de criar a Rádio MTV FM?


Há muitos anos que a gente pensa nisso. Essa idéia sempre esteve presente nos planos da TV de alguma maneira. Em alguns anos mais, em outros menos, nada muito concreto, mas sempre pairando no ar.


E por que só agora decidiram levar a idéia adiante?


Neste ano, a gente fechou parcerias com as rádios 89 FM (São Paulo), Oi FM (Rio) e Atlântida (Porto Alegre) para transmitir o VMB. Nós acabamos gostando do resultado e resolvemos, a partir desse ponto, colocar em prática, nosso sonho de ter uma rádio.


Já tem previsão de quando a emissora entra no ar?


No primeiro semestre de 2007 com certeza. Sem a menor sombra de dúvida. Temos muito trabalho pela frente.


Já tem um dial e pode ser que a emissora não se chame Rádio MTV?


A gente ainda não tem uma sintonia, mas o nome será Rádio MTV. Isso é certo.


A idéia é atuar só na capital paulista ou vocês pretendem criar uma rede de rádio?


A princípio a idéia é começar por São Paulo e na medida do possível estar presente onde o sinal da MTV chegar. Lembrando que hoje cobrimos quase todo o Brasil.


A sede da emissora será no mesmo prédio da TV, no Sumaré, em SP?


Sim. A idéia é colocar no ar uma rádio feita pela própria MTV. Nada melhor que começar um projeto com os olhos focados de perto. E com a rádio no mesmo local da TV tudo ficará mais fácil de controlar.


Vocês pretendem usar o mesmo profissional da TV para trabalhar na rádio?


Para algumas funções o profissional de rádio vai ser necessário que venha do meio, mas a equipe principal será da própria MTV.


Qual será o público-alvo da MTV FM?


A idéia é continuar falando com os jovens. Isso não muda.


A audiência da TV não pode cair com o telespectador virando ouvinte?


Acreditamos que aumente. O objetivo é levar o telespectador da TV para o rádio e vice-versa. Isso já ocorre com a revista, o site, a TV e agora queremos fazer o mesmo com a Rádio MTV.


As campanhas realizadas na TV vão ter espaço na rádio?


Essa é uma das coisas fortes da MTV e certamente nós vamos levar também para a rádio. Obviamente teremos adaptações. Aqui na TV a gente trabalha com o visual e fazer essa adaptação apenas para o áudio vai ser um grande desafio para nós. Vamos estudar qual é a melhor maneira para causar o mesmo impacto do que é realizado na TV. E terão tanto campanhas exclusivas para a Rádio MTV como outras realizadas para os dois veículos: rádio e TV.


Os VJs da TV vão ser os locutores da Rádio MTV?


Alguns deles sim. Temos de ter. Afinal, eles são a cara da MTV. Mas não descartamos a possibilidade de que algum locutor do mercado venha fazer parte da grade de locutores da futura emissora.


A MTV FM entraria no dial como concorrente direta das emissoras jovens?


Sim. Nosso foco é o público jovem e vamos fazer algo diferente do que as rádios jovens estão realizando. E vamos usar a variedade de veículos que hoje nós temos para se comunicar com a audiência: TV, site, revista e agora a rádio. Hoje, nenhuma emissora de rádio voltada a esse público tem todos esses canais para se comunicar com a audiência.


Você é contra o jabá (pagamento às emissoras para executar determinada música)?


Sou. E apesar das lendas ele não existe na MTV. Obviamente, quando você faz um projeto acústico, é em conjunto com uma gravadora, mas tudo é feito por conta de uma escolha nossa. Ou seja, a gente respeita a audiência. Não existe nenhum modelo de negócio voltado especificamente para as gravadoras.


E com a Rádio MTV nascendo no ano que vem, o jabá estaria longe dela?


Se a gravadora está investindo num artista de gosto duvidoso e força a gente a incluir na nossa programação em função de dinheiro, você vai ter a longo prazo ou a médio prazo uma deterioração da sua marca; da sua imagem. E garanto que na Rádio MTV não vai ter jabá.


Atualmente, as rádios jovens estão apresentando conteúdo de qualidade para o seu público-alvo?


A MTV tem uma tradição de arriscar. Talvez essas rádios estejam precisando correr alguns riscos. Tem muita coisa burra no ar, de baixa qualidade. Sei que isso pode até gerar audiência, mas acredito que tem de partir do princípio de quem está do outro lado seja inteligente. Você só tem a ganhar com isso. Primeiro que ele vai se sentir lisonjeado e vai voltar. E segundo, se não for, você estimula. Existe espaço para ser ocupado nesse sentido, os ouvintes estão atrás disso. E é aí que a Rádio MTV vai entrar.’


TELEVISÃO
Keila Jimenez


Bruxaria na Globo


‘Do espiritismo à bruxaria. Seguindo a onda mística que parece ter tomado conta da Globo, a próxima novela das 6 da emissora será inspirada na Wicca, a religião das bruxas.


Eterna Magia, que começa a ser produzida este mês, é a primeira novela-solo de Elizabeth Jhin, ex-colaboradora da Antônio Calmon e Walther Negrão, entre outras grifes. Com texto supervisionado por Silvio de Abreu, o folhetim começa a ser gravado em fevereiro e manterá a linha de trama de época que marca o horário: será ambientada no fim dos anos 40.


A história principal vai girar em torno de três lindas irmãs apaixonadas pelo mesmo homem. Malu Mader, Fernanda Vasconcellos e Maria Flor serão as protagonistas a disputar o coração de Murilo Rosa na trama. Uma fábrica de essências será o ganha-pão de boa parte dos personagens.


Malu, que recusou muitos convites da Globo este ano, aceitou viver uma bruxa pianista em Eterna Magia.


As primeiras cenas da novela devem ser gravadas em Dublin, na Irlanda. Werner Schünemann, Cássia Kiss, Leonardo Miggiorin, José de Abreu e Eliane Giardini também estão no elenco.’


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Ratinho pode trocar SBT por Band


‘Ratinho pode estar de mudança para a Band. Pelo menos é esse o boato nos corredores da emissora, que já produziu um piloto de uma nova atração, possivelmente encabeçada por Ratinho. A Band contratou para esse programa toda a antiga equipe do apresentador, incluindo ET e Rodolfo. O único que ainda não fechou a ida para a Band foi Ratinho, que tem mais um ano de contrato no SBT, mas está na geladeira há meses. O SBT tinha pensado em dar ao apresentador um telejornal, mas desistiu. E Ratinho não tem nenhum projeto em andamento na rede.


Entrelinha


Assim como em outras novelas de Carlos Lombardi, Pé na Jaca será repleta de participações especiais e de entra-e-sai de personagens. Juliana Knust é a próxima a entrar em cena.


Destaque no extinto Show de Calouros, os travestis podem ganhar uma atração no SBT em 2007. Idéia de Silvio Santos, claro.


O E! Entertainment Television apresenta amanhã, às 12h30, o anúncio dos indicados para o Globo de Ouro, que será realizado em 15 de janeiro. A premiação é considerada uma prévia do Oscar.’


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Folha de S. Paulo


Quarta-feira, 13 de dezembro de 2006


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


‘Favelas no more?’


‘Com destaque em sites como ‘Washington Post’ e outros, o correspondente Terry Wade, da Reuters, enviou de ‘Heliopolis, Brazil’ a longa reportagem ‘Fim das favelas? Algumas amadurecem no Brasil’. A de Heliópolis, em São Paulo, tem centenas de casas pintadas num ‘caleidoscópio de cores vibrantes, na rua principal’, ginásio comunitário, telecentro. Virou ‘um bairro com casas de tijolos, ruas pavimentadas, esgoto, água e eletricidade para 120 mil pessoas’. ‘Mas’, claro, ‘Heliópolis ainda é uma das exceções’.


Que o diga o correspondente do ‘El País’, Juan Arias, que escreveu sobre ‘As milícias, novo pesadelo das favelas’. É uma ‘polícia paralela’ que ampliou ‘o terror’ e em dois anos já dominou 92, das 600 do Rio.


No ‘El País’, ‘aspecto de uma das favelas do Rio de Janeiro’


FIM DE UMA ERA


O colunista Martin Wolf, do ‘Financial Times’, comenta como ‘a morte de Pinochet e a saúde de Fidel marcam o fim de uma era’ no hemisfério.


Passou o tempo, foram-se os ‘revolucionários barbados e os déspotas militares’ -e ‘um estilo sóbrio de política democrática se estabelece em toda a região’, que não crê em ‘milagres’, mas na ‘política econômica do possível’.


O caminho a seguir, propõe, é o do Chile. E a opção para os EUA é ‘deixar os países livres para fazer suas experiências’.


CONTRA A POBREZA


Para Wolf, o maior risco é não enfrentar a pobreza. Para o ‘El País’, em editorial, ‘foi a mensagem do eleitor: façam algo contra a pobreza’. O jornal espanhol também vê a moderação se estabelecendo nos governantes -e saúda ‘a atitude de diálogo’ dos EUA.


Para registro, o blog The Huffington Post, democrata, sublinhou que até os inimigos Alan García e Hugo Chávez ‘fizeram as pazes’ -e a região está mais unida que nunca, numa ‘derrota para a guerra fria’ buscada antes por Bush.


A RECUPERAÇÃO


Ontem também no ‘FT’, o editor para a América Latina, Richard Lapper, ressaltou ‘a recuperação dos mercados’ dos últimos anos-e apesar do temor com o ano eleitoral.


Citou o retorno da Bolsa no Brasil: US$ 100 aplicados em outubro de 2002 valem hoje US$ 833. Entre as explicações da recuperação regional, ‘o controle dos gastos públicos’ e as ‘exportações à China’.


Existe o risco de mudança no ‘ciclo das commodities’, mas a demanda chinesa não indica queda e gigantes como Petrobras e Vale ‘se tornam mais globais’ e seguros. E a estabilidade faz crescer, aos poucos, o mercado interno.


SÓ CONSULTORIA


No site do ‘Wall Street Journal’, o vice do FMI dizia que seu ‘papel na região está mudando para consultoria’:


– Estamos extremamente felizes, porque é um resultado do sucesso econômico…


UMA GUERRA GLOBAL


O ‘WSJ’ voltou a destacar, sobre a disputa envolvendo a brasileira CSN e a indiana Tata, como as ‘empresas do mundo em desenvolvimento estão cada vez mais lutando por bens internacionais, pela liderança em commodities’:


– A concorrência entre os gigantes emergentes deve prosseguir, dizem analistas, conforme China, Índia, Brasil e Rússia usem sua riqueza crescente para ampliar sua presença global e assegurar suprimento de petróleo etc.


No título, ‘guerra global’.


É O CÂMBIO


Nada disso, diz o novo blog Economínimo, de José Paulo Kupfer, no iG/Nomínimo:


– Após a compra da Inco pela Vale, por estonteantes US$ 18 bi, agora é a CSN que parte para cima da Corus com US$ 9,6 bi… O essencial: a taxa de câmbio valorizada. O fato é que estão todos correndo para levar reais para fora.’


TELES vs. TVs
Humberto Medina


Anatel só analisa TV da Telefônica em 2007


‘A Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) deverá analisar a entrada da Telefônica no mercado de TV por assinatura no final de janeiro. Segundo o relator do processo, conselheiro Pedro Jaime Ziller, é possível que, dado o tamanho da tele, a autorização seja condicionada ao cumprimento de obrigações. Em entrevista à Folha, Ziller rechaçou interferência política no processo e disse que fará a análise sob o ponto de vista da convergência dos serviços de voz, internet em banda larga e TV.


Ele reconheceu que a agência foi mais rápida ao liberar a Globo (Net) para fazer parceria com a Embratel (Telmex) para oferecer os serviços conjugados num mesmo pacote. Nesse caso, diz, a análise foi mais rápida porque a rede da Net é muito menor do que a das teles. O risco de liberar as teles para entrar no mercado de TV sem uma análise cuidadosa, segundo ele, é criar um monopólio de serviços convergentes. A seguir, trechos da entrevista.


FOLHA – Como o sr. está vendo o processo de convergência, com teles se associando à TV por assinatura?


PEDRO JAIME ZILLER – A convergência é uma imposição do usuário em decorrência de uma evolução tecnológica. É muito mais fácil contratar uma empresa para receber todos os serviços. O caminho para a convergência é natural, vai ocorrer para todas as pessoas que tiverem condições de ter todos os serviços em casa.


FOLHA – Qual o papel da agência reguladora nessa convergência?


ZILLER – Duas coisas são fundamentais. Uma é a universalização, garantir que todas as pessoas tenham acesso. A outra é a concorrência. O movimento natural das empresas é se fundir. Temos que cuidar para que isso tenha uma regulamentação que garanta a competição.


FOLHA – A regulamentação virá por meio de ações da agência reguladora, como resoluções?


ZILLER – Claro. Esse caso da convergência das teles com empresas de TV eu devolvi [para a área técnica da agência] e te falo por que devolvi: eu quero uma análise não só do mercado de TV por assinatura. Tenho que analisar olhando o que acontecerá num mercado convergente. O que vai acontecer se a Telemar ou qualquer outra tele tiver o controle de uma empresa de televisão? Está ampliando a competição? Tá bom, em um primeiro momento, até pode estar. Mas, se estamos falando em convergência, não posso ficar preso no passado, tenho que olhar para a frente.


FOLHA – Mas há o argumento de que as teles são grandes investidores e poderiam dar mais competitividade a esse mercado. O sr. concorda com essa avaliação?


ZILLER – Claro, mas o fato de você colocar mais gente no mercado de TV por assinatura não significa que no mercado convergente isso vá significar mais competição. A infra-estrutura das teles é maior. Claro que [a tele] vai atingir mais pessoas e poderá oferecer coisas tão boas quanto ou melhores [do que é oferecido hoje]. Então, por essa análise, está fazendo uma boa competição na área de TV por assinatura. Mas pode estar fazendo uma boa competição hoje e monopólio amanhã.


FOLHA – A Telefônica argumenta que a parceria da Embratel [Telmex] com a Net [Globo] foi aprovada rapidamente e que essas empresas já estão oferecendo voz, internet e banda larga. Reclamam de tratamento diferenciado.


ZILLER – O que significa a Telefônica fazer [TV por assinatura], a Telemar fazer, a Brasil Telecom fazer? É essa a análise que tem que ser feita. A gente não pode restringir o negócio à TV por assinatura. Separar dá errado. Se a agência anuir previamente a um negócio sem verificar a conseqüência dessa concentração, vai instruir o Cade [Conselho Administrativo de Defesa Econômica] errado.


FOLHA – Mas a análise não foi mais rápida quando se tratou do caso da associação Globo/Net com Telmex/Embratel?


ZILLER – Foi. O que estava em jogo ali era a Net, foi a Net que pediu o negócio. E a Net tem uma rede pequena, comparada com a das teles. Era um caso mais simples.


FOLHA – Então a análise no caso da Net-Telmex foi diferente porque a base de clientes e a infra-estrutura eram menores?


ZILLER – Isso. E aí nós vamos chegar ao ponto principal: já propus que haja empresas que só possam vender plataforma [acesso a rede de infra-estrutura, fios ou cabo]. O negócio dela é fornecer plataforma para empresas de serviços. Separar de verdade. Empresa de rede não pode vender serviço. Pode até pertencer ao mesmo grupo, sem problema, mas tem que ter contabilidade separada.


FOLHA – Voltando ao caso da liberação da autorização de DTH [Direct to Home, autorização pedida pela Telefônica que permite oferecer TV por assinatura via satélite], o que o sr. está afirmando é que há tratamento diferente porque as empresas são diferentes?


ZILLER – Isso é a assimetria regulatória, que tem que existir. Se uma empresa pequena pedir um MMDS [autorização que permite oferecer TV por assinatura por meio de microondas, como faz a TVA] para uma cidade pequena, que não tem o serviço, por que não dar? Se a Telemar pede uma licença para uma cidade dessas, é completamente diferente. Você está entregando para uma empresa que tem redes poderosas um outro meio de chegar ao usuário para fazer ‘triple play’ [serviço de voz, banda larga e TV].


FOLHA – O ministro Hélio Costa (Comunicações) foi repórter da Globo e é ligado ao setor de radiodifusão. Não interessa aos radiodifusores a competição com as teles. O sr. está sendo pressionado politicamente pelo ministro para segurar o processo de entrada das teles no mercado de TV?


ZILLER – Nego veementemente. Jamais o ministro discutiu comigo se a Telefônica podia ou não podia [entrar no mercado de TV], se a Globo quer ou se a Globo não quer. Quando saíram as notícias, o ministro me perguntou o que estava acontecendo, e eu expliquei para ele. Ele perguntou: e quando vai sair? Eu disse que neste ano não sai, como falei para todo mundo.


FOLHA – E por que não sai?


ZILLER – Porque a área técnica não tem condições de pegar todas as informações em um prazo tão curto. Eu calculo que no final de janeiro a gente já tenha os dados suficientes para levar o meu relatório ao conselho.’


JORNALISMO CULTURAL
Adriana Ferreira Silva


‘Imprensa é pálida sombra dos 80’


‘Simon Reynolds, 43, é representante de uma época em que quem ditava o que seria moda na música eram semanários britânicos como ‘NME’ e ‘Melody Maker’. Autor de livros sobre eletrônica e pós-punk e colaborador de jornais como o ‘New York Times’, o jornalista inglês ganha sua primeira coletânea em português, ‘Beijar o Céu’. Em entrevista à Folha, Reynolds fala sobre a imprensa inglesa, a crítica e o ‘hype’.


FOLHA – Como você selecionou os textos do livro?


SIMON REYNOLDS – Sugeri uma lista, e meus editores escolheram os que consideravam melhores. Embora o livro se chame ‘Beijar o Céu’, uma referência ao meu amor por psicodelia, os textos escolhidos não são os mais psicodélicos. Tive o cuidado de separar os mais analíticos e claros. Isso não foi uma coisa deliberada, mas acho que foi melhor, porque os artigos mais poéticos não poderiam ser bem traduzidos em outra língua. Também quis escolher artigos que dessem a dimensão do tanto de coisas que tenho escrito, do hip hop ao indie rock. No final, não incluímos nada sobre eletrônica. Há assunto para outro volume.


FOLHA – Seu livro é um registro de uma ‘era’ que não existe mais, quando as revistas de música determinavam o que seria moda. Como analisa esse período?


REYNOLDS – Não diria que esse livro é o registro do fim de uma era, mas, certamente, é um documento de uma cultura particular da reportagem sobre música, que surgiu na Inglaterra, no meio dos anos 70, e durou até o início dos 90, baseado em publicações musicais semanais -’NME’, ‘Melody Maker’, ‘Sounds’. O inusual é que eles deixavam pessoas muito jovens escreverem. Qualquer um que pudesse escrever ou tivesse atitude ou algum tipo de direção e determinação podia se desenvolver nesse ambiente. Você não precisava de nenhuma lição de jornalismo. Os textos publicados nos semanários musicais do Reino Unido eram híbridos, misturavam crítica, fofoca, sociologia amadora, reportagem emotiva, protesto, prosa poética. Mas isso, nas mãos de mestres -como Barney Hoskyns e Paul Morley, da ‘NME’-, era incrivelmente viciante. As revistas também eram competitivas entre si, cada uma querendo descobrir novas músicas e criar ideologias, e havia disputas internas. Isso lembra o rap, a maneira como os MCs tentam desclassificar-se entre si, e como eles criam uma personalidade teatralizada. Hoje, há isso nos blogs.


FOLHA – A crítica musical decaiu?


REYNOLDS – Sim. A ‘NME’ é uma pálida sombra do que era nos gloriosos anos 80. Há alguns textos mais arriscados -como na ‘The Wire’, em revistas de arte e, é claro, há a internet, blogs e revistas na web, como ‘Pitchfork’ e ‘Stylus’. Mas algo da intensidade e do atrito entre os escritores se perdeu.


FOLHA – Que elementos deve ter uma boa crítica musical?


REYNOLDS – Estilo individual. Bom gosto. Fome por música nova e habilidade para apontar o futuro. O crucial é amar a música. Há poucos jornalistas de música que são adeptos de criticar outras críticas. Opções extras: um grande ego, um pouco de agressividade, competitividade e não faz mal ter absorvido um pouco de teoria crítica ou filosofia ou psicologia. E, finalmente, senso de humor.


FOLHA – Deste livro, quais foram os textos mais difíceis de escrever?


REYNOLDS – O capítulo sobre o Joy Division, porque eles eram uma banda importante para mim e era intimidante escrever sobre um grupo que já tinha sido tema de tantas reportagens brilhantes. E também havia um irredutível mistério sobre eles.


FOLHA – Há algum artista do livro que parou de falar com você?


REYNOLDS – Morrissey. Não por causa dessa entrevista, que é um pouco elogiosa. Depois, tentei entrevistá-lo para outra publicação, e ele declinou.


FOLHA – Qual seu texto preferido?


REYNOLDS – Gosto de todos, é óbvio! O do Morrissey é particularmente querido -os Smiths eram minha banda favorita nos anos 90. Acho que a seleção do [livro] ‘Sex Revolts’ é realmente boa. Me orgulho por, nesta década, ter escrito sobre o grime, do qual, nessa seleção, há apenas um exemplo. Descobri algo que estava realmente no início e expliquei como era importante e excitante. É uma vergonha que o grime não tenha chegado a nós como deveria ter chegado.


FOLHA – No passado era muito mais difícil para uma banda se tornar um ‘hype’. Hoje, todo dia surgem Arctic Monkeys, Strokes…


REYNOLDS – A internet, com seus julgamentos instantâneos, encoraja o ciclo do ‘hype’ a se estender sem controle. Como a música deixou de ser segredo na net, pessoas estão julgando os álbuns meses antes de eles serem lançados. Os fãs têm cópias dos CDs antes deles chegarem às lojas! Existia um elemento disso na antiga imprensa britânica, quando as bandas tentavam sair na capa sem ter feito um single. Mas, hoje, isso se tornou crônico. Bandas têm vidas muito curtas, ao menos enquanto forem ‘hypes’.


FOLHA – Muitos críticos passam a vida toda escrevendo sobre um estilo. Você escreveu sobre vários…


REYNOLDS – Escrevo sobre o que atrai meus ouvidos. Acho que isso acontece por ter crescido lendo a ‘NME’. O ideal de crítica é alguém que tem uma visão particular do que está procurando por meio da música, mas encontra exemplos disso em todos os estilos musicais. Felizmente, a música continua mudando, então, você tem de continuar ajustando suas idéias.’


***


Reynolds se destaca como articulador


‘Mais de uma década após lançar seu primeiro livro, o jornalista britânico Simon Reynolds finalmente tem alguns de seus textos traduzidos para o português -em ótima versão do também jornalista e DJ Camilo Rocha.


Os ‘nerds’ de música com certeza acompanham artigos seus, em jornais e revistas como o ‘New York Times’ e a ‘The Wire’, ou têm na estante volumes de obras-referência, como ‘Energy Flash: A Journey through Rave Music and Dance Culture’, bíblia sobre a cena eletrônica -que terá versão ampliada em 2008.


E o que ele tem de tão especial? Além de estar antenado, de criar notícia, como fez com o garage rap inglês, o famoso grime, Reynolds é daqueles jornalistas que conseguem articular idéias sobre música pop, filosofia, política e história. Isso, às vezes, rende algumas viagens, como na longa entrevista com Morrissey, incluída na coletânea lançada pela Conrad -e que tem momentos meio maçantes.


Mas, por outro lado, sua descrição sobre o sombrio cenário industrial de Manchester, no Reino Unido, é essencial para entender a ‘vibe’ das bandas Joy Division e The Fall. Além de criar imagens instigantes, Reynolds constrói relações improváveis, como a que liga a psicodelia do Pink Floyd com as raves inglesas do início dos anos 90. Pode ser delírio, mas é muito bem argumentado.


BEIJAR O CÉU


Autor: Simon Reynolds


Editora: Conrad


Preço: R$ 27,90 (229 págs.)’


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