Terça-feira, 26 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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CADERNO DA CIDADANIA >

O culpado é o mordomo

Por Jotabê Medeiros em 05/11/2013 na edição 771

“Se alguém sofreu na mão do Roberto Carlos, esse cara sou eu”, diz, com um jeito solene, o escritor e psicoterapeuta Roberto Pinheiro Goldkorn. Logo em seguida, cai numa gargalhada: “Desculpe, não resisti”.

O desabrido bom-humor de Goldkorn, de 73 anos, é daquele tipo de sarro que tiramos de nós mesmos somente muito tempo após termos passado por uma situação trágica, um grande susto. O espirituoso autor best-seller de 14 livros de psicoterapia carrega um passado doloroso: ele foi o editor do lendário O Rei e Eu (Ediplan Editora), o primeiro livro que o cantor Roberto Carlos recolheu das livrarias, em 1979. Era um livro de memórias do ex-mordomo de Roberto, Nichollas Mariano (codinome de José Mariano da Silva Filho), que trabalhou 11 anos com o cantor.

Não é uma história colorida como as calças pantalonas da Jovem Guarda. Em 1979, após dois anos de batalha judicial entre Roberto Carlos e o editor, com a vitória do primeiro, o livro foi apreendido na gráfica antes mesmo de ser distribuído. “Num domingo de manhã, quatro ou cinco oficiais de Justiça, policiais e 11 advogados chegaram para levar os livros”, lembra Goldkorn.

Foi uma paulada. O livro era um investimento maciço do impulsivo e ambicioso editor, que tinha 29 anos à época e mandara imprimir 70 mil exemplares. “Perdemos tudo: carro, casa, editora, dinheiro”, lembra Goldkorn, que hoje vive em Campinas (SP). Há 34 anos, por insistir em lutar para garantir a circulação do livro, Goldkorn ficou liso e sem perspectiva. Pior: viu-se obrigado a se esconder da polícia.

Já o autor, Nichollas Mariano, foi condenado a 1 ano e meio de prisão no desfecho do caso. Não foi para a cadeia porque era réu primário. A última vez que se viram, autor e editor, foi há mais de dez anos. “Ele vivia num subúrbio do Rio, estava muito mal de saúde e na miséria. Nunca mais nos vimos desde então. Deve estar por lá ainda, em algum subúrbio distante”, conta Goldkorn.

Mariano teria hoje 68 anos, caso esteja em circulação. “Ele era ‘semianarfa’, fui o ghost writer do livro. Quando vi o calhamaço de anotações dele, quase incompreensíveis, tive de reescrever tudo. Censurei muito o livro, tive de pinçar várias coisas muito pesadas. Eu pensava: se eu fosse o Roberto Carlos, iria me rasgar quando lesse isso aqui”, afirma o ex-editor.

“Livro de mentiras”

Roberto Carlos e Nichollas Mariano se conheceram na Rádio Carioca, no Rio, em 1960. Mariano era disc-jóquei da emissora e tinha se apaixonado pela música do artista. Tocava Roberto incessantemente. Um dia, Roberto foi à rádio e tornaram-se amigos. Mais tarde, por (conta-se) sugestão de Erasmo Carlos, o artista o levou para trabalhar consigo (e o transformou inclusive em seu procurador). Tentou também transformá-lo num ídolo da Jovem Guarda, mas não deu certo – Roberto Carlos escreveu a contracapa de Não Adianta Nada, um compacto simples que Mariano lançou, sem sucesso, em 1967.

“Esse é o Nichollas, mora! O jovem promete muito e sua voz transmite. Sua música vai ser a lenha! Ouçam com carinho e atenção esse primeiro compacto do meu amigo Nichollas. Vocês vão entrar na onda dele”, escreveu o ‘Rei’.

Mas, em 1971, a lenha virou carvão. Roberto teria sabido de comentários desairosos de Mariano a respeito de sua mulher na época, Nice, e o demitiu. Sem conseguir se readaptar ao mercado de trabalho, Mariano começou a escrever sobre sua experiência. O livro continha uma mensagem para o cantor: “Desculpe, amigo, se alguma coisa aqui não lhe agrade. Mas acho que fui, além de tudo, sincero e honesto. Para todos que o curtem sem o conhecer, para aqueles que veneram o ídolo, o semideus intocável, distante e material, projetado pela máquina, este livro só vai engrandecer a sua imagem, tornando-a mais humana, mais palpável, mais próxima”.

Nichollas Mariano (que, segundo reportagem antiga do Jornal da República, teria sido vendedor, técnico de futebol, gerente de boate e corretor) tinha sido amigo de Roberto desde os tempos das vacas magras, mas agora estava sozinho. Pôs seu manuscrito debaixo do braço e saiu procurando editora. Foi até a Editora Francisco Alves, mas o tipo de literatura que produziu não teria ali a menor chance. Ocorre que as anotações caíram na mão de Rosemary Alves, ex-mulher de Roberto Goldkorn, e ela lembrou que o ex-marido buscava algo estrepitoso para editar. Foi assim que o livro chegou às mãos da Ediplan.

Quando soube da intenção do ex-mordomo, Roberto Carlos enviou seus advogados para pedir uma cópia do livro. Queriam ler antes da publicação. Acontece que a Global Editora, alguns meses antes, tinha conseguido entrar, em plena ditadura, com uma ação contra a censura prévia. E ganhara. Foi uma ação histórica. “Quando o advogado ligou dizendo que queria ler o livro, eu até queria ceder. Mas meu advogado (Paulo Pires, na época) disse: ‘Nada disso, a censura acabou neste país. Isso aqui é a Constituição, e não há poder maior que isso. Não se pode mais impedir a publicação de nada’.”

Mas havia, como ainda há. “O livro é uma inverdade no seu todo”, disse Roberto Carlos à revista Veja, após entrar com ação na 26ª Vara Cível para pedir o embargo da venda e da distribuição do livro. Contra o mordomo, entrou com uma ação criminal na 9ª Vara Criminal de São Paulo. Venceria ambas.

Roberto Goldkorn (que foi preso três vezes na ditadura, torturado e integrou o MR-8) conta que tentou por todos os meios convencer Roberto Carlos de que a liberdade de expressão era mais importante, e no final das contas aquele era um livro elogioso. Procurou todos os artistas com quem Roberto tinha amizade na época. “Todos me viraram as costas. É impressionante o corporativismo dessa classe. A única que me recebeu foi a Wanderléa. Ela tentou interceder, mas voltou dizendo o seguinte: ‘Roberto odiou o livro’.”

Tentaram ainda ir atrás de uma outra amiga íntima de Roberto, a atriz Lady Francisco. Ela também não trouxe boas notícias do lado de lá. Ouviram de alguém que “Roberto disse que vocês vão ser esmagados como piolhos”. Os aventureiros da primeira biografia proibida descobririam que não era um bom negócio brigar com alguém da casa real brasileira.

O primeiro a sofrer retaliações foi Mariano. “Traidor, cuspindo no prato que comeu!”, vociferava alguém num dos dois telefonemas ameaçadores que ele recebeu. Outra pessoa dizia para ele cuidar bem dos dois filhos que tinha no Rio de Janeiro. A editora contratou um guarda-costas para acompanhá-lo.

Se os fãs de Roberto tinham razão em demonstrar tamanha ira soberana? Bom, Mariano realmente deu com a língua nos dentes além da conta. Contou sobre as aventuras sexuais do cantor, sobre seu gosto variado nesse quesito, e chegou a detalhar como, durante suas viagens, Roberto teria mandado reservar vários quartos em um mesmo hotel para, antes do espetáculo, fazer sessões de aquecimento com suas ocupantes. “Muitas vezes elas se ofereciam a mim primeiro, antes de chegar até ele”, afirmou Mariano.

Outras inconfidências do ex-mordomo (que o escritor Goldkorn acredita que era mais um roadie, e que a adoção dessa função veio como jogada de marketing, com currículo inventado e tudo) dão conta de que Roberto Carlos ganhava tanto dinheiro que costumava jogar sacos cheios de notas em cima de móveis. A Mariano era dada a incumbência de guardar. Uma vez, ele contou, achou um saco de dinheiro atrás do guarda-roupas – um apressado Roberto Carlos o teria atirado para o alto.

“Mas você nunca pegou nada para você?”, perguntou-lhe uma vez seu editor, ao que Mariano respondeu: “E para quê? Eu tinha tudo que precisava, nunca imaginava que um dia estaria passando necessidade”. Apesar de Roberto Carlos afirmar que só havia mentiras no livro, foi por meio dele que se soube, pela primeira vez, que o ‘Rei’ tivera um filho, Rafael, com uma fã, coisa que ele só admitiria em 1991.

Livros incinerados

Um rolo compressor judiciário atingiu a editora. O principal advogado de Roberto na causa era o ex-ministro da Justiça Saulo Ramos, que também venceu uma causa do cantor contra o jornal Notícias Populares nos anos 1990. Ainda assim, haveria resistência. Mesmo após a 26ª Vara Cível de São Paulo decidir pelo recolhimento do livro na gráfica. “O livro não traz escândalos e creio que no final vamos ser indenizados e agradecer a publicidade”, disse na ocasião o advogado da editora, Carlos Augusto Bambino Costa. Ele era o último de três advogados a levar adiante a causa – hoje, Bambino Costa vive em Macaé, no Rio.

Numa das audiências com o juiz encarregado do caso, o magistrado quis saber o que significava a palavra “transar” que tinha lido no livro. O advogado disse que derivava de “transacionar”, fazer uma troca com alguém. “Tá pensando que sou idiota? Não insulte minha inteligência”, retrucou o juiz.

“Tínhamos feito uma grande campanha na Rádio Globo para escolher o nome do livro, havia uma grande expectativa nos jornais. Lembro que tínhamos acumulado 50 kg de revistas e jornais que falavam do volume”, conta o escritor. “Quando se instaurou a confusão, o juiz decretou segredo de Justiça. Era uma piada: o juiz, antes mesmo de decidir, pediu um autógrafo de Roberto Carlos para a filha.”

O ex-editor decidiu optar pela via da desobediência civil. Imaginou que, como a decisão era local, poderia obter uma liminar para vender nas livrarias do Rio de Janeiro. Conseguiu. Conta que empenhou a aliança de ouro, emprestou de amigos, de bancos e mandou imprimir outros 15 mil exemplares. Enfiou boa parte deles numa kombi e foi para o Rio. “A gente estava morrendo de medo que a Polícia Rodoviária nos parasse. Era o equivalente a estar transportando drogas”, compara. Se fosse parado no Estado de São Paulo, iria em cana. Mas chegou ao Rio e distribuiu o material. O livro ficou três dias vendendo – o que explica os exemplares que ainda se acham à venda ainda hoje no Mercado Livre e outros sites, a preços que vão de R$ 250 a R$ 370.

Durou pouco a alegria. Após três dias, os advogados de Roberto Carlos pediram e a 4ª Vara Cível do Rio mandou recolher os livros. O editor não se conformava. Pegava 50 a 100 livros e um caixote de maçã, ia sozinho para a Avenida Rio Branco e vendia ali os exemplares. Vendeu até bastante, recorda-se, até que chegou uma ordem de prisão contra ele. Passou a se esconder até que seu advogado revogasse o pedido de prisão. Três delegacias o procuravam.

“Estávamos exauridos financeiramente. Não tínhamos mais forças, era uma luta contra uma montanha. Se você me perguntar como eu sobrevivi, direi: não me lembro”, diz o escritor. “Essa coisinha ré-ré-ré, humilde, do Roberto Carlos, não é sincera. Ele não tem pudor em exercer o poder”, diz Goldkorn.

Segundo contou o advogado Saulo Ramos no seu livro de memórias Código da Vida, os livros recolhidos foram incinerados no crematório da Prefeitura de São Paulo. “Era ainda a Constituição de 1967, uma legislação mais autoritária”, avalia o biógrafo Paulo Cesar Araújo. “Na época, a própria sociedade era mais tolerante com esse tipo de coisa. Soava mais natural proibir livros, por isso ele (Roberto Carlos) fez isso com tanta tranquilidade”.

Limites da liberdade

O Rei e Eu virou lenda – Araújo conta que, para burlar a vigilância, chegou a ser reeditado com todos os nomes mudados, e lançado no mercado com o título de Eu Sou o Rei, assinado por Adelaide Carraro, a famosa autora de obras eróticas.

“Não se trata de censura, porque censura é mais universal, conceitual. Simplesmente o cara não quer que a vida dele seja exposta sem seu consentimento”, diz Goldkorn. “Por que essa história não é mais mencionada?”, pergunta o escritor, que responde. “Porque foi o primeiro caso, acontecido ainda na época da ditadura, quando as liberdades eram ainda muito atreladas à anuência dos militares”, considera.

Roberto Goldkorn experimenta hoje uma curiosa inversão de papéis. Ele ri com a comparação com a síndrome de Estocolmo. “Se você me pergunta de que lado eu fico nessa questão das biografias, não sei responder”, afirma. “Não tenho para mim uma definição. A liberdade de expressão não é um valor absoluto, ela também tem limites. Eu pergunto a você: se inventarem um aparelho capaz de projetar todos os seus pensamentos em praça pública, quanto tempo você duraria? Quanto tempo eu duraria como psicoterapeuta? Então, nós todos temos o direito de preservar algumas verdades.”

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Jotabê Medeiros, do Estado de S.Paulo

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