Segunda-feira, 01 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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CADERNO DA CIDADANIA >

Procuram-se

Por Janio de Freitas em 05/11/2013 na edição 771

Mudar de opinião não é o mesmo que negar haver ostentado outra opinião. A primeira atitude bastaria, até por honestidade intelectual, aos cantores e compositores que se deixaram levar para a segunda, agora. E até pagaram por pretensa assessoria especial para isso, reabrindo um assunto que se esvaziava, como lhes convinha.

“Nunca quisemos censura” é a frase que resume a nova posição do grupo relativa a biografias. Iniciada com “desculpas ao Brasil”, como Ancelmo Gois publicou no Globo, “se não nos fizemos entender”. Quer dizer, então, que a imensa quantidade dos que divergiram do desejo de censura prévia às biografias são todos idiotas, incapazes de entender o que aquelas celebridades musicais disseram e escreveram com tanta clareza e tanta ênfase até poucos dias.

Essa atitude presunçosa mostrou-se já de início no nome que o grupo de cantores, compositores e aderentes se deu: Procure Saber. Eles têm o saber, seja lá do que for, e os demais ainda têm de sair a procurá-lo. Como em toda atitude presunçosa, esta transmite uma depreciação a que não falta um tempero humilhante. A pretensão de crivo prévio das biografias está impressa ou, quando não, está gravada em suas tantas manifestações, com diferentes autorias. Mesmo em sua nova posição, lá está ainda a intenção inspiradora, explícita e clara na recusa a dispor apenas dos direitos dados pela lei ao difamado ou insultado: “O resultado [do recurso legal] é um pouco tardio. Depois de publicado, todo mundo já leu, já viu pela internet. Isso não vale muito, não.”

Nem precisarão desdizer-se

A solução? A liberdade do biógrafo, mas “com um ajuste”. Ajuste, é óbvio, que só pode ser do texto original ao pretendido pelo biografado. Logo, o “ajuste” é efetivar alterações por censura ou, se recusadas, a censura total à publicação.

São de elevado conceito os advogados contratados para o Procure Saber. Como tais, não ignorariam a dificuldade dos seus clientes de se sentirem vitoriosos no julgamento, em breve, do recurso de editores ao Supremo Tribunal Federal, contra a necessidade de autorização do biografado ou de familiares para a edição de biografias. Também no Congresso, a perspectiva do projeto contra a obrigatoriedade de autorização, cuja preliminar necessária é um exame censor, não permite otimismo ao Procure Saber. Perder, para reis e celebridades, talvez seja visto como um vexame intolerável.

Nem por isso os que expõem nova posição precisariam fazê-lo com o contorcionismo ético e factual a que cederam (não por sugestão dos advogados, mas de um tal especialista). Nem, com a sua exigência de “garantias contra os ataques, os excessos, as mentiras, os aproveitadores”, precisariam continuar tratando os biógrafos como bisbilhoteiros, fofoqueiros, e com essas outras gentilezas que o sempre bem tratado Gilberto Gil agora distribui.

No subsolo do que os integrantes do Procure Saber disseram aparentemente dos e para os biógrafos, ficou evidente que muito se referia aos jornalistas. Não precisam fazer cerimônia. Nem precisarão desdizer-se porque isso é tão pouco ético quanto o que fazem os maus biógrafos e o que criticam na imprensa.

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Janio de Freitas é colunista da Folha de S.Paulo

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