Terça-feira, 02 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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CADERNO DA CIDADANIA >

Roberto Carlos, o rei da sucata

Por Lúcio Flávio Pinto em 12/11/2013 na edição 772

Quantos foram os beijos que demos na companheira de dança ao som de Roberto Carlos? Por isso mesmo – e por outros motivos mais – ele se tornou uma boa referência na nossa vida. Seu sucesso foi típico daquela situação: o homem certo na hora certa no lugar certo. Ele tocou a alma brasileira com novas formas de bolero. Os motivos da paixão e do amor numa roupagem bossanovista.

Sua voz limitada era posta com maestria nas canções românticas, atualizadas para o Brasil que se tornava predominantemente urbano, (quase) cosmopolita e se rejuvenescia. Roberto merecia o que conquistou: cantava bem e compunha muito bem, quando em parceria com Erasmo Carlos. Estimulava os devaneios e os abraços e beijos de casais enlaçados pelo calor intimista da sua voz.

Depois ele descobriu a fórmula fácil de muito mais sucesso ainda para agregar aos jovens as pessoas mais velhas – um público enorme, que lhe proporcionou lucros enormes. A partir daí se tornou um escravo dessa fórmula. Feita a fama, deitou na cama. Nunca mais o ouvi. Mas é então que certas neuroses e tiques se tornaram patológicos. Ninguém vende a alma impunemente, se a desenvolveu o bastante para ter consciência das coisas.

O Roberto Carlos que lidera a campanha contra as biografias não autorizadas é uma paródia do rei da Jovem Guarda dos anos 1960. Alguém já soube dele lendo um livro? Qual a sua contribuição para a cultura que não seja musical do Brasil?

Sua única relação pública com o livro foi proibir e mandar incinerar, com a cumplicidade da editora (a Planeta, que se acovardou e se submeteu ao capricho obscurantista), a biografia dele que Paulo Cesar Araújo escreveu, em 2006 (Roberto Carlos em Detalhes). Foi um dos momentos mais tristes e lamentáveis da história recente do livro no Brasil. Mas um castigo para o autor, fã tão desataviado que não soube editar com um pouco mais de rigor os dados abundantes que coletou sobre o rei. O livro seria muito melhor se tivesse sido reduzido à metade, pelo menos. Tem detalhes demais e sem relevância, que o fã não soube descartar em proveito da qualidade editorial.

Mas não foi por isso que recebeu o veto do censor biografado. Foi exatamente pelo oposto: por aquilo que era mais significativo e profundo na vida de Roberto Carlos. O personagem quer ser o dono de tudo que lhe diz respeito, inclusive a criação alheia. É um Torquemada mal disfarçado, que reivindica o direito de não ser perturbado por nada que não seja a história oficial. E não ser privado de, uma vez decidido à autobiografia, faturar o máximo com o negócio. O som da caixa registradora se tornou música ao ouvido mercantil do rei da pilantragem, como o definiria o tropicalismo, se também não tivesse degenerado, ao impulso de Caetano & Gil envelhecidos (e envilecidos).

Triste sina da cultura brasileira.

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Lúcio Flávio Pinto é jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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