Terça-feira, 26 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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CADERNO DA CIDADANIA >

Ação e reação

Por Maria Fernanda Rodrigues em 19/11/2013 na edição 773

Sobrou para todo mundo no 1.º Festival Internacional de Biografias, que terminou neste domingo, 17/11, em Fortaleza: biografados, herdeiros, advogados, editores, artistas e empresários como Chico Buarque, Caetano Veloso, Paula Lavigne e Flora Gil, que integram o grupo Procure Saber, e até para os defensores da liberdade de expressão e, consequentemente, da liberação de obras sem autorização prévia dos retratados.

O ataque à causa dos participantes veio do cantor Jorge Mautner, no fim do debate que se seguiu à exibição de sua cinebiografia Filho do Holocausto, na noite de sábado. Ele reafirmou sua lealdade aos amigos músicos e disse que não importa o teor do que digam, ele assinará sempre embaixo. Depois, ele fez um show com Jards Macalé.

Já a crítica aos artistas do grupo Procure Saber foi constante nos debates, que se encerraram com a leitura feita pelo jornalista e escritor Lira Neto do que chamaram de Carta de Fortaleza, um documento redigido pelos biógrafos presentes, nomes de peso como Fernando Morais, Ruy Castro, Mario Magalhães, Humberto Werneck, colunista do Caderno 2, entre outros, e endereçada aos congressistas e ministros do Superior Tribunal Federal. Nela, chamam os artigos 20 e 21 do Código Civil de “instrumentos de censura” e manifestam seu apoio à Ação Direta de Inconstitucionalidade desses artigos, movida pela Associação Nacional dos Editores de Livros, e ao projeto de lei 393/2011, do deputado Newton Lima. As duas iniciativas buscam a liberdade de expressão.

“A necessidade de autorização prévia converteu-se no Brasil em constrangimento e impedimento à produção não apenas de biografias, mas de qualquer trabalho de não ficção.”

Por mais que os mediadores tentassem manter uma diversidade de assuntos, o rumo das conversas seguiu a trilha do desconforto gerado pelo grupo Procure Saber e a defesa empreendida há mais de uma década por editores e escritores pela liberação das biografias. Em todas as mesas foram discutidas, com intervenção frequente e favorável da plateia, questões como o limite entre o público e o privado, entre a liberdade de expressão e o direito à privacidade.

Exemplares recolhidos

“Acho que os músicos do Procure Saber pensaram que a questão das biografias fosse ser como a do Ecad, que ninguém entende. Mas as pessoas, até as mais simples, estão falando sobre isso, opinando”, comentou Paulo Linhares, um dos idealizadores do Festival de Biografias, que atraiu um bom público para esta primeira edição – a tenda, que comportava 180 pessoas, esteve quase sempre cheia.

Linhares pretende ampliar o espaço no ano que vem, mas é certo que o festival continua no Estoril, uma construção que foi cassino durante a 2.ª Guerra e ponto de encontro da boemia nas décadas de 1960 a 1980. A casa é sede de exposições e porta de entrada para um grande calçadão a beira-mar, onde há quiosques de livrarias, palco para shows e a tenda dos debates. A edição deste ano custou R$ 600 mil.

Linhares não tem receio de que um festival tão focado se esgote. “Podemos fazer uma edição dedicada a biografias de cidades ou uma com autores ou personagens da América Latina”, comenta o idealizador. Mario Magalhães, prêmio Jabuti por seu livro sobre Marighella, foi o curador.

Dos convidados, apenas João Máximo, biógrafo de Noel Rosa, e Paulo César de Araújo, de Roberto Carlos, não tinham seus livros à venda. No caso de Araújo isso não foi problema e ele chegou a autografar um livro comprado por uma cearense um dia antes de os exemplares serem recolhidos. Para quem ainda quer ler, ele avisa: “Meu livro vai voltar atualizado. Esse Cara Sou Eu não estava na primeira edição, nem a história da proibição. Roberto Carlos não sabe, mas eu também sou terrível.”

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Maria Fernanda Rodrigues, do Estado de S.Paulo

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