Segunda-feira, 06 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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CADERNO DA CIDADANIA >

Ah, as falsificações…

Por Arthur Roberto Germano Santos em 04/05/2010 na edição 588

Baixada a poeira e, ao que me parece, superado o debate que aqui reverbero, resolvi retomar algumas idéias que me pareceram, à época, acuradas e que, até agora, não foram aventadas ou, por esse ou aquele motivo, não circularam nos principais meios de comunicação. Percebo que tudo que até agora escrevi deve soar profundamente enigmático. Espero que essa impressão não se mantenha ao final da leitura.

No dia 12 de março último, o senador da República Demóstenes Torres (DEM-GO) repercutiu e rebateu, via artigo publicado no jornal O Globo, toda uma polêmica gerada por comentários de sua autoria na audiência pública sobre cotas raciais, ocorrida no Supremo Tribunal Federal no dia três de março. A título de informação, a polêmica se iniciou devido a um artigo publicado na Folha de S.Paulo, intitulado ‘DEM corresponsabiliza negros pela escravidão’ (4/3), com resposta, sob aval editorial do jornal, do sociólogo e detrator do sistema de cotas Demétrio Magnoli, sob o título ‘Jornalismo delinqüente’ (9/3). Essa contenda pela verdade contou ainda com intervenções atônitas e esbaforidas de Elio Gaspari (Folha de S.Paulo, 7/3) e Miriam Leitão (coluna no Globo, 7/3), ambos ultrajados com o suposto negacionismo da escravidão perpetrado pelo democrata, ecoando o tom da matéria catalisadora da Folha.

Instituição fundamental

De fato, escrevo este artigo menos interessado na alegada condescendência do senador com nosso passado escravista do que nos argumentos evocados, no já citado artigo, para refutar as acusações de seus opositores (e isso deixando de lado a intrigante esquizofrenia editorial do jornal de São Paulo).

Ah, as falsificações… Segundo o senador Demóstenes, ele não inventa testemunhos e ‘especulações ideológicas em favor das cotas raciais’. Ele teria apenas utilizado argumentos de ‘um dos maiores pesquisadores da escravidão africana, Paul E. Lovejoy’, para ‘rebater o comentário de um estudante secundarista, numa audiência no Senado, para quem os brasileiros haviam praticamente seqüestrado os negros na África’. Ora, para desmentir essa afirmação, o senador recupera o arrazoado do destacado historiador, que demonstra ‘em números detalhados que a ignominiosa prática estava institucionalizada naquele continente pelo menos 850 anos antes de Vasco da Gama atravessar o Cabo da Boa Esperança’.

Imagino eu que, dada a relevância do trabalho do referido autor para a discussão, seria conveniente apontar outra contribuição deste reconhecido pesquisador, retirada do livro A escravidão na África: uma história de suas transformações, edição brasileira de 2002, produzido pela editora Civilização Brasileira: ‘A influência do islamismo e do mercado europeu e muitos outros desenvolvimentos políticos e econômicos afetaram o rumo da escravidão. […] Ou seja, a escravidão se tornou uma instituição fundamental, e não uma característica periférica. […] Na África, por conseguinte, existia um vínculo estrutural entre essa capacidade de fornecer escravos para utilização externa e o emprego interno dos mesmos’ (p. 52). Esse dado, importantíssimo, não aparece na fala do senador! Pergunto-me o motivo…

Exercício de sensibilidade histórica

Ah, as falsificações… Do que pude acompanhar da repercussão na blogosfera política do nosso país, não vi comentários notando o óbvio: ‘Os europeus escravizavam os próprios europeus’. Sabem por que isso não acontece, caros leitores? Pelo simples fato de não ter sido negada aos povos desse continente, como foi aos ditos ‘africanos’, capacidade de organização política e social complexa, com senso cultural de pertencimento e diferenciação. Daí, essa identificação anacrônica e homogeneizante – ‘africanos’ – servir, quando muito, somente como pseudo-argumento para mostrar a culpa ‘deles mesmos’ por sua (má) sorte. Novamente, com Lovejoy: ‘É incorreto pensar que os africanos escravizavam seus irmãos – embora isso algumas vezes acontecesse. Na verdade, os africanos escravizavam seus inimigos’ (p. 55).

Ora, a asserção – mais comum do que se pensa – nos meios políticos interessados de que os africanos escravizavam a si próprios falha em demonstrar o mais importante: analogamente ao que ocorreu com outros povos e civilizações (gregos, romanos, persas etc.) – guardadas as devidas proporções e especificidades –, as sociedades que habitavam o mundo atlântico tinham, sim, a prática da escravidão entranhada em seu funcionamento. Entretanto, isso ocorria, no caso específico dos povos que habitavam a África, devido à inexistência do conceito de propriedade privada da terra, tornando a forma primordial de lucro por meio de propriedade a venda de escravos. Desse fator advém toda a estrutura econômica que ali se estabeleceu e temos, assim, uma explicação estrutural plausível para o tráfico atlântico de escravos, como sustentou outro grande estudioso da escravidão, o historiador John Kelly Thornton. Infelizmente, isso nada tem a ver com a instituição da escravidão e as mazelas que ela deixou em terra brasilis.

Na urgência de encaixar a história na sua própria agenda política, não devemos nos espantar quando, subitamente, apagarem a Guerra do Peloponeso dos livros, sob a justificativa de que ‘gregos escravizavam gregos’, não atenienses, espartanos e seus respectivos aliados. Seria um bom exercício de sensibilidade histórica realizar as reflexões que nos cabem partindo daí.

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Historiador, São Luís, MA

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