Quinta-feira, 02 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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CADERNO DA CIDADANIA >

As muitas Rocinhas do Brasil

Por Mauro Malin em 21/12/2011 na edição 673

Mais uma vez, o IBGE desmente as fantasias grandiloquentes sobre o tamanho da população da Rocinha: atenção, Veja, eram 69.161 moradores em meados de 2010, pelas contas do IBGE. Não 90 mil, nem 150 mil, nem 42,8 mil, nem 200 mil, como se escreveu na revista em momentos variados. Não que a Rocinha seja pouco populosa: se fosse uma cidade, estaria entre as 430 maiores do país.

A Veja, tadinha, luta com esses números há mais de 40 anos. O Observatório da Imprensa publicou uma pequena crônica sobre esses desacertos.

No RJ-TV (21/12), informou-se que a Rocinha “é a maior favela do Brasil”. Não é, caros jornalistas da TV Globo. Não é nem a maior do Rio de Janeiro. É apenas nominalmente a maior. As favelas dos “complexos” do Alemão e da Maré, por exemplo, que formam extensões contínuas de habitações “subnormais”, são, em seu conjunto real, não nominal, bem maiores.

Favelas, dados e visualização

O que ocorre é que o IBGE adotou novo critério de delimitação/denominação dos “aglomerados subnormais” (além de favelas, invasões, assentamentos irregulares e outras categorias), depois de ouvir representantes de governo e sociedade civil dos municípios. E algumas favelas tiveram seus dados retalhados.

Segundo o gerente de Regionalização do IBGE, Claudio Steiner, em Belém e Recife, por exemplo, há favelas muito maiores do que as cariocas.

Duas fontes magníficas de informações sobre favelas estão na tabela de população de aglomerados subnormais (do Brasil inteiro, estado por estado e cidade por cidade, com a toponímia muitas vezes peculiar desses locais) e numa ferramenta que combina fotos do Google com um banco de dados do IBGE.

O defeito é que não aparecem nas fotos os nomes dos lugares. Se o consulente escolher SP e depois digitar Paraisópolis na caixa de texto, verá que as manchas coloridas sobre a foto não recobrem toda a favela. Sobram duas partes que têm outras denominações, mas só o pessoal do IBGE sabe quais são. Na lista de favelas deveria haver algum tipo de referência (“antes parte da favela tal”).

Belém/Ananindeua

Situação dramática se visualiza em Belém. Escolha o estado do PA, depois escreva Baixada do Guamá. É um pedaço de extensa área favelizada na margem direita do Rio Guamá. Arraste o cursor na direção nordeste e vá subindo. A área favelizada não termina. Você verá um estádio com marquise pintada em azul (Estádio Estadual Edgar de Proença), ao norte de uma área verde (Mangueirão).

Pronto, a favela já mudou de município e de nome. Experimente escrever Aglomerado do Una. Fica em Ananindeua, cidade onde em 2010 uma adolescente foi jogada numa cela com homens e sofreu as piores consequências disso. Dos 471.980 habitantes, 288.611 (61,1%) foram contados como favelados em 2010.  

Em diferentes direções dos quadrantes noroeste e nordeste, lá está o mar de lajes sem telhas, ruas de terra, nada de arborização. É o Brasil de 11,4 milhões de pessoas. E, adverte Steiner, do IBGE, há muitos pobres, e muito pobres, fora de favelas.

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