Terça-feira, 26 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
Menu

CADERNO DA CIDADANIA >

A lei do mínimo esforço

Por Carlos Brickmann em 06/03/2012 na edição 684

Tem gente na praça que lê a notícia no jornal, escuta a notícia no rádio, vê a notícia na TV, lê a mesma notícia em dezenas de portais de internet, e em seguida manda e-mails mais ou menos nos seguintes termos: “Por que a imprensa não conta essa história?” Certa vez, um leitor cansou de protestar contra o silêncio dos meios de comunicação com relação a Tomaz, filho de Fernando Henrique Cardoso. Havia mais de um milhão de citações no Google, apenas em um verbete. Mas ele achava pouco. Que é que se há de fazer?

Mas, muitas vezes, esse pessoal tem razão, ao menos em parte. Sabemos que, após prolongadas férias, que só terminaram depois do Carnaval, quatro senadores arranjaram compromissos internacionais por nossa conta, para ficar mais algum tempo, sempre por nossa conta, recebendo sem trabalhar. Um parlamentar foi a Boston, para um evento de economistas (não, não é economista nem fez administração de empresas, nada semelhante). Três outros foram encontrar-se com parlamentares tchecos em Praga, para trocar ideias com seus colegas de lá. A imprensa noticiou, sem muito destaque, mas noticiou.

Só falta agora acompanhar a notícia: pedir aos gazeteiros oficiais que informem como transcorreu sua missão. Fazer a velha e boa reportagem. Este colunista é capaz de comer o mesmo cardápio do José Serra, com todos os diets, lights, integrais e folhas que o mantêm com aquela aparência saudável, se algum dos flanantes souber enfrentar um bom repórter e apresentar um resultado plausível da missão internacional que o contribuinte pagou. Aprazível, com certeza o resultado foi.

 

O exemplo Tiririca

Quem fez o levantamento foi Ilimar Franco, em O Globo. Vale transcrevê-lo:

“Com a ida do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) para o Ministério da Pesca, o Senado terá 14 suplentes no exercício do mandato, ou seja, 17% dos senadores não receberam nenhum voto.”

Falaram tanto do Tiririca – e, no entanto, Tiririca chegou ao Congresso carregado por votos populares. Goste-se dele ou não, o eleitor o escolheu.

O número de senadores sem voto (escolhidos para a suplência por sua capacidade, honradez, muito trabalho em favor do Brasil – claro: você seria capaz de imaginar que o suplente seria escolhido por motivos menos nobres?) já é aproximadamente a metade dos biônicos do regime militar, que o presidente-general Ernesto Geisel chamava de “democracia relativa”. Não falta muito para que o Brasil, tantos anos depois, festeje mudanças tão grandes que equivalham a um giro de 360 graus.

 

Quem anuncia se esconde

Uma próspera fabricante de cervejas, que foi capaz de comprar uma gigante como a Anheuser-Busch, fabricante da Budweiser, que é capaz de negociar a aquisição de um mamute chinês da área, decide patrocinar um evento em que os maus-tratos a animais fazem parte da cena (nos rodeios e assemelhados, o touro, para entrar corcoveando na arena, tem os testículos bruscamente apertados e puxados por uma corda, chamada sedém). Pior: sob o silêncio da imprensa, a Brahma conseguiu incentivos da Lei Rouanet para promover o espetáculo bárbaro. Mas iriam os meios de comunicação desafiar um anunciante para proteger animais e exigir que os promotores da festa selvagem ao menos gastem seu próprio dinheiro, não o nosso?

Não, até agora não foram. Mas há consumidores de notícias que não se conformam com isso. Aqui, por exemplo, quem fala é Sandra Pontes, indignada – e com razão – com a demonstração da empresa de insensibilidade social e de preocupação zero com o bem-estar dos animais:

“A respeito da nota sobre a Brahma (“Mamãe eu quero”), gostaria de manifestar claramente minha postura contra esta empresa que patrocina as vaquejadas de Barretos, um espetáculo deprimente, que apenas satisfaz o sadismo daqueles que gostam de assistir a torturas de animais. Há muito que sistematicamente boicoto a cerveja. Prefiro tomar água de torneira a comprar um produto desta empresa”.

 

O silêncio é de ouro

Quando o Wikileaks, portal de Julian Assange, publicou matérias a respeito de conversas de jornalistas brasileiros com diplomatas estrangeiros, deu um tremendo escândalo: os jornalistas foram chamados até de espiões. Agora, que o mesmo portal Wikileaks divulga matérias sobre propinas na compra de armamento francês, a notícia morre no primeiro dia. Assange virou mentiroso de uma hora para outra? Será que ele só fala a verdade em determinados momentos, e em outros desanda a mentir por todos os dentes?

Sandro Vaia, jornalista polêmico, legítimo PIG (ele e toda a família são porcos roxos, torcem para o Palmeiras), escreveu um artigo que merece ser lido. E que vai dar briga.

 

Os exageros

A morte de Eliana Tranchesi, que dirigiu a Daslu no seu auge, provocou algumas reações exageradas. Eliana foi presa sob acusação de crime de colarinho branco, no governo Lula; e aí surgiram as versões de que foi Lula quem matou Eliana. Não, certamente não foi: mesmo que a doença que a matou tivesse surgido em consequência da prisão, não seria culpa do governo, cuja obrigação é fazer cumprir a lei. E, a propósito, não foi o governo que mandou prendê-la: foi a Justiça, a pedido de um promotor.

No caso de Eliana Tranchesi há duas restrições sérias ao modo pelo qual foi tratada: primeiro, não havia motivo para usar trinta homens com armas longas na sua prisão. Sendo quem era, uma empresária de sucesso, sendo seu advogado quem era, Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, do maior prestígio e respeitabilidade, bastaria um telefonema para ele para que apresentasse imediatamente sua cliente. Se achassem necessário mandar alguém armado buscá-la, um homem com revólver seria mais do que suficiente: as vendedoras da Daslu não atirariam araras de roupa nos invasores, nem lingerie de grife, para resistir à prisão da proprietária. Houve indiscutível uso de excesso de força.

A segunda restrição é quanto à pena. Não tem sentido condenar uma pessoa por crimes fiscais a penas tão graves quanto por homicídio. E a pena de Eliana Tranchesi foi semelhante à aplicada ao rapaz que assassinou a namorada e baleou outra jovem, depois de mantê-las por dias em cárcere privado. A gravidade das penas deve ser proporcional à gravidade do crime.

Não podemos esquecer aquela anedota que tanto circulou nos meios jurídicos: se um cavalheiro se prepara para atirar numa capivara e surge um fiscal do Ibama, é melhor matar o fiscal do Ibama, porque no caso o crime é afiançável.

OK, agora podem vir as teses segundo as quais o criminoso de colarinho branco é mais perigoso que o assassino, porque ao apoderar-se de dinheiro público reduz a quantidade de creches e hospitais e, portanto, contribui para o aumento da mortalidade. São teses interessantes e vale discuti-las – até porque só no Brasil o homicídio é um crime menos grave que os outros.

 

Comendo mosca

A derrota dos candidatos do governador Geraldo Alckmin ao Conselho da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, passou batida pelos meios de comunicação, tratada como simples curiosidade. Mas não é: revela a profunda cisão existente no PSDB e as divergências entre o PSDB e seus aliados. Os candidatos de Alckmin perderam porque o presidente da Fundação, João Sayad, deixou o barco correr – e Sayad é ligadíssimo a Serra, de quem foi colega de secretariado no governo Franco Montoro e a quem serviu como secretário de Cultura; porque os representantes do prefeito Gilberto Kassab, aliado do PSDB, nem apareceram na votação.

E qual a importância de buscar os bastidores dessa derrota? Basta relacioná-la com o esforço do governador Alckmin para adiar as prévias do PSDB, na qual será escolhido o candidato do partido à prefeitura paulistana. Alckmin fechou com Serra. Se Serra fosse derrotado nas prévias, sua carreira política seria fortemente prejudicada e a liderança de Alckmin no partido estaria desmoralizada. O adiamento das prévias foi feito para que a pressão governamental garanta o resultado que Alckmin considera o melhor para as eleições. Passada a fase da escolha do candidato, Alckmin pode até apoiar seu amigo Gabriel Chalita, do PMDB. Mas, até lá, tem de demonstrar quem é que manda no partido.

 

Alguém sabe?

Hoje, responsabilidade social e sustentabilidade fazem parte da ideologia propagada por todas as empresas: das mineradoras de carvão que destroem áreas imensas às mineradoras de ouro que envenenam os rios com metais pesados, dos fabricantes de produtos químicos que espalham resíduos tóxicos às empresas de alta de tecnologia que usam mão de obra semiescrava da China, num trabalho em condições degradantes, todas proclamam sua responsabilidade social e compromisso com a sustentabilidade, seja lá isso o que for.

Pois bem: um dos mantras da sustentabilidade é a reciclagem. Alguém poderia explicar por que o papel reciclado, tanto em lojas atacadistas quanto no bazarzinho da esquina, é mais caro que o papel virgem? Será que é mais barato plantar árvores, cuidá-las, derrubá-las, moer a madeira, processar as fibras, obter celulose e fabricar papel branquinho do que usar matéria-prima que iria para o lixo e obter um produto final com textura menos agradável e de cor duvidosa?

Não é possível: deve haver algum truque.

 

Surpresas no caminho

Um fiel leitor desta coluna se queixa: ele tinha o Telefone Livre, da Embratel, que num determinado raio do local de instalação funcionava como celular. De repente, foi informado de que, a partir do dia 1º, seu telefone passou a ser fixo, da Claro. Reclama, perplexo: “Só Deus sabe o que vai acontecer!”

Este colunista não sabe exatamente o que vai acontecer, mas tem um palpite: serviço pior, preço maior. E horas no serviço de atendimento ao cliente, enquanto estaremos providenciando o número do protocolo para estarmos agilizando o processo de normalização da linha que o senhor estará utilizando.

 

Gourmet internético

Quer boas receitas? Vá à página do Superior Tribunal de Justiça no Facebook. Lá, o colega encontrará algumas das receitas favoritas da ministra Eliana Calmon, com belíssimas fotos. Parecem deliciosas! A única dúvida deste colunista é com relação ao veículo: será uma página do STJ o local ideal para divulgar receitas, mesmo que sejam de uma ministra, mesmo que sejam de lamber os beiços?

 

Como…

De um grande jornal, de circulação nacional, sobre o auxílio-alimentação dos meritíssimos magistrados:

** “Uma resolução (…) retroagiu o benefício a 60 meses retroativos à data da regulamentação. Os atrasados somam mais de 40 mil para cada magistrado e ainda devem ser corrigidos (…)”

Só que o auxílio-alimentação é de R$ 630 mensais. Multiplique por 60 meses. Quarenta mil é que não dá.

 

…é…

De um grande portal informativo:

Título: “As alterações climáticas fizeram os animais encolher, conclui um estudo publicado na quinta-feira na revista Science

Texto: “Há 56 milhões de anos as temperaturas eram mais altas e os cavalos mais pequenos. Teriam cerca de quatro quilos e não seriam maiores que os atuais gatos de estimação (…)”

Ou seja, os cavalos encolheram de quatro quilos para algo como 500 ou 600 quilos. Deve ser como aparece naqueles textos de economia: tiveram encolhimento negativo.

 

…mesmo?

De um portal noticioso importante

** “Um dos dois moradores de rua incinerados por um grupo de jovens na noite do último sábado (…) morreu no início da tarde de hoje (…)”

Como é que, tendo sido incinerado, ou seja, transformado em cinzas, conseguiu sobreviver mais alguns dias?

 

Infelizmente…

De um grande jornal, respeitadíssimo:

** “Se a economia cresce a três trimestres abaixo do PIB potencial (…)”

Certamente é porque no meio do caminho avia uma pedra.

 

…é…

A história, publicada num grande jornal, lembra uma antiga piada judaica. Um cavalheiro viu uma loja com um relógio pendurado do lado de fora. Entrou e pediu para ver relógios. O dono da loja explicou-lhe que não vendia relógios: fazia circuncisões.

– Então, por que o senhor pendurou este relógio na porta?

– E o que o senhor queria que eu pendurasse?

Agora, vamos ao jornal. A matéria tratava de um tema complicadíssimo, a análise do superávit primário por especialistas no tema. Como ilustrá-la? Simples: puseram a foto de uma feira de eletrônicos. Quem sabe tem algo a ver? Ou, como se escreve cada vez com mais frequência, “quem sabe tem algo haver?”

 

…assim

De um grande portal:

** “Um ator de novelas, Marcos Pigossi, irá estrear em abril, em São Paulo, o espetáculo ‘O Alto da Compadecida’”

Não, não houve erro: certamente pegaram um daqueles imensos jogadores americanos de basquete para fazer o papel que, no filme clássico de George Jonas, com Regina Duarte, foi de Zózimo Bulbul.

 

Mundo, mundo

Mas não estamos sozinhos. A senadora Kátia Abreu (PSD-Tocantins) esteve alguns dias no exterior. E colocou em seu twitter:

** “Estaremos 4 dias NY e Wochington (…)”

Sim, Wochington. Capital dos Isteites.

 

E eu com isso?

Houve época em que os meios de comunicação só divulgavam coisas que julgassem importantes. Depois aceitaram incluir um pouco de noticiário frufru. Hoje está tudo dominado: é frufru geral. E a turma do frufru propriamente dito tem de lutar pelo seu espaço. Estão com um grande futuro às suas costas. Vale tudo!

** “Valesca Popozuda admite celulite mas reclama: ‘Aquela não é a minha bunda’”

** “Argentina entra para o ranking das bundas mais bonitas do mundo”

(A moça está em oitavo lugar.)

** “Zeca Pagodinho se encanta por bumbum de repórter e Viviane Araújo tem ajuda para secar popozão”

** “Katy Perry usa vestido transparente”

** “Sabrina mostra as curvas em ensaio”

** “Mirella Santos tira a parte de cima do biquíni para se bronzear na praia do Pepê”

** “Dentes de Jean Dujardin são alvo de crítica nos EUA”

** “Picada por aranha, atleta tem lista de contusões inusitadas”

** “Casal de Glee, Lea Michele e Cory Monteith estão namorando na vida real”

** “Fernanda Machado quer se casar com seu namorado”

 

O grande título

Safra bem variada, bem ampla. Temos aquele título que, quando alguém pergunta ao editor o que tem a ver uma coisa com outra, ele diz que é “relatorial”:

** “Como tem câncer e faz quimioterapia, ela decidiu vender uma casa, cujo procurador era Toledo”

Vale até uma pergunta: como é que a casa assinou a procuração?

Há um título especial, tipo obra aberta, em que o leitor pode buscar o significado que mais lhe agrade:

** “Francenildo processou a Caixa, que perdeu a ação e propôs um de R$ 300 mil. Ele recusou”

Há um daqueles que, sem a informação que traz, nem dormir conseguiríamos:

** “Vidente acerta em data de contratação de Rafinha Bastos”

Há um que mostra a velocidade do tempo:

** “Ex-BBB Priscila Pires aparece supergrávida em foto na internet”

Este colunista, veja só, é do tempo em que a moça estava grávida ou não, sem gradações!

E há um título absolutamente notável:

** “Desfiles em Paris têm paradoxo entre real e surreal; saiba mais”

Deve haver alguém que saiba o que isso quer dizer.

***

[Carlos Brickmann é jornalista e diretor da Brickmann&Associados]

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem