Sexta-feira, 05 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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CADERNO DA CIDADANIA >

Campo fértil para o jornalismo verde

Por Washington Araújo em 06/03/2012 na edição 684

O jornalismo, no dia a dia, seja das redações ou universidades, tem recebido muitos sobrenomes. Cada um destes designa o foco da atividade jornalística – e assim temos desde o jornalismo econômico ao jornalismo político, do jornalismo esportivo ao jornalismo social. A geopolítica também influencia a atividade, e então temos o jornalismo internacional. Temos o jornalismo policial e o acadêmico ou científico.

É a nossa antiga mania de esquartejar os conceitos, delimitar em contornos apropriados uma atividade e, a título disso, nos sentir “especializados” no assunto que, no mais das vezes, não passa de mero enfoque, uma tênue sinalização do que pretendemos escrever e transmitir.

Algumas vertentes vieram e se foram. Como, por exemplo, o jornalismo ambiental que fez muito sucesso durante a realização, em junho de 1992, no Rio, da Conferência das Nações Unidas para Desenvolvimento e Meio Ambiente, também conhecida como Cúpula da Terra e, para os mais familiarizados pelos cinco signos, Eco92. Agora, em poucos meses, teremos uma conferência filhote desta última, a ora chamada Rio+20.

O que o público sabe desse evento que pretende reunir dezenas de chefes de Estado estrangeiros no Rio, em junho de 2012? Ao menos neste ponto, os chamados jornalistas ambientais comeram mosca: é um evento pouquíssimo frequente no noticiário impresso, televisivo, radiofônico e pelo que vai nas ondas da web.

Sem exclusão

E não deveria ser assim, porque se há algum evento que merece atenção e foco da sociedade é a Rio+20. Foi a Eco92 que deflagrou importante processo monitorado pelas Nações Unidas, qual seja a realização de diversas conferências internacionais abordando temas como condição da mulher, habitação, luta contra o racismo, dentre outras, e que teve como objetivo a discussão dos problemas globais que afetam a humanidade. E os resultados não tardaram a aparecer na forma de tratados, pactos e acordos internacionais, como as convenções sobre Mudanças Climáticas, Biodiversidade, Desertificação, a Agenda 21, Carta da Terra, Declaração sobre Florestas, Declaração de Durban.

Assim como a Eco92, as demais cúpulas mundiais e seus pactos acordados passaram meio que ao largo daquilo que chamamos de valor-notícia. Ficaram afetos aos ambientalistas, fossem ou não jornalistas, mas não encontraram espaço suficiente para alcançar a atenção da sociedade – isso, não obstante a natureza dos assuntos tratados para o bem-estar e desenvolvimento da espécie humana.

Tivemos vinte anos entre 1992 e 2012 e o enfoque midiárico pouco deixou de ser a velha luta pelo poder nos vários países, os movimentos político-eleitorais com o sobe-e-desce entre direita e esquerda e também os vãos e desvãos da economia internacional. É como se assumíssemos de forma semiautomática que o papel da imprensa não poderia ser outro que não o de manter o status quo planetário.

Como de um lado a política e o marketing e, de outro, as nuvens e a arte, a economia também tem suas classificações francamente propagadas pelos meios midiáticos: economia de guerra, economia de mercado, economia de subsídio, economia digital, economia de escala, economia planificada, economia tributária, economia aplicada, economia doméstica. E agora chegou aonde quero chegar: por que não legitimar por meio da apreensão do senso comum o que podemos chamar de economia verde?

A Rio+20 e a economia verde têm tudo a ver. Afinal, é um termo hoje consagrado, anda nas cabeças e nas bocas dos que assumem algum protagonismo na luta pela recriação de um novo mundo, de uma nova ordem mundial, de algo novo que enterre de vez o mundo como o conhecemos hoje, minado por contradições paralisantes e com elevado grau de conflitos enraizados e patentes injustiças e crimes cometidos contra 2/3 da população mundial.

O próprio nome – economia verde – apresenta-se como o complemento mais apropriado de algo apto a amadurecer e crescer. Isto significa que, ao menos em tese, todos parecem convencidos de que conciliar desenvolvimento e preservação vem se revelando a única alternativa possível para melhorar a qualidade de vida de todos. Sem exclusão e sem fronteiras, porque tudo está no mundo, no planeta e, a priori, não existe ninguém fora do planeta. O que fazemos aqui repercute aqui mesmo na forma de nossa qualidade de vida e nos meios que assegurem nossa sobrevivência. Simples assim.

Interesses tóxicos

Sempre fui contrário às ideias circulantes que defendem um jornalismo engajado. Essa ideia sempre me causava a urticária que tão-somente o jornalismo político-partidário poderia causar, com sua deliberada agenda de falsear a verdade em nome da preservação e favorecimento de crenças e ideologias.

Mas, hoje, devo assumir que mudei. E considero questão de honra difundir, promover e apoiar toda iniciativa ambientalmente responsável. É inescapável compreender que a eclosão da economia verde representa um grande passo não só em direção a um mundo mais sustentável, mas principalmente em direção a um desenvolvimento socialmente mais inclusivo. Aqui reside uma revolução na forma de semente ainda, é verdade, mas uma revolução com tudo para sacudir os alicerces do mundo como o conhecemos agora.

A economia verde está diretamente relacionada com a dinamização da própria arquitetura das finanças, ao estimular que se repense de forma mais abrangente e responsável o planejamento urbano e ao ensejar a construção de novos modelos de desenvolvimento local. E este era o elo que faltava para fecharmos a equação vital: a economia verde não tem gerado só mais consciência de que temos um destino comum a partilhar, mas, em uma primeira análise, tem gerado mais empregos. E existirá algo mais em falta no mundo atualmente do que empregos?

Para sair do terreno fértil onde vicejam as intenções piegas podemos ver a economia verde como a semente de um extraordinário avanço social, uma vez que conjuga a sobrevivência humana no presente com as perspectivas da sobrevivência humana no futuro, deixando de ver o meio ambiente como algo desconectado e alheio à experiência humana para vê-lo completamente integrado ao que chamo “todo-ambiente” (i.e. ser humano + meio ambiente).

E neste contexto é indispensável o protagonismo dos meios de comunicação. A agenda midiática – esta que abarca os jornais impressos, os canais de televisão, as emissoras de rádio e a mobilização sempre crescente na web – preferiu ocupar-se da matéria presente a ousar alinhavar o futuro. É como se a melhoria das condições climáticas do planeta, a preservação de sua biodiversidade e o estancamento dos processos de desertificação que enfermam a Terra fossem business de outros setores da vida organizada das sociedades.

Nada mais equivocado que isto, uma vez que, agindo assim, os meios de comunicação mantiveram ao largo do processo imensas parcelas da população mundial, deixando-as à mercê de interesses, quando não mesquinhos, profundamente tóxicos à ideia de cidadania, tornando-as nada mais que massa de manobra para os “poderosos” de plantão.

Pauta ética

A par com uma economia verde há que brotar um jornalismo verde. Entre um e outro existe toda uma coesão dinâmica a ser explorada, aliando conceitos de desenvolvimento com conceitos de comunicação livre e desimpedida, inclusiva às várias formas do pensamento humano e resistente a modelos de desenvolvimento focados na opressão de uns sobre outros, em que a realidade da vida é vista apenas como peça de engrenagem mercantilista e onde o que vale mesmo é o lucro pelo lucro.

É a este jornalismo verde que precisamos chamar a atenção das novas gerações de jornalistas, que saem ainda tinindo de novos dos bancos das universidades e prontos a abraçar não uma profissão somente, mas antes uma causa à qual possa dedicar a vida. Algo muito distante do jornalismo ambientalista, em que uns poucos se apropriam da agenda para priorizar a denúncia dos problemas e dos crimes contra a natureza e o meio ambiente e deixam ao relento de outras editorias a busca por soluções plausíveis, factíveis, possíveis.

É a estes que deve chegar, preferencialmente, o apelo maior por um jornalismo verde. Que antes de tudo é pautado pela ética e pela cidadania.

***

[Washington Araújo é mestre em Comunicação pela UnB e escritor; criou o blog Cidadão do Mundoseu twitter]

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