Sexta-feira, 05 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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CADERNO DA CIDADANIA >

Uma história na balança

Por J&Cia em 27/03/2012 na edição 687

O Sindicato de Jornalistas do Estado de São Paulo, o mais importante do País, tem eleições para sua nova diretoria – período 2012-2015 –entre os dias 27 e 29 de março. Nas duas edições anteriores J&Cia trouxe os depoimentos do candidato de situação, Guto Camargo (J&Cia 836), e de oposição, Bia Barbosa(837). A Chapa 1 defende a continuidade do trabalho realizado até agora, destacando o fortalecimento da entidade, a luta junto aos movimentos sociais e a conquista de direitos da categoria. A Chapa 2 critica a tentativa de nova reeleição do adversário e ressalta propostas como o aumento da autonomia das regionais no litoral e interior e o enfrentamento da “farra patronal”.

Nesta edição, J&Cia repercute o momento do Sindicato e do próprio sindicalismo no País com sete ex-presidentes da entidade e com o presidente da Comissão Eleitoral.

***

Audálio Dantas (presidente de 1975 a 1978) – “Eu preferiria que o estatuto do Sindicato não permitisse tantas reeleições. Isso não quer dizer que os candidatos não tenham condições para tanto, mas preferiria que o estatuto voltasse a ter só uma reeleição, pois possibilitaria, em tese, o aparecimento de novas lideranças. Já o sindicalismo de forma geral, principalmente depois da fase aguda da globalização, sofreu um recuo diante das políticas neoliberais, enxugamentos, retração no mercado de trabalho, encolheu muito. A partidarização de modo geral também foi ruim, pois tornou a coisa mais antidemocrática.”

Lu Fernandes (1982-1984) – “Não tenho posição nem contra nem a favor. Já tivemos índices de 90% de sindicalização, mas vivemos um processo parecido com o de outras entidades, que estão enfraquecidas, ou talvez tenham assumido esse papel. Antigamente, até faziam papel de partido político quando as siglas estavam proibidas, eram uma tribuna contra a ditadura. Hoje, perderam esse status e não dá para culpar esse ou aquele diretor, sei que é uma tarefa árdua para qualquer presidente.”

Gabriel Romeiro (1984-1987) – “Nas últimas décadas, o mundo, o Brasil e a atividade jornalística mudaram muito. Desconfio até que a origem social e o perfil socioeconômico dos jornalistas também tenham mudado. Tudo isso tem a ver com o atual distanciamento do nosso Sindicato em relação à categoria. No passado, nos perguntávamos se o melhor não seria integrarmos o sindicato dos gráficos ou dos radialistas, dependendo do ramo em que estivéssemos trabalhando. Será que essa questão ainda é colocada? De qualquer forma, os jornalistas não precisariam estar organizados também em alguma entidade exclusiva deles para defender a profissão? Essa entidade ainda seria o Sindicato? Ou seria o Conselho de Jornalismo que o patronato bombardeou com o apoio de inúmeros companheiros que viram nessa ideia uma ameaça à liberdade de informação? Apesar de todas essas dúvidas, o nosso Sindicato continua sendo a única entidade de jornalistas em São Paulo com estrutura palpável. Portanto, é a ele que ainda cabe encaminhar essas questões para a categoria. Meu desejo é que a diretoria a ser eleita na semana que vem faça bem esse serviço.”

Robson Moreira (1987-1990) – “Há duas chapas concorrendo e a situação caminha para seu terceiro mandato, o que é uma coisa, desde a fase do Audálio, inédita na história do Sindicato. Mas enfim, cada um no seu quadrado. Acho que não é bom… Claro que quem vai dar a palavra final aí é a categoria, mas a perpetuação de uma pessoa é uma prática que não defendo. Mas não posso apenas criticar, porque não acompanho a gestão do Guto, e eventualmente ela pode até ser uma gestão maravilhosa. Mas com o gesto eu tenho discordância. Acho que a principal mudança do Sindicato nos últimos anos foi a gradual redução da interface entre os sindicatos e os jornalistas no dia a dia. As mobilizações não envolveram mais; os jornalistas passaram a se desinteressar pela vida do Sindicato. Esse é o grande ponto que levou a essa situação. Essa é minha opinião: há uma inércia entre o papel do Sindicato e sua base de representação.”

José Hamilton Ribeiro (1991) [Período em que o Sindicato esteve sob intervenção] – “O momento sindical brasileiro é muito triste, não é um momento de luta, mas sim de quem puxa mais o saco do governo e ponto final. No caso dos jornalistas, acho que o Sindicato está aparentemente distante da categoria, porque houve muita mudança, novas tecnologias, terceirização, pejotismo e outras formas de contrato de trabalho que foram criadas sem que a entidade pudesse acompanhar com a devida proximidade. Pior, não há no horizonte uma transição em andamento e muito menos definições. A próxima gestão tem que colocar novamente os jornalistas dentro do Sindicato.”

Antonio Carlos Fon (1991-1994) – “Estou apoiando a Chapa 1. Eu conheço e tenho amigos na Chapa 2, são pessoas sérias e que eu respeito. E também os tenho na Chapa 1. Da mesma forma, há pessoas que não conheço ou até discordo em ambas as chapas. Então não é baseado em opinião pessoal, não tem essa coisa maniqueísta. Tomo a decisão em cima de uma análise política. Acho que a atual gestão do Sindicato equacionou uma dívida enorme do Plano de Saúde, e fez isso em silêncio, sem estardalhaço – gestão econômica e financeira tem de ser assim, discreta. O Sindicato voltou também a se mostrar presente nas lutas de trabalhadores, por exemplo, como no caso da Comissão da Verdade. Embora também tenhamos companheiros da Chapa 2 nessa luta, há uma questão política mais de fundo. A Chapa 2 reúne, de forma geral, um pessoal muito radical. Isso também me leva a apoiar a Chapa 1. O Sindicato saiu de um período de duas gestões muito ruins, quando ficou endividado, sem expressão política, sem participação na sociedade, e nas duas gestões do Guto esse processo começou a ser revertido. Primeiro equacionando a dívida sem aquela pressão de não poder fazer mais nada; depois, assumindo as lutas sociais dos jornalistas.”

Everaldo Gouveia (1994-2000) – “Eu vou votar na Chapa 1, respeito muito a Bia Barbosa, mas conheço o trabalho do Guto. É um trabalho sério, o dele e de outros companheiros. Vem se desenvolvendo há vários anos. Resgatou o Sindicato de um certo isolamento, distanciamento da categoria. Está mais próximo, reassumiu bandeiras mais importantes da comunicação de forma abrangente. Acho que com todas as dificuldades que o movimento sindical enfrenta hoje, o Guto e sua diretoria têm trabalhado para manter o Sindicato e sua luta como articuladores e até indutores num processo de discussão dessas questões, como a defesa do Diploma de Jornalismo, novas regras para a área e o debate da Lei de Imprensa.”

Fred Ghedini (2000-2006) – Estou fazendo meu doutorado sobre o Sindicato dos Jornalistas, então tomei a decisão de não comentar os candidatos. Não quero participar do pleito ou comentar – vou votar, mas não pretendo declarar meu voto. O que eu tiver de dizer estará no meu texto a ser apresentado à banca. O que eu posso adiantar dos resultados da pesquisa é que há um grande distanciamento entre os jornalistas e o Sindicato, que não é um ente querido nem nas redações, nem fora delas, onde está a maioria. Desde a minha época e anterior a ela, não conseguimos mudar isso e continua sendo o maior problema da entidade. Tem raízes históricas nos próprios objetivos para os quais o Sindicato foi constituído. É um problema grave que precisa ser enfrentado. A gente tentou e não conseguiu.”

Comissão eleitoral lamenta embates na Justiça mas espera eleições tranquilas

Segundo Paulo Cannabrava Filho, presidente eleito da Comissão Eleitoral, a organização da votação na próxima semana corre em ordem, embora alguns fatores jurídicos tenham, na opinião dele, atrapalhado o processo. “Poderia ter sido muito mais tranquilo, mas havia muita má vontade por parte das duas chapas”, diz. A obrigação da comissão é assegurar o cumprimento do Estatuto e garantir a realização de eleições. Segundo Paulo, todas as decisões deveriam se ater ao Estatuto e, em caso de desacordo, chamar a categoria numa nova Assembleia para discutir o Estatuto. “O que houve é que diante de decisões tomadas pela Comissão uma das chapas se mostrou descontente e, desrespeitando, segundo meu entendimento, o próprio sindicalismo, foi buscar amparo fora, na Justiça. Essa chapa conseguiu duas liminares junto à 14ª. Vara da Justiça do Trabalho de São Paulo: uma autorizando a inscrição de uma diretora regional, que havia sido impugnada pela Comissão Eleitoral com base nos Estatutos; e outra lhe provendo acesso a dados cadastrais completos dos associados ao SJSP”.

Cannabrava reforça que agora, passadas as contendas judiciais, o objetivo da Comissão é fazer com que o “processo corra tranquilo e com a maior lisura. Vamos torcer para que tudo fique bem”.

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