Terça-feira, 04 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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CADERNO DA CIDADANIA >

Jornal contra o exercício da cidadania

Por Robson Fernando em 08/02/2011 na edição 628

Depois de uma estranha mas desmascarável trégua em 28 de janeiro, o Diário de Pernambuco voltou, na edição de 4 de fevereiro, à sua posição reacionária anterior, de hostilidade e tendenciosidade contra os manifestantes que lutam para cancelar o aumento das passagens de ônibus na região metropolitana do Recife. Como não fui para o protesto dessa vez, pude me pôr pela primeira vez no papel de leitor desinformado e tive uma ideia de como uma pessoa desavisada que usa pouco senso crítico na leitura de jornais pode ter uma ideia distorcida de como foi o protesto do dia 03/02 no centro do Recife.

De acordo com o que li no DP, a passeata foi algo repudiado pela população, que lamentou muito o seu acontecimento por causa dos engarrafamentos e bloqueios causados. De tão impopular, não recebeu o apoio de ninguém, mesmo que o aumento das tarifas tenha sido economicamente muito desagradável ao povo – porque ninguém favorável ao ato foi entrevistado, novamente apenas pessoas contrárias. E também ‘vi’ que só estudantes participaram, não havendo trabalhadores de fora das faculdades e escolas. Ou seja, uma baderna de jovens estudantes que afrontam a população com sua revolta vã. Resumindo, o evento foi um transtorno só para a cidade, tendo suas causas tão pouca relevância que não mereceram muitas referências na notícia.

Desmobilizar e despolitizar

A impressão que me fica é que pouco há a discutir – aliás, ‘nada’ mais a discutir, segundo o próprio DP do último dia 28 – sobre as causas das passeatas dos manifestantes, sobre a política de aumentar anualmente as tarifas de ônibus sem que a qualidade do serviço evolua. Mas muito sobre a validade do direito aos protestos de rua, mesmo sendo este uma garantia constitucional e um osso do ofício da vida em sociedade.

Pelo visto, em todos os dias seguintes aos protestos contra o aumento das passagens, o DP irá sempre alienar e desinformar seus leitores, dando-lhes a impressão de que ir às ruas contra injustiças é condenável, tudo de ruim, e incitando o ódio de classe contra os cidadãos que não podem nem querem continuar pagando caro pelos direitos de ir e vir, estudar e trabalhar. Continuará seu esforço de jogar cidadãos contra cidadãos, desmobilizar e despolitizar as pessoas e assim deixar o terreno livre para os governos e as empresas continuarem oprimindo a população sem oposição.

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Jornal declara que ‘não há o que ser discutido’

Diferente das outras ocasiões – protestos de 27/12, 11/01 e 13/01 –, quando usou o noticiário para fazer panfletagem reacionária contra o direito dos estudantes e trabalhadores de promover protestos de rua, o Diário de Pernambuco de 28/01 mudou o tom e passou a prestar uma inédita atenção, ainda que parcialmente, aos manifestantes e sua causa, dedicando-se a ouvi-los e compreender os motivos de sua insatisfação – os aumentos das passagens de ônibus e dos salários dos parlamentares – e deixando de dar aquela ênfase total de outrora aos engarrafamentos.

A aparente mudança de atitude seria elogiável, ainda que o veículo tenha na verdade feito sua obrigação em prestar nesse momento um jornalismo razoável com respeito aos fatos e sem tendenciosidade, se não fosse a última frase do texto, que terminou maculando, se não anulando, o esforço do jornal de respeitar a nossa cidadania e democracia. O DP encerra a notícia com o seguinte dizer: ‘Em resposta aos estudantes, a Secretaria das Cidades informou que aguardava o posicionamento do MP para dar o respaldo aos manifestantes. Como o parecer foi favorável, não há mais o que ser discutido.’

Não é novidade entre os mais entendidos de jornalismo pernambucano a suspeita de que o Diário tem uma aliança tácita com o governo estadual e esse trecho final acaba dando evidência à chapa-branca. Isso porque, pela altamente sugestiva frase final, tenta convencer os leitores de que não há mais o que se discutir em relação ao aumento das passagens e mesmo à qualidade do transporte público que temos. Declara extraoficialmente ‘fim de jogo’ para os manifestantes, que passariam a não ter mais motivos para se opor à inflação das tarifas e, consequentemente, protestar nas ruas para incomodar e pressionar o governo.

A opressão econômica

É aquele caso em que uma única palavra fez toda a diferença. Se estivesse escrito ‘não haveria mais o que ser discutido’, poderíamos considerar a reportagem honesta, por apenas descrever de forma neutra a postura do secretário Danilo Cabral. Mas o ‘há’ foi decisivo para escancarar que a posição do jornal foi declarar que os manifestantes perderam definitivamente a guerra contra o aumento e, logo, não tinham mais motivos para ir às ruas.

Em resposta a essa postura, me autorizo a dizer, em nome dos cidadãos opostos à tunga financeira, que os empresários de ônibus e o governo do estado nos impõem: editores e diretores do Diário, vocês estão errados. Há tudo para ser discutido. O Ministério Público de Pernambuco não é o povo, não é a voz do povo, não tem poder de falar em nome dele. Nem todas as suas decisões são favoráveis aos interesses públicos e a aprovação desse reajuste é o maior exemplo disso no momento.

Não é porque o MPPE contrariou a população que o caso está encerrado. A decisão antipopular da entidade não vai nos poupar de continuar sofrendo no bolso a carestia das tarifas de um serviço que, por ser essencial, deveria ser tão público, pago por impostos, quanto a saúde e a educação. Não vai tornar ética e aceitável a opressão econômica que se impõe por parte das empresas de ônibus e do governo estadual aos trabalhadores e estudantes – em especial aos alunos mais pobres e aos cidadãos que não recebem auxílio-transporte.

O boicote à prometida reunião

E o que nossos representantes queriam discutir com Danilo Cabral não era apenas a tarifa injusta que somos obrigados a pagar, ao contrário do que o DP reducionisticamente sugere. Queríamos pôr em pauta os atuais modelo e situação de transporte público, de tarifas caras, de ônibus lotados e pouco numerosos, sem conforto, de terminais desconfortáveis, inseguros e abarrotados, de desprezo ao transporte ferroviário – não temos VLT nas avenidas e o metrô é muito curto, limitado e mal distribuído –, de baixos salários aos motoristas e cobradores, sem licitação, sem transparência. Demandamos auditoria nas contas e planilhas das empresas de ônibus.

Queríamos falar de um sistema que vem induzindo anualmente milhares e milhares de pessoas a comprar carros buscando a alforria desse péssimo sistema, e consequentemente engarrafar cada vez mais o limitado sistema viário do Recife e região metropolitana, aumentar a poluição, piorar as mudanças climáticas e exaurir os recursos minerais. E também do modelo de transporte e trânsito existente como um todo, que não nos dá sequer o direito de usar bicicletas como meios de transporte de distâncias não pequenas (mais de 1km).

E nada disso será resolvido por uma decisão impopular do MPPE – pelo contrário até, será piorado, já que significa o apoio do poder público, aquele mesmo que deveria nos defender, aos abusos praticados no sistema público de transporte metropolitano.

Portanto, é mentira a afirmação de que ‘não há mais nada a discutir’.

Se o Diário de Pernambuco pareceu nos respeitar no corpo da notícia, desmanchou a boa impressão na última frase desta ao tentar decretar um falso game over contra os cidadãos. Mostra favorecer os interesses mais antidemocráticos do governo de Eduardo Campos em detrimento das demandas do povo pernambucano ao justificar e apoiar o covarde boicote feito pelo secretário à prometida reunião marcada com os representantes do povo. (Robson Fernando)

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Estudante, Recife, PE

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