Terça-feira, 04 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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CADERNO DA CIDADANIA >

O monitor da censura

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 22/02/2011 na edição 630

O Índice na Censura (Index on Censorship) é uma revista trimestral inglesa dedicada à defesa da liberdade de expressão – dentro e fora das Ilhas Britânicas. Até 2009, foi publicada pela Routledge, do Grupo Taylor & Francis. Desde 2010, é publicada pela SAGE, uma editora acadêmica e sem fins lucrativos. Mas não é apenas um magazine: é um monitor mundial da censura em todo o planeta e a maior organização britânica de defesa da liberdade de expressão. O diretor-chefe atual é John Kampfner, ex-editor do semanário The New Statesman, autor, jornalista e comentarista. A editora é Jo Glanville, ex-produtora de assuntos contemporâneos na BBC.

O site (relançado em 2009 a partir de um blog datado do ano anterior) monitora em tempo real todo e qualquer ato de censura, violência contra jornalistas e obstáculos à liberdade de expressão em todo o mundo. A página apresenta também algum conteúdo da revista, mas não todo ele. Normalmente, o costume é encomendar artigos ou patrocinar contribuições de blogs sobre questões ligadas à liberdade de expressão, que são então publicados na web. Oferece também muitos outros recursos extremamente úteis aos jornalistas, como pesquisas a respeito da liberdade de expressão ao redor do mundo, tutoriais sobre como contornar a censura, os últimos tweets do momento relacionados à censura na mídia, e uma seleção dos melhores artigos sobre os fatos mais marcantes envolvendo a liberdade de expressão ao longo dos anos, como a censura na internet, a fatwa contra Salman Rushdie, e a controvérsia mais recente causada pela publicação das charges dinamarquesas envolvendo o profeta Maomé.

Falha gramatical

A revista tem suas origens na guerra fria. Em 1968, Yuli Daniel, escritor e dissidente do regime soviético, apoiado por sua ex-esposa Larissa Bogoraz e Pavel Litvinov (neto do então ministro de Relações Exteriores Maxim Litvinov), escreveu para o Times de Londres solicitando apoio internacional para dois jovens escritores (e seus datilógrafos), acusados pelo regime da URSS de ‘agitação e propaganda anti-soviética’. Um grupo de intelectuais, escritores e artistas de grande peso e visibilidade internacional (como Bertrand Russell, Igor Stravinsky, Yehudi Menuhim, Paul Scofield e Henry Moore, entre outros), liderados pelo poeta britânico Stephen Spender, enviou um telegrama de apoio aos dissidentes.

A réplica de Litvinov trouxe para o grupo a ideia para uma publicação que expusesse à opinião pública mundial a real situação da opressão aos direitos humanos e da liberdade de expressão na União Soviética e seus satélites, na Europa oriental. O poeta inglês prontamente concordou. Juntou-se a Stuart Hampshire (crítico literário e filósofo), David Astor (editor do semanário The Observer por 27 anos), Edward Crankshaw (tradutor, escritor e comentarista de assuntos soviéticos) e Michael Scammell (autor, biógrafo, tradutor de literatura russa), e juntos criaram a revista em 1972. Resolveram, então, ampliar o alcance da mesma: além de cobrir a União Soviética e as ditaduras do Leste Europeu, ela deveria também monitorar a censura nas ditaduras do Sul da Europa (Grécia e Portugal), e os regimes ditatoriais da América do Sul. Assim nasceu o Index on Censorship (Índice na Censura). A carta com a sugestão de Litvinov foi publicada em sua primeira edição.

O nome sugerido foi simplesmente Index, numa alusão aos diversos catálogos desse gênero significativos para a história da censura: o Índice (Index) de Livros Proibidos da Igreja Católica, o Índice dos Censores Soviéticos, e o Índice das Leituras Questionáveis, do antigo regime racista da África do Sul. Scammell (o primeiro editor) admitiria mais tarde que os fundadores da revista adicionaram o on censorship apressadamente, como subtítulo, por acreditarem que a palavra ‘Index’, simplesmente, poderia confundir o leitor. ‘Em pânico’, lembra Scammell na edição de dezembro de 1981, ‘nós rapidamente acrescentamos a expressão `na censura´ (on Censorship, quando o correto seria of Censorship…) e assim permanece desde então, perturbando-me com sua falha gramatical e permanecendo como uma desculpa perene para a opacidade de seu título’.

O credo da revista

Ao longo dos anos, a revista vem publicando trabalhos dos mais renomados escritores e intelectuais de nossa época, como Arthur Miller, Noam Chomsky, Milan Kundera, Václav Ravel, Alexander Soljenitsin e Umberto Eco, entre outros. Além disso, a organização britânica trabalha com parceiros importantes, como a Anistia Internacional, a União Americana para as Liberdades Civis (ACLU), a PEN inglesa (uma organização fundada em 1921, e que usa a literatura para promover melhor interação entre as culturas) e a PEN Internacional. Foi uma das quatro grandes organizações do gênero a participar da programação do Primeiro Fórum Global de liberdade de Expressão (Global Forum on Freedom of Expression em Oslo, que aconteceu entre os dias 1º e 6 de junho de 2009. A organização também é membro fundador do Intercâmbio Internacional da Liberdade de Expressão (The International Freedom of Expression Exchange – IFEX), uma rede global de organizações não-governamentais que monitora a censura por todo o planeta, sempre a defender jornalistas, escritores, internautas e outros que venham a sofrer qualquer tipo de perseguição ou ameaça pelo exercício da liberdade de expressão. Através desse coletivo, foi criado o IFEX-Grupo Monitor da Tunísia (IFEX-TMG), presente no país norte-africano desde 2004. Tal grupo foi criado para pressionar o então presidente Zine El-Abdine Ben Ali por uma melhoria nos indicadores de direitos humanos do país. O dirigente foi derrubado no início deste ano por uma revolta popular.

A posição estratégica conquistada na Tunísia colocou o Index e o IFEX-TMG em local privilegiado para cobrir o levante do povo egípcio por liberdade e melhores condições de vida. As duas organizações utilizam um grande número de jornalistas de origem árabe, o que facilita em muito o trabalho de mídia naquela parte do planeta. Na quinta-feira, dia 3 de fevereiro de 2011, juntou-se a outras publicações na denúncia a vexatória violência das forças governamentais contra à imprensa do mundo todo. O presidente Mubarak renunciou no dia 11 do mesmo mês, depois de 18 dias de protestos. Além de registrar todos os abusos contra a liberdade de expressão em outras partes do mundo, o site da revista britânica continua a publicar os mais recentes desdobramentos das revoltas populares no Norte da África, que agora estende-se ao Oriente Médio. A revista aprofunda os temas abordados na web, além de apresentar artigos de jornalistas ameaçados, escritores presos por desafiar regimes ditatoriais, artistas censurados e colaboradores na luta pela ampliação da liberdade de expressão no planeta.

Hoje veterano de antigos combates pela liberdade de expressão na antiga União Soviética, Europa do Sul e América Latina, o Index on Censorship não hesita em por sua crença em prática em qualquer lugar do globo onde ocorram conflitos originados por limites tirânicos impostos à liberdade de expressão. Stuart Hampshire, um dos fundadores da organização e pensador anti-racionalista, expressou brilhantemente o credo desse combativo monitor da censura:

‘A ocultação da opressão e a absoluta crueldade dos tiranos devem sempre ser desafiadas. Deve haver barulho popular de lado de fora de cada centro de detenção, ou campo de concentração, e um cadastro público de cada negação tirânica à liberdade de expressão.’

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Consultor de urbanismo e tradutor

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