Domingo, 27 de Setembro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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CADERNO DA CIDADANIA >

O que que Alagoas tem?

Por Mauro Malin em 18/01/2012 na edição 677

A revista Veja [18/1/12] ergue um monumento à glória de Eike Batista em reportagem sobre “a nova leva de milionários brasileiros”. Trata-se de pauta repetitiva. Periodicamente, revistas se encantam com a emergência de empreendedores e de milionários. Ora na Veja, ora na Exame, ora na Época, uma certa fascinação, ou ilusão, mais do que pedagogia capitalista, procura enxergar a “boa notícia”.

Nada contra boas notícias, desde que a narrativa seja equilibrada, dê conta de outros aspectos da mesma realidade, no caso o contexto socioeconômico do Brasil.

Um gráfico informa na reportagem quais são os nove estados em que mais cresceu em oito anos o número de milionários, estimados hoje pela revista em 145 mil pessoas. São estados com população relativamente pequena, onde o número de muito ricos também o é. Daí as taxas mais altas de crescimento do plantel de milionários. A revista não informa o número absoluto de milionários por estado.

Alagoas na berlinda

Chama a atenção que Alagoas ocupe (com o Espírito Santo) a segunda posição em porcentagem (61% de crescimento; em primeiro lugar está Santa Catarina, com 76%). Qual o tamanho da economia de Alagoas? Em 2008, segundo o IBGE, o estado ocupava o 21º lugar em tamanho do PIB entre as unidades da Federação. E a situação social medida pela renda per capita? Pior, só os inabaláveis Piauí e Maranhão.

Alguns dados sobre estados onde mais cresce o número de milionários
 
UF População Censo 2010 Crescimento nº milionários 2003-2011 PIB 2008 R$ 1.000.000/
preços correntes
PIB per capita R$ 2008 C. de Gini 2004 (mais perto de um, pior) Homicídios por 100 mil habitantes 2008
SC 6.178.603 76% 123.283 20.368 0,461 12,6
ES 3.392.775 61% 69.870 20.230 0,549 57,5
AL 3.093.994 61% 19.777 6.227 0,575 66,0
RN 3.121.451 55% 25.481 8.202 0,570 23,1
TO 1.373.551 46% 13.091 10.223 0,551 17,1
MS 2.404.256 41% 33.145 14.188 0,536 23,2
MT 2.954.625 39% 53.023 17.927 0,528 25,2
RO 1.535.625 33% 17.888 11.976 0,515 28,4
GO 5.849.105 31% 75.275 12.878 0,535 25,5
             
Fontes: Veja, IBGE, Secretaria Geral de Gestão de Goiás
(coeficiente de Gini), Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

O Brasil dos recordistas em crescimento de milionários seria um país de 30 milhões de habitantes, com um PIB de R$ 430,8 bilhões e um PIB per capita médio de R$ 13.580.

Os dados do Brasil propriamente dito são:

** 185.712.713 habitantes (2010)

** PIB de R$ 3,03 trilhões (2008)

** PIB per capita de R$ 15.989 (2008)

** Coeficiente de Gini de 0,544 (2009)

** 25,2 homicídios intencionais por 100 mil habitantes (2007)

Para enriquecer a reflexão, a tabela deveria conter também a medida do IDH, o número de alunos no segundo grau, o número de pós-graduados, de livrarias, etc, etc, etc. Mas nesse caso se tornaria impublicável.

À floração de novos milionários não correspondeu uma melhoria da posição relativa das respectivas economias estaduais em matéria de participação no PIB, exceto nos casos de Espírito Santo, Santa Catarina e Mato Grosso. Os demais ficaram estacionados.

Alagoas, onde o número de milionários cresceu relativamente muito, recuou.

Posição quanto à participação
no PIB nacional
     
UF 2002 2008
SC
GO
ES 12º 11º
MT 15º 14º
MS 17º 17º
RN 19º 19º
AL 20º 21º
RO 22º 22º
TO 24º 24º
     
Fonte: IBGE.

 

O que não recuou foi a primazia alagoana em estatísticas negativas: altas taxas de mortalidade infantil e analfabetismo, esperança de vida ao nascer bem abaixo da média brasileira, grande proporção de pobres. Em 2008, o pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil: 0,677 (dados do Pnud, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

O índice médio do país era então de 0,807. Superado por seis unidades da Federação, entre as quais só Santa Catarina faz parte do grupo fértil em novos milionários destacado pela Veja.

Atrás dos ricaços…

Mas a revista argumenta que os 19 felizardos alçados diariamente à condição de milionários (em dólares, by the way) são um sinal de enriquecimento geral. E então acena com os novos integrantes da famosa classe C – 29 milhões de pessoas entre 2003 e 2009. Muita gente. Um sétimo da população.

Só que essa turma tem renda familiar mensal compreendida entre R$ 1.100 e R$ 4.800. Não chega a ser uma exorbitância. Pode até sobrar mês no fim do dinheiro (copyright by Millôr Fernandes), dependendo da cidade onde se mora, de tratamentos médicos, do preço das mensalidades escolares, de acidentes e outras dificuldades.

A turma que tem um pouquinho mais – renda mensal entre R$ 4.800 e R$ 6.300 –, chamada de classe B, não é tão numerosa assim: 3,4 milhões, ou 1,8% da população. E tem a classe A, constituída pelos que contam com renda familiar acima de R$ 6.300: 3,2 milhões, ou 1,7% da população. Uma fração do povo.

Em todo caso, fração 22 vezes maior do que o 0,078% de milionários, entre os quais, a julgar pelos “cases” apresentados pela Veja, não se encontram nem narcotraficantes, nem corruptos, nem golpistas, nem malandros, nem servidores públicos que recebem heranças ou ganham na loteria. Só gente que aproveita oportunidades, arregaça as mangas e chega lá. Para o bem de todos e felicidade geral da nação.

***

[Mauro Malin é jornalista]

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