Quinta-feira, 09 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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CADERNO DA CIDADANIA >

O tempo contado da política

Por Muniz Sodré em 18/05/2010 na edição 590

A imprensa escrita tem-se esmerado em reprisar informações sobre o tempo televisivo dos candidatos à presidência da República. Fica-se assim sabendo que Plínio de Arruda Sampaio (candidato do PSOL) terá escassos 44 segundos, embora disso ele pareça fazer pouco caso: ‘Vamos martelar nossos endereços eletrônicos’. A petista Dilma Rousseff, no caso da formalização de apoio por parte do PTB e PP, teria enorme vantagem em rádio e TV: 11 minutos e 37 segundos em cada bloco de 25 minutos exibido à tarde e à noite. Ao tucano José Serra estaria destinado menos da metade desse tempo, isto é, 5 minutos e 36 segundos.

Prevêem os especialistas que mesmo com os rearranjos negociados nos bastidores permanecerá a vantagem de Dilma. Mas parece haver um consenso quanto ao prognóstico de que a diferença de minutos não impedirá Serra de expor adequadamente o seu programa. Explica o colunista Merval Pereira no Globo:

‘Os especialistas dizem que um mínimo de 5 minutos é suficiente para uma boa campanha, e o que vier acima disso pode ser até prejudicial, dando uma superexposição ao candidato que pode cansar sua imagem diante do eleitorado.’

O conceito de transpolítica

Diante de informações dessa ordem, um filósofo pós-modernista, desses que desde os anos 1980 falam de uma nebulosa ‘transpolítica’, poderia levantar a hipótese de que o verdadeiro problema não está no programa de governo, mas na duração da imagem de TV. Apesar da crescente importância da internet, de toda a parte que ela teve na campanha de Barack Obama, a televisão continua no papel de supereleitor. A telinha dá o seu braço virtual ao braço concreto das alianças entre partidos que, no real histórico, parecem não ter outra finalidade senão a de ‘fazer aliança’ no rito de calendário eleitoral.

No entanto, até poucos anos atrás, era comum em meios acadêmicos criticar, não raro em tom divertido, a argumentação dos teóricos franceses do fim da política, com alegações de que tudo aquilo não passaria de exagero retórico. Para a corrente sociológica guiada pela mais estrita empiria, especulações de natureza filosófica ou ensaística, marcadas por um vezo antecipatório, não poderiam ultrapassar o estatuto de profecia. A velocidade das transformações sociais impulsionadas pela tecnologia tem mostrado, entretanto, que existe uma margem de antecipação possível, por pura e simples intuição ou pela observação sensível aos sintomas de mutação no espírito do tempo.

Era tachada de mera profecia, por exemplo, a afirmação pós-modernista do fim da tradicional política representativa por algo que se poderia chamar de transpolítica, isto é, um arremedo ou um simulacro da representação clássica.

Estruturas corroídas ou esvaziadas

Isso significa que o poder político morreu? De certo modo, sim, quando se entende poder como forma legítima do político. Como se sabe, o fenômeno moderno do poder apresenta-se como o traço de união entre o Estado, enquanto monopólio legítimo da força, e a política, como movimento contraditório (confronto de interesses e idéias em torno do princípio da representatividade) de formação, distribuição e exercício de uma soberania ou da summa potestas. Quando se fala modernamente de poder, as referências visam, portanto, aos aparatos de Estado, ao ordenamento jurídico e às construções ideológicas.

Esse tipo de poder, que remete em última análise à soberania do povo ou à faculdade de decidir na exceção, não está mais por inteiro na classe política, mas em outro lugar, fora dos controles republicanos: as grandes corporações, os governos do ‘Norte’ e os organismos financeiros mundiais, diretamente conectados com as oligarquias nacionais do mando, os estamentos que cooptam lideranças políticas e tecnoburocratas. Não raro, uma coalizão dita ‘de esquerda’ chega ao Poder para descobrir que, simplesmente, ele não mais está lá onde se esperava, a exemplo do socialista François Mitterrand, na França (1981). É conhecida a frase do político Alain Peyrefitte dirigida aos socialistas e comunistas na conjuntura das nacionalizações empreendidas por Mitterrand: ‘Vocês foram eleitos para mudar o governo, e não para mudar a sociedade.’

Não falta quem ache que essas mutações constituem evidências do evanescimento da sociedade civil, tal como reinterpretada por Gramsci, na esteira do pensamento hegeliano – conceito que, entretanto, tem servido para a sustentação de diferentes posições políticas em países de todo o mundo, como uma espécie de atributo essencial de qualquer democracia, por indicar a infraestrutura institucional de mediação política e negociação pública. Esta argumentação parte da premissa de que essas estruturas, dependentes das funções de disciplina (ideologia) e exploração do trabalho (economia), estariam sendo corroídas ou esvaziadas nas formações sociais contemporâneas.

As implicações significativas

Em vez de ‘pós-modernidade’ – uma noção que se revelaria vaga e abstrata demais para ser útil – estaríamos hoje fazendo a experiência de uma sociedade ‘pós-civil’, que traz em seu bojo um novo paradigma de relações sociais. Como a clássica disciplina dá lugar ao ‘controle’, seria imperativo levar a sério a incitação feita por Michel Foucault (numa entrevista, em 1978) no sentido de que comecemos a pensar a política numa sociedade não-disciplinar.

A ‘transpolítica’ ainda não mais do que uma metáfora compreensiva para a política na sociedade midiatizada, onde a televisão assume as aparências de partido, e a internet, progressivamente, de massa. A compreensão – conhecimento que se processa por apreensão imediata ou analógica de um fenômeno – como que desafia a explicação pretensamente objetiva e inimiga das metáforas a responder a suas representações concretas. É que, na compreensão, o conhecimento inclui necessariamente o sujeito que conhece e, assim, obriga-se a pôr em questão as construções do mundo (subjetivistas, resultantes de jogos de linguagem) que se tomam como fatos objetivos para a ação cognitiva. Não se trata, portanto, de explicar rigorosamente ao pé da letra, mas de levar metaforicamente à compreensão imediata do fenômeno.

Vários dos objetos colocados sob o foco do pensamento pós-modernista resultam verdadeiramente de metáforas. É certo que o clássico pensamento social, apoiado em categorias clássicas (tempo/espaço, qualidade/quantidade, essência/aparência, universal/singular, diacronia/sincronia) busca sempre conceitos para dar conta de uma situação ou um acontecimento. Só às artes, caberia lidar com figuras de linguagem, a exemplo das metáforas.

No entanto, muito mais do que meros recursos de assemelhamento estrutural, as metáforas são veículos de construção de conhecimento novo e de sua organização, por meio de implicações significativas. E é de fato significativa a implicação advinda de uma simples informação de jornal sobre o tempo televisivo dos candidatos. Programa de político pode não ser nada mais do que programa de televisão.

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Jornalista, escritor, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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