Terça-feira, 14 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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CADERNO DA CIDADANIA >

Os limites de uma pesquisa

Por Ligia Martins de Almeida em 25/05/2010 na edição 591

ABORTO

Todos os jornais reservaram espaço para discutir a pesquisa do Ministério da Saúde sobre o aborto. Feita pelo Ibope com 2.002 mulheres das capitais e municípios com mais de cinco mil habitantes, concluiu que uma em cada cinco mulheres já abortou no Brasil.

O que variou, nos jornais, foi o tipo de tratamento dado ao tema. O Globo, por exemplo, limitou-se a resumir os principais dados da pesquisa. O Estado de S. Paulo – além dos resultados, ouviu a autora da pesquisa, um representante do Ministério da Saúde e também a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Mas foi a Folha de S.Paulo que fez o melhor jornalismo, ao abrir espaço para a análise de uma médica psiquiatra e ao lembrar a lei (à espera de debate no Congresso) sobre a permissão para aborto no caso de fetos anencefálicos. E mais um grande diferencial: entrevistou mulheres que já fizeram aborto.

É interessante notar que, seja tratando o assunto com moderação, fazendo um simples registro, ou tentando aprofundar o tema, nenhum dos três jornalões aprofundou o porquê da pesquisa. A pergunta essencial – que será feita por todos os que se opõem ao aborto – não foi respondida em nenhum veículo da imprensa: qual o objetivo da pesquisa?

‘O Brasil quer ser tão moderno e é tão retrógrado’

O Estado de S. Paulo limitou-se a citar o assessor especial do ministro da Saúde:

‘Os dados reafirmam a opinião já consolidada no Ministério da Saúde de que o aborto é uma questão de saúde pública. Mostra que estamos no caminho certo ao ampliar a oferta de métodos contraceptivos no Sistema Único de Saúde. Nos últimos sete anos, o número de curetagens pós-aborto no SUS caiu de 240 mil para 200 mil ao ano.’ (O Estado de S. Paulo, 22/5/2010).

Enquanto o Ministério da Saúde comemora a diminuição de internações pós-aborto, a CNBB, também ouvida pelo jornal, afirma:

‘O alto índice de internações decorrentes do aborto ilegal não pode ser usado para a descriminalização da prática no país: ao analisar dados de países onde ele foi legalizado, se percebe que os casos de abortos clandestinos não diminuíram.’

Ouvido o Ministério da Saúde e a CNBB, o Estadão acabou produzindo uma matéria oficial e que dá margem menor a críticas. Bem diferente do estilo da Folha, que, já na abertura, destaca a explicação da autora da pesquisa: ‘O resultado mostra a cara da mulher que aborta. Não é uma outra, é uma de nós. É a nossa colega, a nossa vizinha, a nossa irmã’.

Uma advogada carioca de 40 anos foi escolhida pelo jornal para representar essa mulher. Ela fez um aborto quando estava começando a carreira. Casada há 15 anos e mãe de duas filhas, ela diz:

‘Tenho certeza de que se eu tivesse assumido aquele filho, o curso da minha vida poderia ter sido outro, para bem pior. Acho um absurdo essa história de criminalizar mulheres por abortar. O Brasil quer ser tão moderno por um lado, mas é tão retrógrado por outro. É fácil e hipócrita jogar pedras quando não se vive o problema na pele’ (Folha de S.Paulo, 22/5/2010).

Injustiças e desigualdades

O depoimento da advogada explica bem o caso das mulheres urbanas e educadas que praticam aborto. Uma realidade bem diferente da grande maioria das mulheres que acabam no SUS por problemas de saúde decorrentes de aborto mal feito. Mas essas mulheres, conforme explicou à Folha Débora Diniz, não foram incluídas neste estudo: ‘As analfabetas foram excluídas porque não poderiam preencher o questionário das suas entrevistas. Também a zona rural foi excluída, pelo alto índice de analfabetismo entre mulheres.’ O resultado, segundo ela, é que os dados da pesquisa não permitem estimar o número de abortos no país: ‘É seguramente maior do que o número de mulheres que abortam porque uma mesma mulher pode ter feito mais de um aborto. O número também sobe se as áreas rurais e a população analfabeta forem computadas.’

É uma pena que o debate sobre o aborto vá parar por aqui. A CNBB já se manifestou contra. O Ministério da Saúde declarou que a pesquisa serviu para confirmar que está no caminho certo. E a imprensa registrou a notícia. Mas as mulheres que realmente precisam de atendimento médico e educação para evitar problemas futuros vão continuar sofrendo.

O governo não faz o que deve, a mídia não se interessa pelo assunto. Como disse a médica e sanitarista Marilena Correa (em seu artigo na Folha de S.Paulo de 22/5/2010):

‘ Os riscos à saúde impostos pela ilegalidade do aborto são majoritariamente vividos pelas mulheres pobres e/ou pelas que não têm acesso aos recursos médicos para realizar um aborto seguro. Aquilo que diferencia as mulheres confrontadas com o drama da necessidade do aborto é, antes de mais nada, a chance de passar de forma mais ou menos (in)segura pelo processo. Se todas são criminalizadas e expostas a danos morais. Do ponto de vista da saúde pública, podemos afirmar que, no Brasil, o aborto é a prática de saúde perpassada pelas maiores injustiças e desigualdades ligadas à situação socioeconômica das mulheres.’

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Jornalista

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