Quinta-feira, 09 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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CADERNO DA CIDADANIA >

Rotulação imprudente

Por Aluízio Couto, de Dublin (Irlanda) em 11/05/2010 na edição 589

No artigo ‘Os jornais e os seus leitores‘, publicado neste Observatório, o articulista Venício A. de Lima utiliza uma afirmação do professor de Jornalismo e jornalista Bernardo Kucinski, referindo-se aos jornalões:

‘A elite dominante é ao mesmo tempo a fonte, a protagonista e a leitora das notícias; uma circularidade que exclui a massa da população da dimensão escrita do espaço público definido pelos meios de comunicação de massa’ (‘Mídia da Exclusão’, in A Síndrome da Antena Parabólica, ed. Perseu Abramo, 1998).

No fim do artigo, após considerar alguns dados de uma pesquisa feita pela Folha de S.Paulo, conclui que os ‘jornalões são a `cara´ de seus leitores’. Assim, se o jornal faz parte da elite dominante que é a ‘fonte, a protagonista e a leitora das notícias’ e, além disso, possui um caráter excludente, podemos concluir com alguma segurança que a frase de Kucinski também se aplica aos leitores do jornal. E o inverso também parece verdadeiro, uma vez que ser ‘a cara de’ pode ser entendido como uma relação simétrica. Portanto, para Lima, o que une os jornalões e seus leitores é o pertencimento à elite dominante.

Um ‘grupo malévolo’

Em miúdos e em forma argumentativa, temos:

** Os jornalões fazem parte da elite dominante e a elite dominante tem as características X, Y e Z;

** Os jornalões são a cara de seus leitores e, por simetria, os leitores são a cara dos jornalões; portanto, entendendo ser ‘a cara de’ como possuir as características X, Y e Z, concluímos que os leitores dos jornalões têm tais características – nomeadamente, ser ‘fonte, protagonista’; e por aí vai.

Ora, qual motivo faz com que os leitores tenham essas características abomináveis? O resultado da pesquisa. Que pesquisa? A Folha de S.Paulo quis saber o que um definido universo de leitores pensa sobre a cobertura eleitoral feita pelo jornal. Cito alguns resultados (mais detalhes podem ser vistos no artigo de Lima): 74% acham que a cobertura não favorece qualquer dos pré-candidatos; sobre o governo Lula, 67% avaliam o jornal como crítico na medida certa. Outro dado diz que 40% devem votar espontaneamente em José Serra. Na análise por segmentos, por exemplo, Serra saiu-se bem entre leitores acima de 70 anos e entre os que ganham entre 10 e 20 salários mínimos.

No fim das contas, de fato, os resultados foram favoráveis à Folha, ao PSDB e ao ex-governador Serra. Mostram, ainda, que boa parte dos leitores tem renda acima de 10 salários mínimos. Assim, magicamente, achar que a cobertura da Folha não apresenta favorecimentos, ser tucano e ganhar mais de 10 salários mínimos é sinal quase inequívoco de pertencimento a uma sombria elite. Mas por que uma coisa deveria se seguir da outra?

O articulista sequer cogita que eventualmente o leitor é tucano ou pretende votar em Serra por achar que o PSDB é um partido melhor ou por considerar o ex-governador de São Paulo como um melhor candidato. Tampouco considera que alguém pode achar a cobertura do jornal isenta por achar isso com sinceridade. É grave, porém não exatamente surpreendente, a tentativa de rotular pessoas como pertencentes a um grupo malévolo pelos dados de uma pesquisa como essa. Se não foi essa a intenção do articulista, a citação da afirmação de Kucinski não se justifica.

Condições de pertencimento

Fico imaginando a minha avó que, ao menos uma vez por semana, passa os olhos na Folha. Além disso, ela pretende votar em Serra e tem rendimentos acima de 10 salários mínimos. Para piorar, ela tem simpatia pelos tucanos. Da próxima vez que ela me ligar, não vou atender. Minha avó provavelmente faz parte da elite dominante que é ao ‘mesmo tempo a fonte, a protagonista e a leitora das notícias’. Que desagradável.

Estou dizendo que não há, de forma alguma, uma elite dominante dotada das características enumeradas por Kucinski e reproduzidas por Lima? Não, não estou. Porém, imagino que não seja prudente rotular um grupo de pessoas como ‘a cara’ do jornal (se é que o jornal tem tal cara) com base nos resultados da pesquisa precisamente porque uma coisa não necessariamente se segue da outra. Ainda mais quando a cara é tão feia. Lima parece subestimar a possibilidade de alguém, racional e autonomamente, ter simpatia por um partido e candidato diferentes daqueles com que o articulista parece nutrir simpatia.

Assim, minha conclusão é bastante simples: os resultados da pesquisa não mostram que os leitores têm ‘a cara’ dos jornalões. E se isso é verdade, os resultados da pesquisa não mostram que os leitores são aquilo que a afirmação de Kucinski diz. Cabe ao articulista demonstrar quais são as condições necessárias e suficientes para que alguém pertença a tal grupo. E se ele conseguir demonstrar que ‘ser tucano’, por exemplo, é uma das condições necessárias, poderá, quem sabe, conseguir melhores resultados ao dizer que uma coisa é ‘a cara’ da outra.

Pensando bem, vou atender minha avó quando ela ligar.

******

Estudante de Filosofia na Universidade Federal de Ouro Preto

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