Sexta-feira, 25 de Setembro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Jornalista-espião morre aos 79 anos no Vietnã

22/09/2006 na edição 399

Morreu na quarta-feira (20/9) Pham Xuan An, ex-coronel do exército comunista do Vietcong que trabalhou simultaneamente como correspondente para organizações de mídia americanas e como espião para os comunistas durante a Guerra do Vietnã. An tinha 79 anos e morreu de enfisema pulmonar em um hospital militar na cidade de Ho Chi Minh, ex-Saigon.


A vida dupla do coronel foi mantida em segredo por quase 30 anos, de 1959 até os anos 80. Ele foi o primeiro vietnamita a trabalhar em tempo integral para um veículo da grande mídia dos EUA, escrevendo inicialmente para a revista Time.


Jornalista respeitado


Embora sua tarefa como espião tenha sido descobrir os planos do Vietnã do Sul e do exército dos EUA, An era tão bom em coletar e analisar informações que era considerado o melhor repórter vietnamita pelos correspondentes estrangeiros. O coronel garantiu que não mentiu, distorceu informações ou espalhou mentiras nas matérias que escreveu na época. ‘Teria sido estúpido se ele tivesse feito isto. Ele teria sido descoberto em um instante’, observa Frank McCullough, ex-chefe da sucursal da Time em Saigon, responsável pela contratação de An. ‘Ele usava o escritório como um posto de escuta. Ele era um conhecedor sofisticado não somente da cultura do Vietnã, mas de sua política’.


Espião comunista


À noite, An fotografava relatórios que eram retirados de Saigon através da rede de túneis de Cu Chi. Ele disfarçava os rolos de filmes para que parecessem com carne de porco embrulhada em papel de arroz, ou ainda os escondia dentro de peixes. ‘O mais extraordinário foi como ele conseguiu ser um espião de sucesso e um bom jornalista por tanto tempo’, opina Larry Bernan, que escreveu uma biografia sobre An, a ser lançada em 2007. ‘Ele nunca teve de roubar um documento, porque era tanto um jornalista profissional quanto um espião profissional. Seus mentores eram o coronel Edward Lansdale e William Colby [posteriormente chefe da CIA]. As pessoas viviam mostrando a ele documentos para saber sua opinião, porque ele era muito inteligente’.


Articulador


Devido a sua competência, An conseguiu o cargo de coronel enquanto trabalhava como repórter. Ele orquestrou secretamente a libertação do repórter Robert Sam Anson, capturado pelo regime Khmer Rouge, no Camboja, e também foi responsável por colocar o ex-chefe de segurança do Vietnã do Sul, Tram Kim Tuyn, no último helicóptero americano que deixou Saigon. A mulher de An e seus quatro filhos deixaram o Vietnã em um helicóptero fornecido pela Time, mas o coronel decidiu ficar. ‘Foi a atitude mais estúpida que tomei’, confessou ele posteriormente. Depois da retirada dos americanos, An ainda enviou mais três matérias ao escritório da Time, na medida em que o Vietnã do Norte invadia a cidade.


A sucursal da revista fechou em 1976 e An passou por um ano de ‘reeducação’ em Hanói. Ele era suspeito de se tornar muito próximo dos americanos e foi mantido sob prisão domiciliar, proibido de ver repórteres e veteranos de guerra. Nos anos 90, quando o Vietnã voltou a receber visitantes ocidentais, An foi promovido a major-general e nomeado ‘herói das forças armadas do povo’. Sua vida dupla começou então a ser amplamente divulgada pela mídia.


Paixão pelo jornalismo


An chegou a estudar jornalismo em uma universidade nos EUA por dois anos, financiado pelo Viet Minh (Liga de Independência do Vietnã), que lutou pela independência do Vietnã da França. Nos EUA, ele trabalhou como estagiário para o Sacramento Bee e para a ONU. De volta ao Vietnã, em 1959, ele trabalhou para a agência de notícias vietnamita VTX e depois para a Reuters. Informações de Patricia Sullivan [The Washington Post, 21/9/06].

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