Quarta-feira, 23 de Setembro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Veja renuncia à nação

21/01/2012 na edição 677

Veja (25/1) abre a seção Brasil com o título "O crack bate à nossa porta".

Não é possível garantir que os manuais de redação vedem explicitamente o uso do pronome pessoal da primeira pessoa fora de citações entre aspas ou equivalentes. Para isso seria necessária uma pesquisa dispensável, até porque se os manuais fossem observados a quantidade constrangedora de erros de português seria bem menor (não seria zero, porque os manuais também contêm erros; falo com autoridade: há 25 anos fiz, no Jornal do Brasil, um que os tinha).

Essa enxurrada de erros mostra também, por contraste, que o meritório esforço de professores como Sérgio Nogueira e Pasquale Cipro Neto – para citar dois dos mais conhecidos batalhadores pelo bem-falar e pelo bem-escrever – não dá o resultado que se poderia imaginar.

Se o professor de português do ensino fundamental não conhece direito a língua, ou não sabe transmitir o que conhece, o aluno chegará à faculdade com um déficit difícil de corrigir. E nas redações não há mais copidesques, que eram professores cotidianos dos repórteres.

Com ou sem vedação em manuais, era uma regra férrea não escrever, por exemplo, "Cresce nossa frota de caminhões". Nossa do país, da empresa, de quem?

Hoje a vigilância é menor e com alguma frequência já se encontra o pronome em títulos, em lugar das expressões "do país" ou "do Basil", e do adjetivo "brasileiro(a)". É mais fácil fazer títulos com uma só palavra de cinco letras.

Droga tem a ver com classe social?

Engana-se o aborrecido leitor, porém, se supuser que este tópico trata de técnica de título.

Ocorre que o "nossa", no caso, entrou no lugar de "da classe média" (expressão usada no subtítulo: "Transformado em munição na briga entre partidos políticos, o crack invade as portas da classe média. Neste caso, a porta de entrada para a droga é a cocaína".

A Veja, portanto, abre mão de dialogar com a nação letrada. Seu universo é o da "classe média".

E a delimitação fica ainda mais bizarra quando a revista indaga por que pessoas com dinheiro, estudo, status aderem a um entorpecente "cujo uso está associado a mendigos e indigentes e que, sabem, poderá dilacerar sua vida".

Como se o consumo de drogas tivesse relação com a classe social do consumidor.

Como se a vida de "mendigos e indigentes" fosse menos vida que a dos outros.

 

 

 

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