Segunda-feira, 13 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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CIRCO DA NOTíCIA >

Para eles, negócio; para nós, diversão

Por Carlos Brickmann em 29/06/2010 na edição 596

De repente, surge uma discussão ética sobre o belíssimo gol de Luís Fabiano contra a Costa do Marfim. Como é que nós, torcedores, temos a audácia de defender ética nos negócios, ética na vida pública, ética na vida privada, e ao mesmo tempo comemorarmos um gol ilegal? Mais do que ilegal, duplamente ilegal: o centroavante da Seleção usou os dois braços no lance.

A discussão é sem sentido: como não disse John Lennon, it´s only football.

Futebol pode ser negócio para quem vive dele como negócio, mas para o público, para nós, é divertimento, é paixão. Que história é essa, de agora todo mundo – inclusive quem não gosta de futebol – começar a exigir que o jogador se auto-acuse e auto-anule seu gol por irregularidade? Futebol não é assim: futebol não se esgota no campo, continua depois da partida, e talvez esteja aí a parte mais saborosa da competição. É de lei chatear o amigo que tem a falta de sorte de ser torcedor adversário, mandar-lhe e-mails se estiver à distância, telefonar-lhe com a gravação do gol ilegal. O ‘foi roubado sim, e ficou muito mais gostoso’. Saber que o torcedor adversário, além de ter de suportar a derrota, ainda carrega a irritação de ter sido roubado, é uma delícia!

O problema do gol do Luís Fabiano foi ter sido marcado contra a Costa do Marfim. Se fosse contra a Argentina, Itália, Espanha ou Alemanha a comemoração seria muito maior. E, se além do braço houvesse impedimento e falta no beque, se o juiz tivesse apitado o fim do jogo e voltado atrás para validar o gol, melhor ainda: seriam mais argumentos para chatear o torcedor do outro time.

O Barão de Coubertin, que recriou os Jogos Olímpicos em nossos tempos, dizia que o importante é competir. Comportava-se como cartola; ou, como se usava na época, como prócer, como paredro, como dirigente de um grande evento internacional. O jornalista Hamilton de Almeida, num texto magnífico para, se não me falha a memória, o Jornal da Tarde, usou uma frase de torcedor, de quem pensa que não há nada mais saboroso do que saber que certos amigos estão se mordendo, aguardando o telefonema com o cáustico comentário sobre a derrota: ‘O Barão de Coubertin que nos perdoe, mas o importante é vencer, não competir’. Gol de mão, pois. Impedimento, sim. E se a bola não tiver entrado, mas mesmo assim o juiz der gol, melhor ainda.

 

É grosso, sim

Correu pela internet um manifesto contra a Globo, pedindo que os telespectadores passem um dia sem vê-la. Besteira: ninguém é obrigado a ver a Globo. Quem preferir pode ver a Rede TV!, a Cultura, a TV Lula, tantas outras opções atraentes existem. Vê a Globo quem quer; quem a prefere às concorrentes.

E ‘punir a Globo’ por ter tentado fazer uma entrevista exclusiva com jogadores da Seleção, com autorização do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, é outra bobagem. Teixeira autorizou, a Globo foi lá. Se Dunga não permitiu, tudo bem: está no seu direito. Mas agredir verbalmente o repórter da Globo, em público, sabendo que ele não poderia revidar na mesma hora, está errado.E ficar resmungando contra ele está mais errado ainda.

Vale a pena, sobre esta ofensiva contra Galvão Bueno e a Globo, ler um texto extremamente sensato de Ricardo Kotscho sobre o tema. Está no Balaio do Kotscho e foi reproduzido neste Observatório.

 

É sábio, sim

Quem sabia das coisas era Walt Disney. Entre seus anões, Dunga era o mudo.

 

O alvo é Galvão

A propósito, a campanha contra o mais popular locutor de esportes da TV brasileira não está sendo feita só em twitters, blogs, portais: chegou aos grandes meios de comunicação. Há dias, um grande jornal, ironizando Galvão Bueno, atribuiu-lhe um escorregão geográfico: teria dito que a América do Sul já tem mais dois países classificados, o Uruguai e o México.

O México, claro, está na América do Norte (e o lamenta a cada instante, com a frase ‘pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos’).

Só que a frase completa de Galvão, sonegada ao leitor para que fosse possível ridicularizar o locutor, era a seguinte:

‘Dentro da nova geografia do futebol, a América do Sul tem mais dois países classificados: o Uruguai e o México. Isso considerando que o México já participa da Libertadores e da Copa América, torneios da América do Sul’.

A propósito, este colunista não o encontra há muitos e muitos anos, mas gosta pessoalmente de Galvão Bueno, simpático, agradável, excelente companheiro de trabalho. Entretanto, o considera superlativo demais como locutor. Há quem goste – a maioria da população, sem dúvida, que demonstra sua preferência sintonizando sua emissora. Este colunista prefere a Bandeirantes, mais contida e, mesmo com falhas, divertida. Normalmente só vê a Globo, com Galvão ou com seus substitutos, quando é a única a transmitir o jogo do Corinthians.

 

Divulgou, virou verdade

Quem localizou e identificou a besteira foi a sempre alerta Rosana Hermann, fera da internet.

Tudo começou com uma brincadeira de um blog especializado em brincadeiras: o Assuntos Criativos (@criativos). Na imagem, um dos Simpsons escreve na lousa, em inglês duvidoso, que não iria mais tuitar o ‘Cala Boca, Galvão’. Imediatamente a coisa se espalhou: portais especializados em notícias, não mais em brincadeiras de internet, passaram a divulgar, como se fosse verdade, que o episódio do ‘Cala Boca’ seria utilizado num episódio dos Simpsons.

Rosana Hermann foi buscar a origem da falsa notícia, encontrou-a, divulgou-a. A reação dos ‘portais sérios’ foi apenas retirar a falsa notícia do ar, sem esclarecê-la, sem se desculpar com os leitores, sem dizer que haviam errado.

A rápida divulgação de uma notícia falsa pela internet é algo que deveria estar sendo amplamente discutido pelos jornalistas. Alguém publica e imediatamente a notícia falsa é copiada e republicada de norte a sul, por dezenas, centenas de sites, alguns ligados a jornais, que depois a imprimem, outros ligados a emissoras de rádio, que a colocam no ar. Não adianta desmentir e comprovar a falsidade do que foi noticiado: mesmo que o site que iniciou a bobajada admita o erro, os que o copiaram fazem de conta que não é com eles. Nem todo mundo que edita noticiosos é gente boa, gente profissional: há os despreparados, há os que não se importam a mínima com a veracidade do que publicam. De tantos que são, o acompanhamento, com mensagens específicas para cada um destes sites, se torna impossível. E a notícia falsa é apresentada como se verdadeira fosse.

Quando um jornal, uma emissora, divulga uma notícia falsa, dá para conversar, mostrar, pedir desmentido. Se o desmentido for negado, há caminhos judiciais para percorrer. Mas como usar o desmentido, como percorrer esses caminhos judiciais, quando a disseminação é tão pulverizada? Teremos, sempre, de contar com a sorte para que não sejamos atingidos por informação falsa generalizada – e que, mais tarde, ainda por cima vai parar no Google?

 

Futebol e política

A Coréia do Norte, comandada por um ditador hereditário, Kim Jong-Il, o ‘Estimado Líder’, filho de Kim Il-Sung, o ‘Grande Líder’ (e pai do sucessor, que está sendo escolhido por ele), é provavelmente o país mais fechado do mundo. Não tem celulares, não tem internet, não permite que visitantes estrangeiros fiquem com seus celulares ou computadores portáteis tão logo cruzem a fronteira. Pois bem: agora está circulando, como se fosse verdade, um vídeo que teria sido exibido pela TV norte-coreana a respeito do jogo com o Brasil. No jogo, a Coréia do Norte vence por 1×0. O ‘Estimado Líder’ até seria capaz de algo desse tipo. O problema é outro: se fossem verdadeiras, como as imagens chegariam ao exterior? É um vídeo de brincadeira. Só peca por fingir-se de verdadeiro. Veja aqui.

 

Última Flor do Lácio…

Um país se faz com homens e livros, dizia um dos maiores escritores da língua portuguesa, Monteiro Lobato. Hoje já não é bem assim: no comunicado à imprensa do lançamento do livro Meus Contos Africanos, de Nelson Mandela, o título é ‘Sujestões de leitura nesta Copa 2010’. Sim, sujestões, escrita desse geito. Não é de jemer? Nem o jênio Nélson Mandela escapa dessas bobajens?

Aliás, o comunicado não para por aí: fala também das ‘bubuzelas’.

 

…inculta e bela

Os meios de comunicação decidiram sepultar definitivamente as normas de regência verbal. Objeto direto, objeto indireto, é tudo a mesma coisa. Dois exemplos, num veículo de enorme prestígio e circulação:

** ‘(…) que o permita sair candidato ao Senado (…)’

** ‘(…) que lhe deixou inelegível’

 

Esplendor e sepultura

O caso mais notável ocorre num anúncio de TV – daqueles que têm redator, diretor de criação, gente que aprova, gente que produz. No anúncio, que estimula os jogadores de futebol a superar-se, há uma exortação: ‘soe a camisa!’ ‘Soe’, do verbo ‘soar’, sinônimo de ‘tronspirar’, ou ‘trenspirar’, ou coisa parecida.

Tudo bem, o anunciante é gringo, não está muito a par da língua portuguesa. Mas serão todos gringos, do redator a quem aprova o – para usar o idioma que parecem preferir – ‘anôncio’?

 

Como…

De um grande jornal:

** ‘No Brasil de Dunga, titulares do ataque são responsáveis por matar as jogadas dos rivais.’

E os reservas do ataque continuam responsáveis por assistir ao jogo do banco.

 

…é…

De um jornal de circulação nacional:

** ‘Falha da BP afeta aprovação da compra de ativos no país’

Como é bom ser grande! O maior desastre ecológico desde que o petróleo começou a ser extraído passa a ser conhecido como ‘falha’.

 

…mesmo?

De um importante portal noticioso da internet:

** ‘Uruguai vence todos os jogos e avança’

Este era o título. No texto, o resultado de Uruguai x França: 0x0

 

Mundo, mundo…

Veja que coisa estranha:

** ‘Amigos trocam tiros de chumbinho no ânus e vão parar no hospital’

Não, não ache que a coisa mais estranha está no título (embora já não seja das mais normais). O melhor está no subtítulo:

** ‘Eles até tentaram, mas o tiro não saiu por onde deveria’

 

…vasto mundo

De um portal noticioso:

** ‘Morte salvou o astro Michael Jackson da falência, diz jornal’

Deve-se entender o fato como uma boa notícia?

 

E eu com isso?

Sexo e gente pelada dominam o noticiário frufru:

** ‘Mulheres jogam calcinhas para candidato a prefeito no Peru’

** ‘Homem que mudou de sexo aos 58 ganha direito a aposentadoria em idade mínima para mulheres’

Notícia perigosa: tem gente que para se aposentar mais cedo é capaz de fazer qualquer coisa, até de extirpar uma parte do corpo.

** ‘Americano vai preso após se masturbar em ônibus’

** ‘Mulher nua furta 2 carros, foge e leva choque da polícia’

** ‘Estudo diz que 7 minutos é o tempo ideal para relação sexual’

Ideal para quem, cara-pálida?

** ‘Mulher arranca blusa na rua para espantar criança barulhenta’

E há o noticiário frufru propriamente dito. Aquelas notícias sem as quais nem conseguimos dormir:

** ‘Ex-BBB Angélica publica 1ª foto após colocar silicone’

** ‘Deborah Secco quer deixar de se vestir como carioca’

Segundo seus amigos, ela quer ficar com um visual ‘mais moderno’. E para isso deixa de usar a moda do Rio, sempre uma das mais avançadas do país?

** ‘Renata Fan faz bicicleta enquanto assiste futebol na TV’

** ‘Jéssica de `No Limite´ escolhe o buquê que usará no casamento’

** ‘Depois de acidente, motorista bêbado aguarda resgate bebendo cerveja’

** ‘Adriano falta a treino físico no Flamengo e não se justifica’

E alguém ainda espera que Adriano um dia se dedique aos treinos?

 

O grande título

A variedade é ampla. Temos o nonsense:

** ‘Jovem surta e coloca fogo em casa e foge do hospital’

Se ela fugiu do hospital, é porque estava lá; como é que botou fogo em casa?

Temos estatísticas que até dá para entender, mas são bem esquisitas:

** ‘Campinas registra quase 1 desaparecimento por dia’

Pelo jeito, há dias em que uma pessoa quase desaparece – será isso?

Temos novidades fantásticas:

** ‘Membro tenta deter Temptations falsos’

A reportagem se refere a Otis Williams, único integrante ainda vivo do grupo original. Mas não é inusitado um membro tentando deter tentações?

E temos o grande título, referente ao Santos FC:

** ‘Time volta aos treinos com Ganso de molho’

Usando a mesma linguagem culinária, irão refogar o Ganso?

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

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