Terça-feira, 22 de Setembro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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A inevitabilidade da participação do público na renovação da imprensa

Por Carlos Castilho em 28/09/2011 | comentários

A emergência da Web como mais um canal de comunicação entre pessoas e entre instituições tornou essencial a inclusão dos usuários como protagonistas na transição para um novo modelo de produção, distribuição e uso de informações jornalísticas.
 

Até agora tudo o que se relacionava à informação pública ou ficava nas mãos do governo ou das empresas de comunicação. O resultado todos nós sabemos. Quando o governo predomina, temos uma comunicação tutelada e influenciada pelos interesses políticos do grupo partidário no poder. Quando as empresas ditam as regras, predomina a preocupação corporativa com o lucro e com as estratégias de negócios, que cada vez mais têm menos a ver com jornalismo.
 

Vivemos agora um período de transição em que nem governo e nem as indústrias da comunicação têm estratégias definidas. É um periodo de crise, cuja principal característica é o fato de que a solução não surgirá pelas vias tradicionais, como fórmulas propostas pelo poder público ou pelas empresas. Isto porque provavelmente não haverá um único modelo, pois a internet fragmentou extraordinariamente o que chamamos de público ou audiência, ao dar às pessoas a possibilidade de expressar seus desejos e necessidades por meio de ferramentas como os blogs e redes sociais.
 

Os mais bem sucedidos empresários da Web sabem por experiência própria que poucas iniciativas virtuais têm êxito quando não contam com a participação dos usuários. São estes que decidem o que dará certo ou não, ao contrário o que sucedia no modelo convencional, onde os especialistas, investidores e executivos decidiam a forma e o conteúdo de um projeto jornalistico, com consultas meramente formais aos usuários.
 

No novo modelo de comunicação jornalística que está surgindo, a mera consulta já não é mais suficiente para garantir o sucesso de uma iniciativa. Há vários exemplos de iniciativas de grandes projetos na Web propostas por executivos que acabaram tendo que recuar por pressão dos usuários. É o caso da maior rede social do planeta, a Facebook, que segundo estimativas teria hoje já perto de 700 milhões de usuários mas que enfrenta o temor de uma debandada em massa de clientes sempre que os executivos da empresa tentam mudar as regras de privacidade para aumentar a receita com publicidade.
 

O usuário deixou de ser um expectador passivo. As empresas da Web já sabem disso por experiência própria, mas a imprensa convencional ainda está muito influenciada por rotinas e valores pré-internet. Os consumidores de informações, por seu lado, também adotam comportamentos divergentes. Os que já têm alguma intimidade com o ambiente cibernético cobram participação, enquanto os demais queixam-se do modelo analógico mas ainda não se deram conta das novas possibilidades de fazer valer seus desejos e necessidades.
 

As empresas virtuais adotaram como regra o chamado padrão beta, ou seja, mudança permanente. A Google existe há mais de uma decada e é o mais bem sucedido caso de empresa virtual, mas até hoje se considera na fase beta, experimental. Isso porque as empresas estão a todo momento usando o feedback dos usuários para promover alterações em seus produtos ou lançar novos.
 

Mas quando se trata de buscar novas políticas públicas para a comunicação, o feedback e a consulta não são mais suficientes. É necessária a participação do público porque só assim será possível compor um modelo tripartite que é considerado o único capaz de garantir a transição para a era digital na informação pública. A participação do usuário não é mais vista apenas como uma concessão ou gentileza, mas um elemento essencial para que o modelo seja sustentável, junto com o poder público e as empresas.
 

A questão está em como acontecerá esta participação? Esta é a pergunta que deveria tirar o sono de todos os interessados na questão porque dela depende o novo modelo de comunicação pública baseado na convergência de canais de informação online e offline.
 

Tentar especular sobre formatos dessa participação do usuário implica ingressar num ambiente onde as incertezas são grandes e as possibilidades extremamente diversificadas. Quem espera por uma resposta única, pode se preparar para uma decepção. Dificilmente ela surgirá não porque faltem cérebros capazes de formulá-la, mas porque as condições materiais criadas pela internet tornam inviável uma solução que atenda a todos os contextos sociais, econômicos, culturais e políticos. A realidade mudou, não vivemos mais num mundo vertical e hierárquico.
 

Mas embora seja total a incerteza sobre o formato da participação cidadã na definição do novo modelo de comunicação, pelo menos temos um consolo: a certeza de que a participação é necessária e inevitável. 
 

Propositalmente evitei o uso da expressão marco regulatório, muito em voga atualmente no Brasil, porque ela está associada a uma preocupação normativa, de fixar regras, quando o que realmente precisamos é explorar novas possibilidades. A diferença é que no marco, a preocupação é encontrar referenciais de segurança e ordem, enquanto na exploração a meta é a busca do novo, o que nem sempre é feito de forma ordenada.

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