Quinta-feira, 09 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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A privacidade vira quebra cabeças, na internet  

Por Carlos Castilho em 25/05/2010 | comentários

Depois de quase uma década de uso eufórico da internet para trocar fotos, músicas, vídeos, documentos e diários íntimos, os internautas estão mergulhando agora no pesadelo de ter todos os seus dados pessoais sujeitos a vazamentos, roubo ou espionagem. Prova disto é a multiplicação de ações contra sites como o Facebook e o Google, acusados de violar a privacidade não só de seus usuários como também de pessoas que nem acessam a internet.


 


O Facebook, a maior rede social da Web enfrenta uma rebelião de seus membros por conta de mais uma tentativa de mudar as regras de privacidade do site para permitir o aumento das receitas de publicidade baseada em dados de usuários. Já o Google está na mira das organizações de defesa da privacidade que acusam a maior empresa da internet de intrometer-se na vida alheia ao fotografar casas, apartamentos, lojas, escolas e indústrias para o serviço Google Street View.


 


A onda de ações políticas e judiciárias nos Estados Unidos em defesa da privacidade online atinge praticamente todas as empresas, organizações e indivíduos autônomos que possuem páginas na Web. Todos, de forma direta ou indireta guardam informações sobre visitantes, mas como navegar na internet era uma novidade excitante, raros foram os internautas que se deram conta de que a moeda tinha uma outra cara.


 


Agora a preocupação aflorou de forma clara provocando um debate mundial que pode acabar frustrando muita gente. A discussão sobre a privacidade no uso da internet é muito útil mas precisa ser colocada no contexto adequado. O ponto mais importante deste contexto é encarar o princípio de que não existe privacidade absoluta na internet.


 


Toda a estrutura tecnológica da rede permite que qualquer usuário possa ser identificado e seguido, já que tudo o que ele fizer online estará registrado por meio do Internet Protocol, o IP, que está associado a todas as entradas na rede, tanto em computadores domésticos, como corporativos e LAN houses.


 


O problema que temos que discutir é como aprender a viver cercado por paredes de vidro. A evolução da tecnologia está tornando obsoletos os mecanismos legais de proteção a privacidade, um valor social associado ao princípio do individualismo, um item básico na sociedade liberal e capitalista. A sociedade digital em redes está alterando os conceitos usuais sobre individualismo e individualidade.


 


O primeiro é restritivo porque marca privilégios de indivíduos  na comunidade. Já individualidade está vinculada à diversidade social dentro da comunidade. Enquanto o individualismo limita o poder da comunidade, a individualidade enriquece a comunidade ao promover a diversidade entre seus integrantes.


 


Portanto, em vez de nos preocupar em criar muros para proteger o individualismo, devemos promover a individualidade. Em vez de tentar encaixotar a privacidade, deveríamos estimular a transparência como forma de garantir a ampliação na circulação de informações, premissa básica para a produção de conhecimentos essenciais na economia digital da inovação.


 


É preciso levar em conta que, na internet, cada usuário acaba sempre fazendo uma espécie de troca com os sites online. Cede parte de sua privacidade em troca de serviços e benefícios que facilitam a sua vida. Você só pode receber sugestões de livros, se deixar que as livrarias virtuais guardem dados sobre suas preferências pessoais, para citar apenas um exemplo.


 


A transparência está também associada, na Web,  à questão da credibilidade e reputação de pessoas ou instituições. Quando mais dados existirem sobre uma pessoa, empresa ou instituição menor o risco de grandes equívocos, especialmente em transações financeiras ou comerciais. Como a reputação é cada vez mais um elemento essencial ao comércio eletrônico, a perda, parcial ou total, da privacidade passa a ser uma moeda de troca muito importante.


 


A questão da privacidade, nos termos em que está colocada, tenta introduzir na internet um conceito jurídico e social desenvolvido na era da sociedade industrial. É questionável a eficácia de uma medida como esta porque os pressupostos da sociedade digital e da industrial são diferentes, embora não excludentes. Só para comparar, na era industrial, o importante era guardar a informação já na digital, é essencial fazê-la circular, porque só assim ela se multiplica e se enriquece.


 

Como o mundo contemporâneo tende a ser movido pela informação, a matéria prima mais importante e mais valorizada, é sobre ela que temos que basear o debate sobre questões como a privacidade. Caso contrário estaremos tentando usar regras antigas para resolver uma situação nova. 

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