Quinta-feira, 04 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Greves colocam a imprensa contra a parede

Por Carlos Castilho em 23/05/2014 | comentários

Greves de ônibus simultâneas em pelo menos 13 cidades brasileiras de médio e grande porte levantam suspeitas generalizadas, mas a imprensa ignora olimpicamente as dúvidas sobre os interessados nos movimentos e apenas faz um registro burocrático das paralisações, deixando a população duplamente confusa.

O papel da imprensa, em especial dos jornais das capitais e dos telejornais em rede nacional, não identificam quem são os grupos políticos que estão por trás de greves que tornaram ainda mais tensa e confusa a vida de milhões de brasileiros. As dúvidas que atormentam os usuários do transporte coletivo nas cidades afetadas pelos movimentos de cobradores e motoristas de ônibus variam desde a incerteza na hora de sair para o trabalho até as suspeitas sobre quem teria interesse num protesto que dá sinais de ser coordenado por alguém.

É difícil especular sobre os reais interessados nessas greves, mas a responsabilidade da imprensa parece bem clara. Ela não está contribuindo para resolver as dúvidas da população em São Paulo e dez outras cidades paulistas, em São Luiz, Cuiabá e Teresina.

O caso das greves em São Paulo foi exemplar. A paralisação dos dias 21 e 22/5 foi promovida por dissidentes do sindicato mas em momento algum eles foram identificados. Além disso, a Polícia Militar paulista se mostrou passiva e nenhuma autoridade estadual ou do Poder Judiciário resolveu aplicar a lei. A imprensa não cobrou nada, limitando-se a documentar ocorrências e relatos irritados de pessoas sem transporte.

Numa situação como a de uma greve de transportes públicos, milhões de pessoas são afetadas e consequentemente têm o direito de exigir uma solução rápida para a falta de ônibus. Mas, para fazer isso, as pessoas precisam de informação para poderem cobrar medidas pertinentes dos responsáveis pela situação, no caso funcionários e donos de empresas do transporte público. Quem deveria fornecer essas informações é a imprensa, porque ela é uma instituição cuja missão é oferecer dados para que o cidadão possa tomar decisões.

Quando a imprensa não fornece as informações que permitam às pessoas cobrar soluções, ela deixa de cumprir o seu papel social e passa a ser apenas um negócio. O papel social da imprensa é investigar situações confusas e complexas para dar ao público elementos para avaliar contextos, consequências e responsáveis. É o que está escrito em todos os manuais de redação e é mencionado sempre nos discursos dos donos de empresas jornalísticas.

Esta é função da imprensa, que se transforma num mero sindicato de donos de empresas quando se omite em sua responsabilidade social. O governo, as empresas privadas e organizações corporativistas (incluindo sindicatos) têm outros interesses que devem ser identificados para que a população não seja enganada.

A informação pública é um serviço cada vez mais importante na emergente sociedade digital porque é a base para a produção de conhecimento, fator indispensável tanto para a produção econômica como para viabilizar as transformações sociais inevitáveis num período de transição de modelos.

A produção de conhecimento não é um atributo exclusivo dos intelectuais, pesquisadores, tomadores de decisões e empreendedores. No momento em que começamos assistir a um irreversível processo de descentralização política, administrativa e produtiva, os segmentos sociais da chamada base social passam a ser indispensáveis no desenvolvimento de soluções inovadoras para problemas locais. 

Fica cada vez mais claro que as grandes decisões sobre problemas, como transporte público urbano, não poderão mais ser tomadas apenas por burocratas de uma prefeitura de grandes cidades, mas também pelos usuários, que conhecem o problema de perto e sofrem diretamente as suas consequências. Mas para que isso seja possível é necessário ter informações, o que não acontece e nem aconteceu nas greves de ônibus pelo país.

Nós jornalistas exercemos uma função complexa porque somos orientados pela missão social da imprensa, mas ao mesmo tempo integramos uma estrutura industrial movida pela lógica dos negócios.

A convivência entre ambas funções é possível e viável, mas há conjunturas que as colocam em situações opostas, como a que está acontecendo agora com as greves no transporte público, movimentos de protesto que podem ter implicações eleitorais. Quando isso ocorre, os jornalistas acabam diante de um dilema: manter o emprego ou correr o risco de perder a credibilidade do público, o que pode ser fatal para o exercício da profissão.

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