Sexta-feira, 05 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Hegemonia é o melhor uso de ideias

Por Lucas Lôbo Takahashi em 20/03/2012 na edição 686

 

Nas últimas décadas, notou-se a multiplicação dos canais de comunicação. A popularização da internet, as informações via satélite, as mensagens instantâneas, todas foram fatores que ilustraram e ilustram uma nova ordem mundial. Nesse sentido, cabe fazer uma breve reflexão sobre os efeitos desses fenômenos nas relações internacionais – partindo-se do pressuposto de que a mídia e as relações internacionais possuem um relacionamento estreito –, e sobre como o público se situa nessa relação.

Para Robert Cox, as ideias têm um papel preponderante na construção das relações internacionais. Defensor da teoria crítica das relações internacionais, este autor se opõe aos realistas, que tendem a considerar o poder como o elemento central no cenário mundial. Para Cox, a hegemonia não seria apenas o domínio do mais forte, mas também o melhor uso de ideias [Cox, R. W.; Sinclair, T. J. Approaches to World Order. Cambridge, RU. Cambridge University Press: 1996].

Assim, é importante observar que a informação se tornou instrumento chave no exercício de política externa,e portanto, saber utilizá-la passa a ser fundamental, sobretudo em mundo mundo que vive o avanço de novas tecnologias, que geram formas mais sofisticadas de dominação e alienação [Nogueira, J. P.; Messari, N. Teoria das Relações Internacionais, p. 139. São Paulo: Elsevier, 2005].

Mídia tem múltiplas funções

Entre essas novas tecnologias e efeitos, podemos citar o “efeito CNN” [termo cunhado pelo professor inglês James Der Derian; mais sobre o tema pode ser lido aqui, acessado em 15 de março de 2012] na Guerra do Golfo, quando pela primeira vez uma grande rede de comunicação estava emitindo, praticamente em tempo real, informações sobre o campo de batalha, e o mundo passou a ter uma visão diferente do conflito. Podemos citar ainda o “efeito Al-Jazira”, que apresenta a visão do Oriente Médio sobre o que acontece na região, e o “efeito Nokia”, o qual estaria permitindo que cidadãos comuns transmitam fatos internacionais em tempo real, através de uma câmera de celular, por exemplo. Todos esses elementos alteram substantivamente as interações globais.

Essas interações são alteradas na medida em que imagens trazidas pela mídia desencadeiam determinadas ações dos tomadores de decisão. Assim, a mídia substitui os canais diplomáticos, pois tem também um papel constrangedor quando influencia o processo de tomada de decisão, levando o líder político a tomar determinadas decisões que, de outra maneira, não tomaria [Camargo, J. Mídia e Relações Internacionais, p. 45. Curitiba: Juruá, 2009].

A grande preocupação é entender que a mídia tem múltiplas funções e sua relação com a política é uma relação de mão dupla, tanto constrangendo quanto auxiliando a política externa dos Estados. Para ilustrar essa situação, tem-se a Guerra do Iraque. A divulgação de imagens de prisioneiros sendo torturados gerou tanta repercussão internacional que fez com que alguns países, como a Austrália, por exemplo, pressionados pelos seus nacionais, retirando suas tropas do país. Na mesma linha, mas em sentido oposto, as informações dadas pelo governo estadunidense de que o Iraque tinha armas de destruição em massa serviram para os EUA ganharem o apoio internacional que buscavam para dar início à invasão.

Deixar de ser passivo

Nota-se, então, que a mídia não só expressa opinião pública, como também a forma. Assim, é fundamental que o público (tanto de agências internacionais, jornais de grande impacto ou outros canais) faça um balanço sobre o papel aquela mídia está assumindo. Esse balanço pode alçar a mídia a um papel ainda mais relevante, o de superar as divisões que geram exclusão e conflito.

Nesse sentido, conclui-se que a mídia pode conscientizar milhões de pessoas a respeito de situações de opressão no horizonte da política, como mostrou a cobertura recente de eventos como a primavera árabe e os conflitos no Sudão. Assim, cabe ao espectador fazer algo com essa informação, deixando de ser sujeito passivo na relação mídia/relações internacionais, e tomando ações para transformar o mundo em um lugar melhor.

Fontes:

CAMARGO, Julia Faria. Mídia e Relações Internacionais: Lições da Invasão do Iraque em 2003. Editora Juruá. Curitiba: 2009

COX, Robert; SINCLAIR, Timothy. Approaches to World Order. Cambridge, RU. Cambridge University Press: 1996.

NOGUEIRA, João Pontes; MESSARI, Nizar. Teoria das Relações Internacionais: Correntes e Debates. Elsevier. São Paulo: 2005

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[Lucas Lôbo Takahashi é estudante, Brasília, DF]

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