Quinta-feira, 09 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Nove anos inúteis

Por Maurício Tuffani em 11/05/2010 na edição 589

Qualquer que fosse a decisão do STF no julgamento da obrigatoriedade da formação superior específica de jornalismo, já estava construído e consolidado, tanto pelos contrários como pelos favoráveis a essa exigência, um resultado de conseqüências muito mais sérias: a ‘categoria’ dos jornalistas brasileiros se mostrou indigna de se considerar parte dessa profissão.

Independentemente do desfecho a que se tivesse chegado na corte suprema, passados quase nove anos desde outubro de 2001, quando teve início a Ação Civil Pública contra o requisito do diploma, jornalistas e acadêmicos de jornalismo poderiam ter evoluído para um patamar de conhecimento ainda que mínimo em torno desse tema. Afinal, estava posto um desafio intelectual para os integrantes de uma categoria profissional cuja auto-imagem é a de ser pautada pelo espírito quase científico de dúvida e investigação, e que se promove como portadora dos preceitos éticos fundamentais de fomentar o amplo debate de idéias e de jamais frustrar a manifestação de opiniões divergentes. No entanto, decorridos esses quase nove anos, o que se pode extrair das tentativas de discussões e simulacros de debates em torno desse tema é justamente a negação do espírito universitário e também do jornalístico.

As manifestações de grande parte dos estudantes nos fóruns de discussão na internet revelaram um dos principais filtros ideológicos do ensino superior de jornalismo no Brasil. Por meio do mesmo tipo de mecanismo que acusa na grande imprensa, a maioria dos acadêmicos continua a desprezar o estudo comparativo das diversas formas de regulamentação dela nos outros países. Desse modo, a tão enaltecida necessidade do nível superior para o exercício do jornalismo se mostrou escorada na aversão a idéias divergentes, como também completamente alheia ao ideal de universalidade que dá origem ao termo ‘universidade’.

Regra geral

Quase nada se produziu em estudos de pesquisadores brasileiros de jornalismo em torno dos aspectos teóricos e conceituais envolvidos por essa questão que estava no Judiciário. Na maior parte dos casos, o que houve foram manifestações coletivas, movidas muito mais pelo espírito gregário do que pelo exercício do pensamento crítico. Em vez de entrarem em cena os papers, protagonizaram os abaixo-assinados.

Seja como for, dentro ou fora da universidade, por parte dos favoráveis ou dos contrários ao diploma obrigatório, o que prevaleceu foi a falta do mínimo de curiosidade jornalística em face do tema que corria no âmbito da Justiça. Não faltaram exemplos de artigos, colunas, posts de blogs e comentários em listas de discussão expelidos sem o conhecimento de pelo menos um dos documentos nos quais esteve posta a questão no plano judicial.

Das caricaturas de debates que se tornaram as audiências públicas, o saldo de imagem é a da repetição das palavras de ordem de sempre de acadêmicos, sindicalistas e representantes patronais. Nesses confrontos, o Outro existe apenas para que o Mesmo se afirme em sua diferença e se dirija apenas à sua própria platéia. No Sul, em uma universidade, os organizadores de um evento nem se deram conta da piada pronta quando o anunciaram como um ‘debate a favor do diploma’. Ridículo, mas verdadeiro, pois isso é o que foram muitos desses eventos. Uma das felizes exceções a essa lamentável regra geral foi o debate realizado no âmbito da programação da Semana de Jornalismo 2008 da ECA-USP, que tive a satisfação de relatar em meu blog (ver aqui).

Ações catárticas

Passados esses nove anos, a visão ingênua da Teoria do Espelho, segundo a qual a mídia apenas reporta os fatos sem deles participar, ainda sobrevive entre os contrários à obrigatoriedade, principalmente nas manifestações de dirigentes de veículos de comunicação. Em seus posicionamentos contra essa concepção, os sindicalistas nada mais fizeram senão reforçá-la, seja com sua ‘estratégia comunicacional’ baseada em um arsenal argumentativo que remonta à pré-história do marxismo, seja com sua eterna moral desprovida de referenciais próprios, ancorada no Outro e, consequentemente, maniqueísta: ‘Os patrões são o Mal; nós somos contra eles, portanto, somos o Bem’. Para piorar, esse discurso continuou tendo eco na academia.

No final das contas, os ‘donos da mídia’ nada perderão se chegarmos ao ridículo jurídico de voltar à exigência do diploma e ao vexame de tê-la na forma de emenda à Constituição. Isso nada mudará na relação capital-trabalho, a não ser manter as entidades sindicais em seu desperdício de tempo, energia e dinheiro com ações meramente catárticas.

Se forem espertos, os ‘patrões’ continuarão a se pronunciar contra essa bandeira para perpetuar a reação sindicalista na forma de uma bandeira que não só não os incomoda, como os fortalece – o ópio dos jornalistas brasileiros.

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