Sábado, 04 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Que jornalismo se ensina na escola?

Por Eugênio Bucci em 01/06/2010 na edição 592

A base deste artigo foi rascunhada há poucos meses. Surgiu por necessidade. Surgiu quando estávamos, os professores de jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), conversando com alunos sobre o currículo e as mudanças necessárias e urgentes que precisamos encarar. Ao final da manhã, ficou bastante claro que não temos, na escola, uma definição atualizada do que seja o jornalismo. Aliás, essa carência não é uma exclusividade da ECA. No ano passado, uma comissão de professores, coordenados por José Marques de Melo, foi especialmente constituída pelo Ministério da Educação para rever as diretrizes curriculares do ensino de Jornalismo. O resultado é útil e melhorou bastante as diretrizes, mas no que se refere a uma definição precisa de jornalismo, ainda é vago [ver, neste Observatório, o relatório final da comissão].

Tenho conversado, aqui e ali, com professores do Brasil inteiro. Pelo que pude ver, desconfio que as faculdades não dispõem de um conceito básico do nosso ofício. Não descarto a possibilidade de que alguma faculdade tenha como fundamento orgânico de currículo uma boa definição, mas duvido. Continuo desconfiado. E preocupado.

Não tenho grande experiência como professor. Dou aula há poucos anos. Esse breve período, no entanto, já bastou para que eu formasse uma forte convicção: é impossível estruturar um curso coerente de jornalismo se ele não estiver centrado e alicerçado num conceito sumário da profissão. A ausência de um conceito, para nós, professores ou jornalistas, é dramática.

Identidades atormentadas

Essa ausência de conceito inicial não seria problema para todos os cursos universitários. Para a grande maioria deles, a propósito, não seria problema algum. Filosofia, por exemplo. Não é necessária uma definição de Filosofia para que se monte uma boa faculdade de Filosofia. Ao contrário, talvez essa exigência nem faça sentido filosófico: as pessoas, afinal de contas, estudam Filosofia exatamente para ficar discutindo o que é a Filosofia e se um curso de Filosofia dissesse logo de saída o que é a Filosofia de modo assim, categórico, o estudo da Filosofia não teria graça.

Do mesmo modo, uma boa escola de Direito não depende de um conceito de Direito posto a priori. A prática e o conhecimento que constituem o mundo jurídico falam por si. Ensinam por si. Não precisam de mais nada. Uma boa faculdade terá de ter, então, boas noções de Direito Penal, de Direito Civil, Tributário, de Filosofia do Direito, mas não precisariam sair por aí alertando os calouros com fundamentos doutrinários: ‘Para nós o Direito é isso e não é aquilo’. No mesmo grupo estão Odontologia , Medicina, além de Veterinária, Engenharia Civil, Enfermagem, Administração de Empresas: nenhuma dessas escolas carece de conceitos do que ensinam.

Com o Jornalismo, porém, é diferente. Em nossa época, sobretudo. No Brasil, as turbulências da chamada era digital acabaram por ferir a identidade da profissão. Repito: feriram a própria identidade da profissão. Um sintoma disso é que nunca se falou tanto no desaparecimento da imprensa convencional. Note bem o leitor: a Medicina usa computadores, tecnologias e internet a toda sorte de traquitanas eletrônicas a toda hora. O Direito também. A Engenharia Eletrônica nem se fala. Idem a Publicidade. O mundo inteiro se vale dos computadores interconectados e nem por isso a sobrevivência da Medicina, da Matemática ou da Psicologia é posta sob ameaça. Com computador ou sem, um advogado é um advogado e defende seus clientes. Com ou sem acesso à internet, um médico trata seus pacientes. Agora: com os jornalistas é diferente.

Eles se sentem à beira da extinção. Talvez porque se sintam fazedores de jornal de papel – e não mediadores do debate público, independentemente do meio. Quanto a isso, também é sintomático que, até hoje, em muitas faculdades, ainda exista a disciplina de ‘jornalismo impresso’. Vivemos uma era em que qualquer redação se vale de múltiplos suportes tecnológicos simultâneos. Mesmo assim, a disciplina ‘jornalismo impresso’ continua aí, intacta – e o professor possivelmente também se sente ameaçado. É como se um médico se visse condenado à morte por não escrever mais as receitas no papel, com caneta tinteiro, ou por não poder mais prescindir de exames computadorizados na hora de definir o diagnóstico. É como se um juiz perdesse o sono porque o processo em papel vai desaparecer (já deveria ter desaparecido). Juízes e médicos não são fazedores de ‘conteúdos’ sobre papel. Nem jornalistas, mas vá convencê-los disso.

Alguns se confortam (‘Até a minha aposentadoria essa profissão vai resistir’). Outros ficam mais ansiosos (‘Ainda me faltam oito anos, três meses, dez dias e quinze minutos’). O último que apague a luz e desligue as impressoras. O que dá mais dramaticidade às aflições desses profissionais é que a realidade objetiva dá razão às preocupações. Diferentemente do que se dá no ramo do Direito ou no campo da Medicina, os modelos de negócio da imprensa estão ameaçados de verdade. No Brasil e no mundo. Nos Estados Unidos, só se fala disso. Redações encolhem. Jornais quebram. Os que resistem, são obrigados a se fundir com os rivais. E para onde vão os jornalistas desempregados? Não é bem para a aposentadoria que eles vão. Também não é para as assessorias. Não nos Estados Unidos. Eles vão tentar exercer sua profissão, que sabem definir muito bem, em outras paragens.

A reportagem, seu valor e sua sustentabilidade

Uma das tendências mais interessantes do mercado americano – que aparece num relatório da Universidade Columbia, escrito por Leonard Downey, Jr e por Michael Schudson, no ano passado – é o surgimento de redações independentes financiadas por doações e colaborações do público. Nos Estados Unidos, não é a identidade profissional que está em questão. O que se encontra em xeque é a sustentabilidade da reportagem investigativa, trabalhosa por definição, e das redações independentes. No mais, jornalistas e sociedade parecem ter clareza quanto à obviedade de que não há liberdades democráticas sem imprensa. O ponto é como financiá-la.

Claro que a questão é séria. O futuro dos repórteres está cheio de incógnitas, mas a identidade da profissão não foi posta em dúvida. Longe disso. E é justamente porque se tem bem claro o lugar da imprensa na democracia que há um intenso debate em torno das suas formas de financiamento.

Aqui, tudo anda mais embaralhado. Entre nós, a crise dos modelos de negócio não é tão dramática – mas a crise de identidade profissional é mais profunda, como se a gente não tivesse incorporado a noção de por que existe o jornalismo.

A tal crise de identidade não vem da tecnologia, mas de uma tradição bem anterior ao Twitter, ao e-mail e ao Orkut; uma tradição corporativista que não logrou deixar nítido o conceito de jornalismo e de imprensa. Na nossa cultura profissional, achamos que repórteres e assessores desempenham a mesma profissão. Os sindicatos repetem isso todos os dias. E isso hoje complica, bastante, a nossa situação.

Sim, eu sei, o leitor deste Observatório vai se impacientar dizendo que já leu outros artigos meus batendo no mesmo ponto. Espero mesmo que tenha lido, o que muito me honra, mas aqui falo de algo sutilmente distinto.

Meu argumento é o seguinte: por termos uma fronteira frouxa demais (obscura demais) quando se trata de distinguir o jornalista de outros operadores da comunicação social, acabamos deixando que se definisse o jornalista como aquele que ganha a vida escrevendo qualquer relato informativo ou narrando os fatos cotidianos na televisão ou no rádio. Bastaria isso. Segundo essa cultura, se o ‘relato informativo’ é um release ou uma reportagem para um veículo independente, não importa. Se o tal jornalista aparece num programa partidário do horário eleitoral ou no noticiário da Band, é mero detalhe. Alguns acreditam, até, que a assessoria de imprensa é simplesmente uma especialização dentro da carreira jornalística, mais ou menos como o jornalismo cultural ou o jornalismo econômico.

Em função dessas noções amplamente difundidas, pouca gente, muito pouca gente, é capaz de identificar o que há de essencial na imprensa independente (uma expressão pleonástica que utilizo, digamos assim, com fins didáticos). Poucos sabem dizer por que a imprensa é indispensável à democracia. ‘Tudo bem’, uns dão de ombros. Para esses, o ‘jornalismo de redação’ (termo redundante) pode minguar, ou mesmo desaparecer, mas o ‘jornalismo de assessoria’ (expressão que é um oximoro, embora endêmica) vai persistir como carreira promissora.

De volta aos bancos escolares

Pois bem, é aí que vem a pergunta: o que é o jornalismo na visão das nossas faculdades? Precisamos respondê-la. Há outras perguntas. Que profissão elas ensinam aos estudantes? Em que consiste essa profissão? Será que a assessoria de imprensa é mesmo uma atividade jornalística? Para a maioria das escolas, e também para a comissão constituída pelo MEC no ano passado, a resposta é sim. Para mim, modestamente, a resposta é não. O mais grave é que isso não está claro no ambiente das faculdades responsáveis pelo ensino de jornalismo no Brasil. E esse ponto compromete todo o resto.

O que é o jornalismo?

No domingo (23/5), vendo o lançamento do novo projeto da Folha de S.Paulo, dei com um artigo de Otavio Frias Filho (‘Reflexão: 7 vidas do jornalismo‘) que lança elementos pertinentes, ao menos no meu modo de ver:

‘Durante décadas, o jornalismo clássico, dito de qualidade – que cultiva compromissos com a exatidão do que publica, com a relevância coletiva dos temas que aborda, com a manutenção do debate público – foi sustentado por um modelo econômico hoje em risco. Talvez jornais, revistas e livros impressos venham a desaparecer, talvez não. O papel impresso tem o carisma da credibilidade e da duração.

‘A fotografia não suprimiu as artes plásticas, nem a TV liquidou o cinema, que não havia dado cabo da literatura ou do teatro. Mas é pouco provável que o jornalismo de qualidade, tal como definido acima, desapareça da face da terra. Por pelo menos três razões. A absorção de bens culturais é elástica.

‘A quantidade de refeições, roupas ou utensílios que se pode consumir é restrita, mas a aptidão para processar informações não tem limite conhecido. Conforme mais pessoas imergem no oceano de dados e versões que giram pela rede, maior a demanda por um veículo capaz de apurar melhor, selecionar, resumir, analisar e hierarquizar.

Esse veículo, no papel ou na tela, se chama jornal.’

Uma definição atual de jornalismo passará por aí. Mas não se reduzirá a isso, de modo algum. O campo institucional da imprensa – de que modo ela se situa fora do Estado, longe do governo, e enraizada na vida social – deve ser descrito com mais precisão. As escolas de jornalismo dependem disso para orientar seus currículos e saber exatamente para que estão formando os estudantes. Eu insisto: sem essa definição – que em quase todas as carreiras cairia na redundância tola –, a formação dos jornalistas cairá na pura desorientação. Sobretudo agora.

Por isso, recupero aqui o documento que escrevi para os professores e alunos da ECA. Estendo-o a todos os interessados. Acredito que as críticas que ele vier a receber ajudarão na elaboração de um novo ponto de partida para o ensino nas nossas faculdades.

Um alerta: a definição que se segue está dirigida para a estruturação de novos cursos. Ela procura realçar aspectos que, depois, poderão ser traduzidas em competências, habilidades e conhecimentos que orientariam a elaboração dos currículos. Aos de olhar muito prático, essa definição parecerá quase que tautológica. Aos que precisam dar aulas e ordenar currículos, poderá ser de alguma serventia. Vamos a ela.

***

=> O jornalismo é a profissão dos que se encontram socialmente encarregados de atender o cidadão em seu direito à informação.

=> Essa profissão se define por um conjunto das práticas, lícitas e legítimas, que se estendem dos procedimentos de apuração dos fatos a padrões discursivos que os noticiam, em diálogo com as fontes e com o público. Nesse sentido, o jornalismo é um método de conhecimento imediato do mundo, baseado na reportagem (investigação) e uma narrativa específica, com base na precisão e na objetividade.

=> Tanto a reportagem quanto a narrativa específica que ela enseja – o relato noticioso e o debate das idéias e de interesse público – se definem pela independência. Para noticiar os acontecimentos e as manifestações que afetam a expectativa dos cidadãos em relação ao seu futuro próximo, à sua identidade e aos seus direitos, a imprensa precisa demarcar sua liberdade prática e cotidiana. Visto dessa perspectiva, o jornalismo é o método pelo qual a instituição da imprensa age na democracia, um método cujo centro se apóia na independência em relação ao poder político e ao poder econômico.

=> A palavra independência, aqui, é estruturante. Quando se deixa capturar, em maior ou menor grau, direta ou indiretamente, por interesses estranhos à integridade do direito fundamental da pessoa humana à informação (e à comunicação, de modo mais amplo), notadamente os interesses abrigados no governo, nos partidos políticos e nos agentes econômicos e sociais de maior influência no mercado e no espaço público, o jornalismo se afasta da missão nuclear que a democracia lhe outorgou, qual seja, noticiar os fatos e as idéias de interesse público de modo a ajudar a sociedade a fiscalizar o exercício do poder. É exatamente por isso que, sem a independência, formal e material, não há jornalismo. É por isso que a democracia depende da imprensa livre. Sem liberdade, não há imprensa – e se a imprensa não é livre, a democracia não funciona bem.

=> Cabe à imprensa revelar as notícias que o poder teria preferido manter em sigilo. A notícia nada mais é que um segredo (do poder) no instante em que é desvelado e posto a público. A imprensa livre – livre do poder – é a única instituição capaz de prover ao cidadão o acesso aos dados, aos enunciados e às críticas que lhe permitem, com soberania e espírito crítico, delegar, vigiar ou mesmo exercer o poder em sintonia com a sociedade.

=> Na essência de sua profissão, o jornalista é o portador das interrogações que o cidadão tem o direito de dirigir ao poder. Nesse ponto, há que se estabelecer uma distinção conceitual: a função de jornalista não se confunde com a função do assessor de imprensa, ao contrário do que pretende a cultura corporativista dos profissionais de imprensa no Brasil. Enquanto o jornalista é portador das perguntas que o poder (econômico, político, religioso, cultural etc.) prefere não ouvir, o assessor de imprensa trabalha nas respostas que o mesmo poder gostaria que prevalecessem na sociedade. Não que sua função, de assessor de imprensa, não seja legítima: ela é apenas diferente da função do jornalista. Não raro, é antagônica.

=> O jornalismo não se define por aspectos formais ou estéticos dos relatos com que se apresenta – a prosa de aspecto informativo, com títulos, chamadas, legendas –, mas pelo seu sentido ético. Ele se define por sua independência, seu método e, sobretudo, por aquele a quem se dirige: o direito à informação, de que todo cidadão é titular. Sem que a sociedade e o Estado democrático assegurem o direito à informação (e à comunicação) como um direito fundamental da pessoa humana, não há sentido em se falar na instituição da imprensa ou na profissão de jornalista. Em linhas gerais, eis o que distingue a profissão do jornalista de todas as demais.

=> Vivemos um tempo, no entanto, em que qualquer do povo parece poder produzir ‘conteúdos jornalísticos’. Qualquer um poderia, portanto, em tese, exercer a atividade jornalística. A singularidade da profissão teria se diluído com o advento da era digital, que fez ampliar consideravelmente as possibilidades de que todos os cidadãos atuem na confecção de peças informativas ou opinativas nos mais variados sentidos. Os temas que ocupam a agenda do debate público se originam de fontes outras que não os veículos jornalísticos tradicionais. Notícias aparecem de todo lado e são oferecidas gratuitamente na rede ou em jornais gratuitos. Esse ambiente em que qualquer um pode atuar como emissor de relatos com formato jornalístico, a sensação é de que todo mundo é jornalista. O que significa que ninguém mais precisa ser jornalista profissional. A profissão teria se esboroado.

=> Trata-se de uma sensação precipitada. Desde meados do século 20, com o crescimento das relações públicas, os órgãos de imprensa vinham deixando de ser as únicas portas de entrada dos assuntos no espaço público. Hoje, mais ainda. Nem por isso, a necessidade democrática de que o debate público seja mediado e abastecido por uma instituição independente, vale dizer, a imprensa, com redações independentes, deixou de existir. Ao contrário, ela está ainda mais presente. O que se passou é que, com a crescente participação da sociedade na elaboração de conteúdos jornalísticos, a própria imprensa adquiriu mais vasos circulantes, mais massa crítica e mais agentes. O jornalismo se tornou um diálogo mais denso, mais diverso, mais polifônico. Mas não perdeu sua razão de ser, sua especificidade. Ele hoje pode se processar de modo mais colaborativo, apenas isso.

=> É verdade que, à primeira vista, os contornos de sua própria identidade se esvaneceram dentro da hipertrofia industrial e espetacular do negócio do entretenimento, de tal sorte que é mais custoso, hoje, distinguir as fronteiras da instituição da imprensa. Há mais interpenetrações entre ela e a publicidade, entre ela e a política, entre ela e as relações públicas (assessorias de imprensa aí incluídas) do que costumava haver. Mas ela não se tornou desnecessária, supérflua, descartável. Em vez disso, a função dialógica da imprensa ganhou mais consistência e visibilidade. Mediar o debate público, após a emergência das redes interconectadas, é uma tarefa mais complexa e mais vibrante. As redações independentes continuam necessárias, o profissional independente também. Sem eles, o próprio funcionamento da democracia estará comprometido.

=> Tanto isso é verdade que, hoje, diante da abundância de informações que abarrotam a internet, o cidadão se pergunta: ‘Mas em quem é que eu posso confiar?’ Dessa pergunta virá a diferença. Por seu método, sua independência e seu discurso, subordinado ao direito à informação a que se dirige, o jornalismo gera credibilidade. Mais que os outros discursos que o circundam. E porque a democracia não tem como prescindir da instituição da imprensa, a imprensa não tem como prescindir dos profissionais independentes que saibam operá-la.

=> É assim que, agora como antes, o jornalismo é a profissão dos que se encontram socialmente encarregados de atender o cidadão em seu direito à informação.

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Jornalista, professor da ECA-USP

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