Sexta-feira, 14 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Telejornal da TV Brasil cobre derrota de Chávez

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 04/12/2007 na edição 462

Leia abaixo a seleção de terça-feira para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Terça-feira, 4 de dezembro de 2007


TV BRASIL
Fábio Zanini


Jornal da TV Brasil estréia com Lula e derrota de Chávez


‘O ‘Repórter Brasil’, telejornal da nova TV Brasil, destacou ontem em suas duas edições de estréia, de manhã e à noite, a vitória do ‘não’ no referendo constitucional da Venezuela e reportagens com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.


Pela manhã, a edição trouxe três reportagens com Lula e nenhuma referência à oposição brasileira. Curiosamente, a oposição venezuelana teve voz no telejornal, com a entrevista de um ativista contrário ao presidente Hugo Chávez. À noite, a oposição brasileira ganhou espaço. O líder do DEM no Senado, José Agripino, falou sobre a CPMF, e o senador Heráclito Fortes (DEM-PI) comentou a situação venezuelana. Imagens do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso assinando o protocolo de Kioto, sobre mudanças climáticas, foram mostradas.


O presidente Lula apareceu falando sobre o início da TV digital, a votação para presidente do PT, a questão ambiental e na reprodução de seu programa de rádio semanal, ‘Café com o Presidente’ Também houve uma referência indireta ao fato de o time do petista, o Corinthians, ter sido rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Lula teria previsto que a equipe se salvaria, mas ‘errou’, segundo o apresentador.


Na abertura de conferência sobre direitos da criança e adolescente, à noite, Lula defende a TV pública e atacou a TV comercial. ‘Em parte da programação dos meios de comunicação neste país, sobretudo a televisão, a gente vai se perguntar: em que momento vai ter alguma coisa educativa na televisão? (…) [com a TV pública] a gente vai poder ter programação e usar a cultura e educação para ajudar na formação das crianças e dos adolescentes.’ Segundo ele, nos últimos 30 anos não houve políticas voltadas aos jovens.


Novo olhar


Para mostrar um ‘novo olhar’ sobre a Venezuela, os jornais da TV Brasil mostraram um material produzido por uma emissora comunitária daquele país, com narração em português sofrível. Para a TV pública brasileira, ‘o venezuelano respira democracia’.


De manhã, o noticiário de política teve espaço reduzido no telejornal. Uma repórter, ao vivo do Congresso Nacional, lembrou que hoje deve ser votado o segundo processo de cassação do presidente licenciado do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), cujo resultado é ‘imprevisível’, segundo a jornalista. À noite, o espaço foi maior.


Ao introduzir uma reportagem sobre Ouro Preto (MG), cidade histórica, o telejornal citou números positivos do setor de turismo, com destaque para o fato de que essa indústria cresce 18% ao ano. A pasta é comandada pela petista Marta Suplicy, pré-candidata do partido à Presidência da República -que, no entanto, não foi citada nominalmente. O jornal teve um viés de autopromoção, com reportagens sobre a nova emissora e sobre ele próprio, cujo objetivo seria ‘jornalismo com foco no que realmente interessa’.


O jornal também noticiou que o DEM entrou no STF (Supremo Tribunal Federal) com uma ação direta de inconstitucionalidade contra a medida provisória que cria a TV.


Colaborou JOHANNA NUBLAT, da Sucursal de Brasília’


 


Carlos Heitor Cony


Tudo é possível


‘RIO DE JANEIRO – Sem entrar no mérito de mais um canal de TV oficial, desejo o maior sucesso para a jornalista Tereza Cruvinel, a quem devo admiração e gratidão pelos artigos que publicava em sua respeitável coluna. O desafio que ela vai enfrentar não é mole, mas todos reconhecemos sua fibra e vontade de acertar.


Pessoalmente, estou me lixando para a necessidade de mais um canal de TV, ainda mais gerida ou supervisionada direta ou indiretamente pela máquina oficial, apesar de isentos que sejam os seus propósitos. Mas confio que Tereza saberá dar a volta por cima.


Por falar em TV, problema de saúde que se arrasta há meses me obrigou a enfrentar a telinha com certa freqüência. Ficou difícil manter meus hábitos antigos.


Não consigo me distrair com a programação existente, vejo os noticiários, documentários, raríssimos filmes, todos repetidos à exaustão, sobretudo nos canais de assinatura. Não é para me gabar, mas acho que, se tivesse tempo e equipamento, seria capaz de fazer um porta-aviões desde a primeira lâmina de aço a ser cortada para o casco. Acredito, sem falsa modéstia, que também seria capaz de construir uma ponte ligando Nova York a Londres. Já vi umas duzentas vezes como ela pode ser feita.


O problema é arranjar patrocínio, tanto para fazer uma ponte transoceânica como para editar um livro de poemas que nunca escrevi -nem pretendo escrever. Desconfio de que ninguém acreditará nas minhas possibilidades, nem como construtor de pontes nem como poeta.


Outro dia, recebi o convite para um show. Metade do cartão -muito bem impresso- era ocupada pela relação dos patrocinadores: três estatais, alguns ministérios, duas ONGs, uma companhia aérea, um refrigerante e até mesmo uma produtora de soja.’


 


Nelson de Sá


Os dois lados, mas sem conflito


‘Por uma longa e arrastada hora, o telejornal ‘Repórter Brasil’, da TV Brasil, deu imagens de arquivo com FHC assinando o protocolo de Kyoto, sob aplausos, e depois Lula ao lado da ‘alta comissária das Nações Unidas para os direitos humanos’, ontem.


O telejornal da emissora pública parecia medir no relógio o tempo que concedia a um lado e outro. Sobre a disputa em torno da CPMF, abriu com o senador Geraldo Mesquita, contra, depois Romero Jucá, a favor, depois José Agripino Maia, contra, e assim por diante.


Sobre a Venezuela, ouviu Heráclito Fortes, do DEM, Cristóvam Buarque, do PDT, e depois Aldo Rebelo, do PC do B, que está em Caracas. Arriscou a avaliação, abrindo o bloco, de que a derrota de Hugo Chávez ‘deve facilitar a adesão da Venezuela ao Mercosul’.


A reprodução de uma reportagem realizada por uma emissora de Caracas, ‘comunitária’, ameaçou trazer alguma tensão. Mas também ela se concentrou na conclamação ao voto e não no que estava em jogo. Lembrou inserções da Justiça Eleitoral, não jornalismo.


A cada nova reportagem ou entrevista, em que pesem as visões divergentes, nada de conflito. Nada que ecoasse a tensão das edições, para as mesmas notícias, de ‘Jornal Nacional’ e ‘Jornal da Record’.


Estreando com aparente constrangimento, a escalada de manchetes clonou os telejornais das concorrentes privadas, transmitidos pouco antes, com a elevação da expectativa de vida como primeiro enunciado, em coro unânime.


A maior aposta de diferenciação, inclusive com enviado a Bali, foi a ‘conferência das Nações Unidas sobre o clima’. Mas o resultado foi frio, como seria de esperar de evento que é tratado sem maior expectativa, em outras partes.


O bloco mencionou, registre-se, que a Austrália não era signatária de Kyoto -quando a notícia do dia foi que o país enfim assinou, ontem, deixando isolados os EUA.


O breve editorial, no início do programa, avisou que o telejornal visa, ‘a partir da informação completa e qualificada’, dar condições para o espectador ‘formar a própria opinião’. Mas o que se viu na hora seguinte não instiga raciocínio, é quase antitelevisivo.


Uma inovação, se é que ainda se pode descrever assim, foi o desejo expresso para que ‘o ‘Repórter Brasil’ seja reflexo da diversidade social, cultural e étnica do país’, como anunciado pela apresentadora negra, Luciana Barreto.


Mas também por aí faltou conflito, no correr do telejornal, e sobrou correção política -em meio à atenção desproporcional dedicada à ONU, que a TV Brasil insiste em chamar de Nações Unidas.’


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Governos e a indecisão


‘Em palestra, o editor do ‘New York Times’ afirmou que a questão para o jornal na web é como viabilizar a ‘indecisão angustiante’, própria do bom jornalismo. Como se ecoasse a imagem, o site entrou madrugada, ontem, sem as pesquisas que davam vitória a Chávez -ao contrário do resto do mundo. E não demorou a noticiar, nas manchetes de site e papel, a derrota ‘apertada’ que ‘freia’ a transformação da Venezuela.


Ontem, mal deixou a derrota de Chávez para trás, o site destacou novo relatório de inteligência dos EUA, dizendo que o programa de armas do Irã ‘parou em 2003’ -o que ‘contradiz’ relatórios anteriores sobre ‘armas atômicas’. O anúncio foi ‘público’, notou o jornal, para ‘garantir uma apresentação mais exata’. A manipulação de informações pela Casa Branca ou qualquer governo foi outro foco do editor do ‘NYT’.


HUMANOS + ALGORITMOS


A palestra do editor do ‘NYT’, dias atrás em Londres, questionou diretamente Google News e Wikipedia, em contraste com o jornalismo tradicional. Mas é o próprio ‘NYT’ que mais avança na transição para o novo meio.


Integrou as duas redações, abriu acesso geral, contratou um editor de busca, passou a linkar -e mais importante, dizem sites como Mashable, testa ferramenta de seleção de notícias on-line, externas, similar ao TechMeme. Sua diferença é adicionar ‘editores humanos aos algoritmos’.


ANTES DA DERROTA


Um dos primeiros indícios da vitória do ‘não’, segundo o Terra Magazine, de Caracas, foi a suspensão do informe publicitário contratado pelo governo junto à imprensa da Venezuela, domingo à noite.


Para Bob Fernandes, que faz uma biografia de Chávez, ele perdeu por se afastar de seu ex-ministro Raúl Baduel -que, vitorioso, se candidata agora a governador de Aragua.


UMA CORREÇÃO


Dos poucos a fazê-lo na web, o site de Míriam Leitão no Globo Online reconheceu que ‘o blog se precipitou’.


‘SPIN DOCTORS’


No dia anterior, os sites de ‘spin doctors’, como apelidou o blog de Pedro Dória, não apenas postavam a vitória, ouvindo enviado petista como fez Paulo Henrique Amorim no iG, mas comentavam que ‘a Venezuela passa a ser um país sem lei’, ‘ditadura, agora oficial’, como fez Reinaldo Azevedo na Veja On-line.


Ontem, já davam a vitória do ‘não’ como derrota de ‘pesquisas’ em geral, até do Datafolha de domingo sobre o terceiro turno, no caso de Amorim, ou como afirmação do Datafolha, um ‘não’ para Lula, no caso de Azevedo.


PROTECIONISMO LÁ


No debate CNN/YouTube entre os republicanos, dias atrás, o presidenciável Mitt Romney defendeu manter os subsídios aos fazendeiros americanos dizendo que eles precisam enfrentar os brasileiros, também subsidiados.


E no ‘Financial Times’ a democrata Hillary Clinton já expressa ‘dúvidas’ na Rodada Doha, ‘ceticismo’ com o livre comércio -a exemplo do adversário Barack Obama.


MAIS E MAIS BRICS


Em destaque nos sites de busca, a Bloomberg noticiou ontem que, ‘no meio da maior queda nas ações globais em cinco anos, os investidores aplicam nos lançamentos de ações do Brasil à Índia’. Passam também por China ‘e outros emergentes’, sempre os Brics -como locomotivas.


UTOPIA DE MERCADO


Sobre o caso brasileiro, o ‘Financial Times’ ressaltou, em análise desde Londres, a ‘notável automelhoria’ na bolsa, com a ‘governança’ empresarial crescendo aos poucos desde a criação do Novo Mercado. ‘Idéia que, então, parecia utópica’, mas amontoa investidores à porta.’


 


VENEZUELA
Fabiano Maisonnave


Chávez aceita derrota, mas não desiste


‘O presidente Hugo Chávez sofreu a primeira grande derrota política em nove anos ao ter sua proposta de reforma constitucional rejeitada no referendo realizado anteontem.


O venezuelano reconheceu a vitória da oposição, disse que ‘a vontade popular será cumprida’, mas salientou que é ‘por agora’ e que a proposta ‘continua viva’. ‘Seguimos na batalha construindo o socialismo, no marco que nos permite esta Constituição’, afirmou.


Chávez se pronunciou ontem em rede nacional pouco depois da 1h (3h no Brasil), depois de o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) divulgar o primeiro boletim do referendo, com 87% dos votos apurados e três horas de atraso em relação às previsões iniciais. Ele reconheceu que, àquela altura, a vitória da oposição era irreversível.


Com quase 90% dos votos apurados, o ‘não’ obteve 50,70% no bloco A, que incluía a reeleição indefinida para presidente, contra 49,29% em favor do ‘sim’. Em números de votos, a diferença -ainda parcial- foi de apenas 124.962.


Já o bloco B foi rejeitado por 51,05%, enquanto 48,94% o aprovaram. Essa parte do referendo trazia propostas de deputados chavistas, como a que tirava da Constituinte atual o direito à informação em caso de estado de exceção.


A divulgação dos resultados ocorreu em meio à expectativa provocada por supostas pesquisas de boca-de-urna que apontavam a vitória de Chávez (leia texto nesta página).


No seu pronunciamento, de uma hora, o presidente leu um texto de Simón Bolívar sobre a necessidade de consultar o povo e disse que o resultado do referendo era ‘um triunfo democrático de participação’. Mas alfinetou a oposição ao chamar a vitória do ‘não’ de ‘pírrica’ e disse que ganhar por tão pouco não lhe interessaria.


Também foi contundente na defesa da reforma que propôs. ‘Nem uma vírgula eu retiro. Continuo fazendo a proposta ao povo venezuelano’, disse. ‘Esta proposta está viva, não está morta.’ O presidente reforçou três vezes que perdeu ‘por agora’, expressão que usou em 1992, ao se render depois de comandar uma tentativa de golpe contra o então presidente, Carlos Andrés Pérez.


Ele disse que foi derrotado pela abstenção -o ‘sim’ teve 3 milhões de votos a menos do que ele teve ao se reeleger, há um ano.’Estou seguro de que a imensa maioria continua conosco, não votaram pelo ‘não’. Abstiveram-se por dúvidas, temores, faltaram tempo e capacidade para explicar.’


Ontem à noite, Chávez disse que pode ter errado na escolha do momento para fazer a proposta e que talvez o país não esteja maduro para o socialismo.


Os principais dirigentes do Bloco do Não reagiram com retórica moderada à vitória. Ismael Garcia, líder do Podemos, partido social-democrata que rompeu com Chávez neste ano, disse que o momento é de ‘diálogo’ e exortou o governo a parar de desqualificar a oposição.


Ontem, especulava-se de que maneira Chávez levará adiante seu projeto de Carta. Uma das possibilidades seria a convocação de uma nova Assembléia Constituinte, para o que seriam necessárias as assinaturas de 5% dos eleitores.


Quanto ao fato de que, sem a reeleição indefinida, Chávez terá que deixar o poder ao fim do atual mandato, em 2012, o sociólogo Edgardo Lander disse que o presidente não vai desistir da reeleição e especulou que poderia seguir de alguma forma no poder, como se espera do russo Vladimir Putin.


‘Talvez o modelo venezuelano poderia ser o modelo Putin, em que ele não se lança à reeleição, mas terá uma maioria absoluta no Parlamento e o presidente que escolher.’ Lander disse que Chávez dificilmente aceitará ser ‘ex-presidente’: ‘Um Chávez retirado para a vida no campo não é imaginável’.’


 


Janio de Freitas


A ‘ameaça Chávez’


‘A ARITMÉTICA um pouco mais esmiuçada do que os números brutos do referendo venezuelano, como divulgados para definir o lado vencedor, sugere um futuro mais complexo para a Venezuela do que foram até agora os anos Chávez. E como grande parte da chamada mídia brasileira tornou-se participante do confronto venezuelano, relembrando os seus tempos de pouco jornalismo e muita política na Guerra Fria, também no Brasil o resultado do referendo é insuficiente para distensionar as articulações iniciadas a pretexto da ‘ameaça Chávez’.


As presenças somadas de favoráveis e contrários representaram, no referendo, apenas 55,89% dos 16.109.664 de venezuelanos aptos a votar, ocorrendo abstenção de 44,11%. Do total de eleitores, portanto, só 9.002.439 decidiram opinar contra ou a favor do projeto de Constituição com que Chávez quis levar o seu plano de ‘socialismo bolivariano’ a um vasto salto.


Os opositores ao projeto impuseram-se a Chávez com o apoio de 50,7% dos votantes. Maioria que se refere, não aos 16,1 milhões do eleitorado, mas aos 9 milhões que opinaram. Logo, os vitoriosos representam apenas 28,33% do eleitorado total da Venezuela. Não chegam nem a um terço dos eleitores.


Esse resultado não recebeu ressalvas nem do próprio Chávez, quanto à clareza da recusa a seu projeto de Constituição, pela maioria dos presentes às urnas. Mas, como definição política nacional e, em particular, nas condições do confronto que se trava na Venezuela, a vitória que não chega a contar nem com um terço dos cidadãos é pouco expressiva demais, para ter sentido e alcance mais profundos. Só não seria assim se houvesse alguma indicação, e nem de longe há, de segura maioria dos opositores de Chávez também nos 44,11% que se omitiram.


Os 50,7% vitoriosos representam 4.564.521 votos, nos 16 milhões de eleitores. E os 49,29% de apoio ao projeto de Chávez equivalem a 4.437.579 eleitores. Diferença entre vencedores e vencidos: 126.942 votos. Ou 0,79% do eleitorado. Os números um pouco esmiuçados são suficientes para indicar que, na relação de forças políticas, é muito improvável que o referendo venha a trazer alguma alteração na cena vivida pela Venezuela nos últimos anos.


Em contrapartida, no ânimo e na determinação o chavismo tende a sair estimulado. A diferença mínima em sua derrota não é bastante para gerar desarticulações e pessimismos, mas pode funcionar -é o mais comum- como o alerta que sensibiliza a militância para chamados a nova onda de excitação. O índice tão alto de abstenções não deixa dúvida de que o chavismo chegou mal arrumado e desentendido ao referendo. Ainda é cedo para saber se por discordância com o projeto de Constituição, como afirmam os comentaristas de oposição a Chávez, ou por soma de outros fatores, entre os quais o excesso de confiança.


Diante da campanha na mídia brasileira contra ‘a ditadura de Chávez’, é bom registrar, aqui também, que a comissão de fiscais da União Européia louvou ‘o espírito de respeito mútuo e a civilidade’ com que foi feito o referendo venezuelano.’


 


Folha de S. Paulo


Chavismo em choque


‘A DERROTA histórica do presidente Hugo Chávez no referendo de domingo é um daqueles eventos que se projetam além das fronteiras. O baque no programa ‘socialista’ de concentração de poder na Venezuela aumentará a resistência contra manipulações constitucionais parecidas -em germe ou em curso- na América do Sul.


O pleito revelou a cristalização de um certo desencanto com o chavismo nas suas próprias bases. Apesar da mobilização da incontrastável máquina do governo, a apatia predominou em redutos do presidente. A abstenção, antes característica da oposição a Chávez, mudou de lado e ajudou a selar o primeiro revés do coronel nas urnas.


O desgaste do regime, o desabastecimento de bens essenciais (sinal de que o socialismo chegou, já se brinca em Caracas), a inflação elevada, o temor de delegar poderes ditatoriais a quem, sem eles, já havia retirado do ar uma das principais redes de TV privadas. Essa associação de fatores logrou produzir um evento raríssimo, para não dizer inédito, na história: freou, pelo voto, o bonapartismo prestes a consumar-se em ditadura.


Fracassou a manobra chavista de inocular os itens mandonistas de sua reforma -a reeleição ilimitada, o estado de exceção por tempo indefinido, a submissão do federalismo ao poder presidencial, a criação da versão ‘bolivariana’ dos sovietes- em dois pacotes repletos de benefícios populares, como a diminuição da jornada de trabalho e a extensão da cobertura previdenciária. Mesmo assim, o cavalo-de-tróia foi barrado por maioria estreita: ou seja, os temas polêmicos teriam sido rechaçados por margem bem mais ampla no caso de uma votação individualizada.


A novidade política na Venezuela, que ficou patente nesse referendo, é a reciclagem das forças oposicionistas. Refluíram organizações, partidárias e empresariais, identificadas com a impopular política tradicional, a tentativa de golpe contra Chávez, a subserviência a Washington e os boicotes às eleições sob o regime chavista. Emergiram lideranças jovens, livres do fardo do passado, que fazem oposição nas ruas e nas urnas.


Perdeu eficácia o maniqueísmo do discurso chavista, que reduz toda oposição a um plano conspiratório a serviço dos interesses americanos. As marchas estudantis não se enquadram nessa alegoria simplista. Ela tampouco basta para desqualificar a liderança do governador Manuel Rosales -que há pouco menos de um ano obteve 38% dos votos para presidente da República-, do general Raúl Baduel -dissidente do chavismo- e de Leopoldo López, prefeito de Chacao (município que integra Caracas).


Hugo Chávez está agora diante de uma encruzilhada. Se compreender o recado das urnas, vai enterrar seu projeto autoritário e iniciar uma transição negociada para deixar o poder no início de 2013, quando expira seu mandato. Se insistir na estratégia ‘socialista’, vai enveredar pelo caminho da conflagração.’


 


Clóvis Rossi


O futuro condenou Chávez


‘SÃO PAULO – À primeira vista, é razoável supor que o derrotado no plebiscito venezuelano de domingo foi o Hugo Chávez do futuro, aquele que pretendia perpetuar-se no poder (sua última menção ao ano em que deixaria o posto foi para cravar 2050, quando teria provectos 96 anos).


É claro que a derrota respinga também -e fortemente- no Hugo Chávez do passado e do presente, aquele que está no poder desde 1999. Mas esse Chávez detém ainda uma dose formidável de popularidade, atestada pelo melhor metro dos humores latino-americanos que é o Latinobarómetro.


Chávez é tão popular internamente quanto é impopular fora da Venezuela, a ponto de perder até para o ‘diabo’, mais conhecido como George Walker Bush, nos outros países latino-americanos, proeza formidável.


Na Venezuela, no entanto, ele só perdeu porque uma impressionante fatia de seus seguidores deixou de votar. A abstenção (44,11%) quase duplica a da eleição presidencial de 2006 (25%).


Posto de outra forma: entre sancionar a reeleição indefinida, não desejada, e ‘trair’ o caudilho, votando ‘não’, um pedaço do ‘chavismo’ escolheu ficar em casa. Essa é a leitura mais lógica, com a ressalva de que América Latina e lógica nem sempre são parentes.


Que diferença faz essa leitura, se correta, argumentarão as pessoas práticas que olham o placar e vêem 50,7% contra Chávez e 49,29% a favor? O presidente perdeu. Ponto.


A diferença é a seguinte: a oposição não pode acreditar que o placar indica que ela é majoritária. O ‘não’ teve pouco mais de 28% do total de votos possíveis.


Ou, traduzindo politicamente: a era dos caudilhos eternos parece encerrar-se na América Latina, mas não a era dos dirigentes atentos, real ou demagogicamente, às necessidades das massas pobres -chamem-se populares ou populistas.’


 


Eliane Cantanhede


Cala-te 2


‘BRASÍLIA – O resultado do referendo na Venezuela foi ótimo para todos os lados, inclusive para Hugo Chávez e principalmente para a oposição. Foi, também, mais uma demonstração de que o país vive uma democracia -peculiar, é verdade, mas ainda assim democracia.


Chávez esticou demais a corda, e a corda estourou. Ele continua popularíssimo, com o preço do petróleo na estratosfera e cinco anos de mandato pela frente. É forte, portanto. Mas a derrota foi um banho de realismo, e ele está obrigado a uma boa reflexão sobre seus limites: até onde os chavistas estão dispostos a viver e a morrer por ele?


Ao praticamente inventar uma nova Constituição da sua própria cabeça e em seu próprio favor, ele acirrou os ânimos de uma oposição até agora combalida e introduziu dois fatores decisivos para a derrota de domingo: 1) espantou aliados estratégicos, que concordam com o projeto social, mas não com a guinada autoritária; 2) forjou uma nova força política no país -a estudantada que foi às ruas, cobrindo o vácuo de lideranças oposicionistas.


A ausência de 44% do eleitorado (o voto é facultativo) demonstra que as críticas tanto dos desiludidos como dos estudantes tiraram o ânimo de eleitores chavistas. Na dúvida, ficaram em casa.


Sem querer, Chávez pode sair lucrando. Perdeu, acatou o resultado, sinalizou ao mundo que ele até pode ter impulsos de ditador, mas a Venezuela não vive uma ditadura.


Aliás, estava em paz ontem.


É hora de baixar a crista, calar um pouco, reabrir os canais com a Colômbia. Isso tudo faria enorme bem a Chávez, à Venezuela e à América do Sul. Facilitaria, inclusive, o voto do Congresso pela adesão do país ao Mercosul.


Só falta combinar com o adversário. Chávez reagiu bem no primeiro momento, mas tem ainda muito tempo para novas estripulias e para insistir em mandatos sucessivos.


Senão não seria Chávez.’


 


EUA vêem ‘bom sinal’ em vitória do ‘não’


‘A derrota de Hugo Chávez foi saudada pelos EUA e a aceitação por ele do resultado do referendo elogiada pela União Européia. O subsecretário de Estado americano para Assuntos Políticos, Nicholas Burns, qualificou o resultado de ‘notícia positiva’. Antes, a porta-voz da Casa Branca, Dana Perino, disse que a vitória do ‘não’ era ‘um bom sinal’.


Na Europa, a porta-voz de Relações Exteriores da Comissão Européia, Christiane Hohmann, manifestou ‘satisfação’ por Chávez ter aceito o revés.


Na Espanha, o chanceler Miguel Angel Moratinos parabenizou a Venezuela por sua ‘maturidade democrática’. O porta-voz do PSOE (partido do primeiro-ministro socialista José Luis Rodríguez Zapatero), Diego López Garrido, disse esperar que Chávez extraia os ‘devidos ensinamentos’ da derrota.


Hugo Chávez se envolveu em contenda com a Espanha na Cúpula Ibero-Americana, em outubro, quando o rei Juan Carlos mandou que ele se calar após ter chamado de fascista o ex-premiê José María Aznar. Em Cuba, o diário oficial ‘Granma’ destacou a ‘ética’ de Chávez ao admitir a derrota.’


 


Johanna Nublat


Amorim diz que Chávez foi ‘elegante’


‘O Planalto e o Itamaraty combinaram de falar pouco e destacar a ‘normalidade’ do referendo constitucional em que o presidente Hugo Chávez foi derrotado, anteontem, na Venezuela. O resultado não foi uma surpresa no Brasil.


Em frases sucintas, o ministro Celso Amorim (Relações Exteriores) e o assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia, destacaram a tranqüilidade com que tanto Chávez quanto o próprio país acataram o resultado.


‘Senti que tudo transcorreu normalmente. O resultado foi divulgado pacificamente e aceito pelo presidente Chávez de maneira elegante. Acho que é bom para a democracia’, disse Amorim. O chanceler afirmou também esperar que o resultado do referendo facilite a aprovação pelo Congresso Nacional brasileiro da adesão da Venezuela ao Mercosul.


Mas ainda é forte a resistência de senadores da oposição ao ingresso do país no bloco, assunto que precisa ser apreciado pelo plenário da Câmara.


A derrota chavista chegou a ser comemorada pelo senador José Sarney (PMDB-AP), em discurso da tribuna da Casa.


Para o líder do DEM, José Agripino, ‘o referendo não tem influência’ na votação da adesão ao bloco. O senador Aloizio Mercadante (PT-SP) preferiu dissociar o resultado da votação da futura discussão sobre o ingresso da Venezuela no Mercosul. Mas reconheceu ‘que a derrota é um sinal de um bom nível de democracia’ no país.


Normal


Numa conversa rápida, Marco Aurélio Garcia usou três vezes a palavra ‘normal’ para definir o resultado do referendo e a reação de Chávez.


‘Ocorreu tudo de uma forma muito normal. E era isso mesmo que se esperava -que quem perdesse acatasse o resultado, como fez o presidente Chávez’, disse Garcia, que estava em Santiago, no Chile.


‘Certamente, ele [Chávez] fará um balanço, uma reflexão, pois tem ainda cinco anos de mandato pela frente’, acrescentou Garcia, avaliando que o referendo venezuelano não terá nenhuma implicação nos países vizinhos, como a Bolívia, onde governo e oposição se digladiam em torno da elaboração de uma nova Carta. ‘São realidades muito distintas.’’


 


SUDÃO
Folha de S. Paulo


Professora é indultada e deixa o Sudão


‘DA REDAÇÃO O governo do Sudão indultou ontem a professora britânica Gillian Gibbons, 54, condenada na semana passada a 15 dias de prisão por suposta ofensa ao islamismo. Ela já deixou o país na madrugada de hoje, em vôo para Londres.


Gibbons, que desde agosto lecionava numa das mais exclusivas escolas particulares locais, permitiu que seus alunos de sete anos batizassem de Maomé -prenome do profeta do islã- um urso de pelúcia. Denunciada, foi presa no dia 25 e condenada com base na lei islâmica.


Ela estava sujeita a uma pena de até seis meses e mais 40 chibatadas.


Para indultá-la, Londres mobilizou dois parlamentares muçulmanos, o barão Nazir Ahmed, trabalhista, e a baronesa Sayida Hussain Warsi, do Partido Conservador.’


 


TV DIGITAL
Elvira Lobato


Lula anunciou como novo crédito antigo à TV digital


‘A linha de crédito de R$ 1 bilhão do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para baratear o conversor da TV digital, anunciada anteontem pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em rede nacional de televisão, não tem recurso novo.


Durante a inauguração da TV, Lula disse ter determinado ao BNDES que desenvolva um programa de incentivo à implantação da TV digital. ‘No valor de R$ 1 bilhão, ele irá dar apoio à rede varejista para baratear a venda do conversor que permite a recepção do sinal digital pelos atuais televisores analógicos.’ A linha de crédito foi incluída na verba de um programa aprovado em fevereiro.


O discurso do presidente desencadeou informações desencontradas. No domingo à noite, a assessoria do BNDES confirmou a declaração de que estaria sendo criada uma nova linha de R$ 1 bilhão, além do R$ 1 bilhão aprovado em fevereiro, na criação do programa ProTVD.


O Planalto não quis comentar oficialmente a confusão. Nos bastidores, sustentou que a abertura de linha de crédito de R$ 1 bilhão voltado à rede varejista é uma novidade.


A explicação ouvida pela Folha foi a de que Lula determinou recentemente ao BNDES a abertura de linha crédito ao varejista e que o banco a aprovou no dia 27. O ProTVD foi anunciado pelo próprio Lula, em fevereiro, com previsão de três aplicações: financiamento às emissoras de TV para a compra de equipamentos de transmissão; às indústrias para fabricação de transmissores e à produção de programação nacional.


Ontem, o BNDES disse que os recursos anunciados pelo presidente são os mesmos do ProTVD, que estão sendo alocados para financiar o comércio varejista na venda dos conversores, necessários para que as TVs analógicas captem a programação digital.


Segundo o diretor de Planejamento do BNDES, João Carlos Ferraz, não houve demanda para as finalidades previstas na criação do ProTVD e, por isso, será possível alocar os recursos para financiar o varejo.


Segundo o banco, de fevereiro até agora, foram aplicados só R$ 9 milhões dos recursos previstos no ProTVD. Só um projeto foi aprovado: do SBT, para 197 retransmissores. Ironicamente, para a melhoria da rede analógica da rede. As TVs queixam-se de que os critérios do BNDES são rígidos demais.


O governo se assustou com o preço de lançamento dos conversores, entre R$ 499 (imagem padrão) e R$ 1.100 (alta definição). Críticos dizem que a escolha do padrão japonês de TV digital encarece os produtos por falta de escala e por sua sofisticação.


O ministro Hélio Costa havia prometido preço de R$ 250 e na semana passada pediu que os consumidores não comprassem o produto ainda.


Para Ferraz, diretor do BNDES, nem o banco nem Lula errou no anúncio do financiamento ao varejo, porque a cifra de R$ 1 bilhão é uma previsão orçamentária, que pode ser ampliada, se houver demanda.


Segundo ele, a alocação de recursos para o financiamento à rede varejista não exclui as outras aplicações previstas no programa ProTVD. ‘É uma política para estruturar esse segmento por meio do puxão da demanda. Na medida em que o consumo aumenta, a indústria tem mais escala de produção, e os preços cairão.’


O financiamento será dado à rede varejista, que financiará o comprador, e seguirá o modelo já consagrado do Computador Popular. Nos empréstimos concedidos diretamente pelo banco, o custo do dinheiro será a TJLP (taxa de juros de longo prazo, atualmente de 6,25% ao ano) mais a remuneração básica do BNDES, de 4,5% ao ano.


Se o lojista tomar o dinheiro nos bancos credenciados pelo BNDES, a remuneração do agente financeiro será de 2,5% ao ano. Para estimular corte nos preços, o BNDES se compromete a reduzir sua taxa de remuneração para 1% ao ano se o lojista cobrar juro de até 2% ao ano do consumidor final.


O banco informou que TVs com conversores embutidos não serão financiadas com recursos públicos, só as caixas conversoras. Na visão do BNDES, as caixinhas é que vão viabilizar o acesso das camadas mais pobres à TV aberta digital.’


 


Paulo Peixoto


Alencar sugere adiar compra para preço cair


‘O vice-presidente José Alencar defendeu ontem, em Belo Horizonte, que a população não compre agora o conversor da TV digital, para provocar a queda do preço do aparelho -necessário para acessar o novo tipo de transmissão, inaugurado na noite de anteontem em São Paulo.


‘Penso que é uma forma de fazer com que o preço caia. Porque existe a lei da oferta e da procura. Se cai a demanda, o preço cai para que a demanda se ajuste.’


Ele havia sido questionado sobre a declaração do ministro das Comunicações, Hélio Costa, que pediu à população para não comprar os conversores imediatamente, por acreditar na queda do preço.


Costa, que classifica como ‘disparate’ o preço de até R$ 1.100 de um conversor -ele vinha dizendo que o produto chegaria ao mercado na faixa de R$ 200 (o mais barato custa cerca de R$ 500)-, criticou os ‘grandes empresários’ pelo preço do conversor, dizendo que eles querem cobrar caro para não perder na venda de televisores.


Alencar concordou com Costa. ‘Isso não pode. É preciso que haja realmente uma compreensão de que todo o Brasil precisa da TV digital, deseja que ela chegue, porém tem que pagar o preço justo.’’


 


Economistas criticam ‘subsídio’ para consumo, e indústria pede desoneração


‘Economistas criticaram ontem a proposta de abrir uma linha de financiamento com dinheiro do BNDES para baratear os conversores de TV digital, como anunciou no domingo o presidente Lula. A proposta foi entendida como a ‘correção de uma distorção’ no preço dos aparelhos, que deveriam sair por cerca de R$ 200, mas que na estréia das transmissões chegam a até R$ 1.100.


Para o vice-presidente da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças), Miguel Oliveira, não há garantia de que os recursos do BNDES consigam reduzir o preço ao consumidor. ‘Nada garante que vá chegar ao consumidor final. A não ser que vincule os recursos a compromisso formal de oferecer a custo mais baixo. Mas isso é difícil amarrar [no contrato].’


Para Oliveira, se o objetivo é diminuir o custo, o mais indicado seria criar competição. ‘Vale mais incentivar a competição, fazer com que mais ‘players’ entrem.’


Para Edgard Pereira, economista do Iedi, os recursos do BNDES só serão bem aplicados se o governo fizer com que subsidiem a cadeia de produção da TV digital como um todo. ‘Você financia a aquisição e faz com que aumente a produção no Brasil. O cuidado que se deve ter é que seja um benefício para a produção, não para o consumo. É um setor estratégico, que vale a pena ter como parte da política industrial. Há toda uma disputa no mundo sobre a localização da produção desses produtos. Ele dissipa benefícios para economia como um todo.’


Segundo Roberto Barbieri, diretor da Semp Toshiba, a desoneração sobre a fabricação de conversores seria uma medida mais efetiva para reduzir preços. ‘Sobre isso, ele [o presidente Lula] não falou nada. Essa seria a medida que reduziria imediatamente o preço.’


De acordo com os fabricantes, o aumento da escala e a redução no preços dos insumos também devem contribuir para a diminuição dos preços.


Sem saber as condições de financiamento, as redes varejistas Casas Bahia, Magazine Luiza, Ponto Frio, Lojas Americanas e Carrefour preferiram não comentar o assunto. O Wal-Mart se limitou a dizer que as vendas ficaram além da expectativa nos primeiros dias, mas não divulgou números.


Avelino Nogueira, gerente da área de Informática do Extra, disse que o programa Computador para Todos do BNDES -que pode servir de parâmetro para financiar o conversor- mais desoneração e o câmbio ajudaram a alavancar as vendas de computadores em 400% em 2006. A Caixa Econômica Federal, que financiará a compra de conversores, não informou data de início nem taxas.’


 


CORINTHIANS
Rodrigo Mattos


Time negocia agora duas cotas de TV


‘Rebaixado, o Corinthians será o único clube que negociará os direitos de TV das Séries A e B do Brasileiro. As primeiras atitudes após a queda mostram que a diretoria corintiana não será tão independente quanto diz o presidente Andrés Sanches. Sobre a Série B, há um contrato em vigor com a Globo por direitos até 2009. São pagos R$ 30 milhões/ano. Sozinho, o Corinthians ganha R$ 22 milhões na Série A.


Ou seja, tem de haver uma renegociação com a presença do clube paulista. A Globo pretende usar horários especiais para o time. E a Record já mostrou interesse de ter os jogos corintianos na Segundona. A intenção da emissora é procurar o Corinthians e representantes da Futebol Brasil Associados, que negocia os direitos da Série B. Quer saber quais as condições do contrato. Neste caso, o Corinthians pode ter conversa individual.


Para a Record, porém, os jogos na Série B não valem como na primeira divisão. Em relação à Série A, o Corinthians se manterá na comissão de TV para negociação do contrato para 2009. Apesar da revolta de Andrés com o Clube dos 13, o Corinthians confirmou presença no grupo. O time paulista ficará com metade da cota de TV, cerca de R$ 11 milhões.


Neste cenário, o presidente do C13, Fábio Koff, ligou para Andrés para lamentar a queda da equipe alvinegra. Já o presidente do Flamengo, Márcio Braga, da oposição na entidade, lançou nota de apoio ao Corinthians. Quer se aproximar para que o cartola corintiano reforce sua posição nas negociações, contra Koff. Andrés ligou e agradeceu o rubro-negro.


Colaborou EDUARDO ARRUDA, da Reportagem Local’


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Globo fatura R$ 16 mi na estréia da HDTV


‘Apesar de a TV digital ainda se limitar a poucos usuários na Grande São Paulo, a Globo já está tirando proveito comercial da nova tecnologia. A emissora vendeu por R$ 16 milhões um pacote de inserções comerciais em alta definição (HDTV).


O primeiro bloco desses comerciais foi ao ar no ‘Fantástico’, logo após a estréia oficial das transmissões digitais. As exibições prosseguem nesta semana nos programas em HDTV _’Duas Caras’ e ‘Sessão Especial’ (amanhã).


Com a alta definição, programas e publicidade têm uma qualidade de imagem seis vezes melhor do que na TV analógica.


Entre os comerciais em alta definição, estão o do Bradesco com imagens da série ‘Planeta Terra’, narrado por Wagner Moura.


Foram vendidas oito cotas, a R$ 2 milhões cada uma, para sete anunciantes. Além de Bradesco, compraram cotas Itaú, Natura, Vale (duas), CEF, Telefônica e Ambev. Cada cota dá direito a sete inserções.


A Globo cobrou o mesmo preço da tabela para anúncios analógicos. Mas, assim que o número de usuários de TV digital crescer, a emissora pretende cobrar mais pela HDTV.


A transmissão, de qualidade sofrível, da cerimônia de inauguração da TV digital também foi boa para a Globo. A rede foi a única que registrou mais audiência com os discursos do presidente Lula e de Dilma Rousseff e Hélio Costa do que no mesmo horário (20h30/ 20h46) do domingo anterior.


Na média, porém, as redes que transmitiram a cerimônia perderam ibope. Anteontem, elas somaram 51,5 pontos, contra 55,6 no domingo anterior.


TIMÃO Diretor-geral da Globo, Octavio Florisbal afirma que a emissora, ‘certamente’, transmitirá os jogos do Corinthians na Série B de 2008 para o Estado de São Paulo. A rede exibirá dois jogos diferentes aos sábados à tarde. Com o Corinthians, ainda negociará ‘detalhes’.


AGONIA Grêmio x Corinthians rendeu 31 pontos à Globo e 7 à Band. Foi a maior audiência da Band no Brasileiro. Na Globo, foi a segunda, mas turbinou outros programas _o ‘Domingão’ voltou a dar 20 pontos e o ‘Fantástico’ cravou 25.


XOXA O ‘Conexão Xuxa’, que lembra um pouco ‘Corrida Milionária’, estreou com 10,4 pontos. Durante três minutos, perdeu para ‘Picapau’ (Record).


CIDADE ALERTA ‘Balanço Geral’, que a Record estreou ontem em São Paulo, mistura ‘Cidade Alerta’ com ‘SP TV’. Tem até um ‘repórter baiano’, genérico do global Márcio Canuto.


CUSTO A festa de lançamento da TV digital custou R$ 1 milhão às emissoras. Cada uma pagou o equivalente a sua participação no Ibope. Mas quem mandou no evento foi o governo federal.


IRONIA Em seu blog, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, ironizou a TV digital. Escreveu que a alta definição serve para que ‘a careca do [Ricardo] Boechat’ fique ‘mais brilhante’, para melhorar a imagem dos bispos e panelas da Gazeta e para que as ‘as fofocas da Rede TV!’ fiquem ‘bem definidas’.’


 


Cláudia Collucci


Programa mapeia avanço da Aids


‘No início dos anos 80, receber o diagnóstico de Aids era quase uma sentença de morte.


Os médicos se diziam impotentes diante da doença que destruía o sistema imunológico.


Tida no início como ‘câncer dos gays’, também arruinava as vítimas pelo estigma.


O cenário desolador é recriado no primeiro episódio de um documentário inédito que o GNT exibe entre hoje e sexta.


‘A Era da Aids’ traz um impressionante histórico da doença, desde seu surgimento até a situação atual no mundo.


Há 26 anos, foram diagnosticados os primeiros casos, nos EUA. Hoje, 33 milhões de pessoas estão infectadas pelo vírus HIV e outras 2,5 milhões contraem a doença por ano.


Dividido em quatro partes, o documentário foi filmado em 19 países e traz entrevistas com especialistas no tema.


O primeiro episódio mostra a propagação da Aids no mundo, desde os primeiros casos até as pesquisas que levaram à descoberta do vírus, em 1984. O preconceito também é abordado.


A segunda parte explica como o HIV se espalhou tão rapidamente. Na seqüência, o programa mostra como surgiram os primeiros tratamentos e, por fim, traz um panorama atual da doença e conclui que ela ainda matará muita gente por pelo menos mais uma geração. Triste, mas imperdível.


A ERA DA AIDS


Quando: de hoje a sexta, às 23h30


Onde: GNT’


 


LITERATURA
Bernardo Carvalho


Exilado na própria língua


‘‘ENSAIOS de Literatura Ocidental’ (Duas Cidades/Editora 34), de Erich Auerbach, termina com uma citação sensacional: ‘Delicado é aquele para quem a pátria é doce. Bravo, aquele para quem a pátria é tudo. Mas perfeito é aquele para quem o mundo inteiro é exílio…’ (Hugo de São Vítor, ‘Didascalicon, III, 20’).


Auerbach estava falando, em 1952, da possibilidade de uma compreensão sintética de todo o universo da literatura mundial, a partir de um ponto de vista humanista, para além dos limites nacionais, mas podia estar se referindo também à própria produção literária. São extraordinários os escritores que vivem o mundo como exílio, a começar pela própria pátria -e grandes exemplos não faltam ao século 20: Kafka, Beckett, Bernhard etc.


O número 1 da revista ‘Granta’ (ed. Alfaguara), em português, dedicado aos ‘melhores jovens escritores norte-americanos’, revela a tendência oposta. Os jovens escritores americanos, sem desmerecer o talento de cada um, podem ter o mundo inteiro nas veias (em conjunto, representam o propalado ‘melting pot’: são brancos, negros, judeus, latinos, asiáticos, descendentes de russos, de africanos, de latino-americanos, de tailandeses, de indianos e de chineses) mas escrevem todos na língua da nação hegemônica.


É essa a principal armadilha do multiculturalismo anglo-saxão: o mundo (as outras línguas e a respectiva diversidade cultural e literária) deixa de existir fora das fronteiras da pátria, já que o estrangeiro é incorporado à língua hegemônica (e ao mercado que ela representa) como sotaque, como cor local e exotismo, enriquecendo-a na superfície, ao mesmo tempo que dispensa tudo o que lhe for exterior. Assim, a pátria não pode ser exílio; ela é sempre lar. A qualidade, quando é interior, passa a ser norma; e, quando é exterior, passa a ser exceção.


Não é por acaso que as traduções de ficção estrangeira nos Estados Unidos representem uma fatia tão insignificante do mercado. No multiculturalismo, há limites para a diferença, a começar pela língua. E, no caso da literatura, essa é uma diferença fundamental.


Há dez anos, durante uma série de leituras promovida em conjunto por uma das oficinas literárias mais prestigiosas dos Estados Unidos (da qual então participava uma das escritoras agora selecionadas pela ‘Granta’) e pelo programa de residência de escritores estrangeiros na mesma universidade (do qual eu participava), jovens americanos, alunos da concorrida oficina literária, rolavam de rir diante de uma jovem africana que lia constrangida um conto (folclórico e sofrível, segundo os padrões literários ocidentais) com um sotaque carregado. A perversão, no caso, era que a presença da jovem africana naquele fórum correspondia perfeitamente à imagem que o multiculturalismo paternalista faz de uma jovem escritora da África negra (seria muito diferente se ela fosse americana, descendente de africanos nos EUA).


O que a hegemonia do mercado literário anglo-saxão não pode conceber, até por razões protecionistas e de imposição de um modelo de excelência mundial, é que outras línguas criem parâmetros literários diferentes e até contraditórios em relação ao consenso americano ou inglês. E que esses outros modelos não se reduzam ao relato singelo de realidades exóticas.


Há alguns meses, um escritor inglês me perguntou se eu achava Borges realmente importante (dando a entender que o argentino não se sustentaria em pé segundo os critérios do romance realista, à moda inglesa, com personagens psicologicamente verossímeis e bem construídos, como ele próprio praticava). Com a transformação do livro em produto de massa e o advento de grandes corporações editoriais a partir dos anos 80, a literatura passou a ser tratada também como ferramenta de conquista e dominação cultural, de par com o cinema. Como arte é subjetividade, o mercado precisa estabelecer um princípio objetivo que justifique a naturalidade da sua política cultural. E esse princípio só pode ser o da maior facilidade (romances realistas ou baseados em histórias reais, com personagens psicologicamente verossímeis e bem construídos). Qualquer desvio passa a ser qualificado pejorativamente de ‘experimental’ ou ‘cerebral’.


Os melhores jovens escritores americanos ou ingleses podem ser ‘delicados’ ou ‘bravos’ mas, a julgar pela máxima de Hugo de São Vítor, não serão ‘perfeitos’ (ou completos) enquanto não relativizarem o seu lugar no mundo e se sentirem exilados também em sua própria língua.’


 


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O Estado de S. Paulo


Terça-feira, 4 de dezembro de 2007


CONCESSÃO
Gerusa Marques


Brecha para político possuir emissoras pode ser fechada


‘Numa ação sincronizada com o julgamento do presidente licenciado do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), deputados da Comissão de Ciência e Tecnologia apresentam hoje proposta de emenda constitucional para deixar clara a proibição de políticos serem donos de emissoras de rádio e TV. A proposta foi formulada por uma subcomissão criada para elaborar sugestões de novas regras para a concessão de outorgas.


A presidente da subcomissão, deputada Luiza Erundina (PSB-SP), disse que é necessário modificar o artigo 54 da Constituição para eliminar ‘brechas’ que permitam a políticos serem donos de emissoras. ‘Como esse artigo não foi regulamentado, os detentores de cargos públicos conseguem burlar a Constituição’, afirmou a deputada.’


 


VENEZUELA
Lourival Sant´Anna


Vitoriosos, antichavistas buscam união


‘Caracas – Depois da dramática vitória no referendo sobre a reforma constitucional, a oposição venezuelana exortou ontem o país à reconciliação e ao diálogo. Os principais líderes da campanha pelo ‘não’ à reforma, que venceu por estreita margem, fizeram apelos ao presidente Hugo Chávez para que abandone o método do ‘conflito’ e da ‘exclusão’ dos setores que ele qualifica como ‘oligárquicos’. Tradicionalmente fragmentada, a oposição discutia ontem formas de manter a sua união, que possibilitou a vitória no referendo.


Segundo boletim divulgado de madrugada pelo Conselho Nacional Eleitoral, quando 88% dos votos haviam sido contados – e a tendência da apuração foi considerada irreversível – tanto o bloco A da reforma, proposto pelo presidente Chávez, quanto o B, apresentado pela Assembléia Nacional por ele dominada, foram rejeitados, ainda que por estreita margem. No bloco A, o ‘não’ obteve 50,7% dos votos e o ‘sim’, 49,29%. Já no bloco B, o ‘não’ venceu por 51,05% a 48,94%. A abstenção foi de 44,11%. Reeleito com mais de 7 milhões de votos na eleição presidencial de dezembro do ano passado, Chávez perdeu cerca de 3 milhões de votos nesse referendo, depois de ter dito, durante a campanha, que o voto no ‘sim’ seria um voto nele e no ‘não’, em George W. Bush.


Fortalecidos pelo triunfo, em grande medida possibilitado pela sua mobilização, os líderes estudantis procuravam ontem assegurar o seu espaço político no novo cenário. ‘Nossa intenção é substituir as lideranças políticas da Venezuela’, disse ao Estado Juan Carlos Valencia, dirigente estudantil no Estado de Táchira, onde esse movimento teve início, numa disputa com militantes chavistas, em meados do ano passado. ‘Foi graças à liderança do movimento estudantil que se deu essa vitória de ontem (domingo).’ Segundo Valencia, se os partidos não ‘abrirem espaço’ para esses novos líderes, ou se não se mantiverem unidos, os dirigentes estudantis cogitam de criar um partido próprio.


‘Não se trata de atropelar ninguém, mas de que possamos conviver todos’, explicou Stalin González, líder estudantil da Universidade Central da Venezuela (UCV). ‘Quero fazer o mesmo chamado do presidente Chávez: sentarmos. Juntos, podemos construir uma Venezuela distinta, e todos em uma mesa podemos fazer esse país avançar’, disse González, referindo-se ao tom conciliatório adotado por Chávez no pronunciamento da madrugada de ontem, quando reconheceu a derrota.


‘O resultado do referendo mostrou que é possível conseguir as coisas pela via eleitoral’, disse Luis Ignacio Planas, secretário-geral da Copei, o partido que se revezou no poder durante quatro décadas com a Ação Democrática, até que ambos foram alijados pela ascensão de Chávez, eleito pela primeira vez em 1998. Planas elogiou a ‘galhardia’ do presidente em reconhecer a derrota. ‘Esse deve ser um momento de reflexão para ele. O país não pode seguir em confronto’, disse o dirigente social-cristão. ‘A primeira coisa que ele deve fazer é convocar as outras forças políticas a um diálogo, para que possamos nos reencontrar, nos reconciliar.’


‘A vitória é um estímulo para a oposição traçar estratégias comuns’, disse ao Estado Margarita López, do Centro de Pesquisas e Estudos do Desenvolvimento, da UCV. Ela considera, no entanto, que o resultado do referendo foi mais uma derrota de Chávez do que uma vitória da oposição. ‘O referendo mostrou que há uma parte importante do chavismo que é politizada e não está disposta a dar-lhe um cheque em branco.’ Na opinião da pesquisadora, os dois fatores que pesaram mais na rejeição por parte dos chavistas foram a insistência na reeleição indefinida e a percepção de que, para reformar a Constituição, seria necessária uma nova Assembléia Constituinte.


Os analistas apontam também a crise de desabastecimento de produtos como leite, açúcar e ovos, a não renovação da licença do canal RCTV, a atuação dos estudantes e a ruptura do general Raúl Baduel, ex-ministro da Defesa.


A proposta possibilitava ao presidente, além de reeleger-se indefinidamente, criar, por decreto, cidades e províncias federais administradas por pessoas nomeadas por ele; vinculava as Forças Armadas à ideologia do ‘socialismo bolivariano’ e dava-lhes poder de polícia; introduzia formas de propriedade ‘comunais’, ‘sociais’ e ‘coletivas’; e institucionalizava conselhos comunais, instâncias paralelas de representação patrocinadas pelo governo central, entre outras mudanças radicais.’


 


Chávez leva sete horas para admitir a derrota


‘Caracas – Desde as 18 horas de domingo, o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) sabia que a oposição havia vencido o referendo sobre a reforma constitucional. Controlado por chavistas, o órgão, que havia prometido divulgar o primeiro boletim por volta de 19 horas, deixou o país em suspense até a 1h15 (3h15 em Brasília) da madrugada de ontem, quando finalmente anunciou a vitória do ‘não’. Imediatamente depois, em cadeia nacional de televisão, o presidente Hugo Chávez reconheceu a primeira derrota desde a sua primeira eleição, em 1998.


‘Tentaram atrasar a divulgação, na esperança de que os números mudassem’, disse ao Estado o observador internacional português José Albino Silva Peneda, deputado do Parlamento Europeu. ‘Há quem diga que estavam convencendo Chávez a aceitar a derrota’, continuou Peneda, que chefiou a missão de observadores internacionais na tumultuada eleição parlamentar de 2005. ‘Mas a pressão para divulgar o resultado estava muito forte. Os partidos de oposição tinham os números.’


A demora do CNE em divulgar o boletim causou enorme tensão. Nas portas do CNE, dirigentes oposicionistas exigiam uma satisfação. ‘Bravo povo da Venezuela, não durma’, exortou Antonio Ledezma, do Comando Nacional de Resistência, que liderou a campanha contra a reforma. ‘A madrugada é perigosa.’


O gráfico da contagem, obtido pelo Estado, mostra que em nenhum momento o ‘sim’ ficou acima do ‘não’, ao contrário das pesquisas de boca-de-urna realizadas pelos três principais institutos do país, que previam a aprovação da reforma por uma margem de 6 a 8 pontos porcentuais. E ao contrário, também, do que deu a entender o vice-presidente Jorge Rodríguez, que comandou a campanha em favor da reforma e afirmou, no fim da noite, que ‘a disputa estava apertada’, sugerindo que o ‘sim’ e o ‘não’ oscilavam de posição na contagem. Não oscilavam.


No início da contagem, o ‘não’ vencia por margem expressiva, de mais de 8 pontos porcentuais. No horário em que o CNE tinha se comprometido a divulgar o primeiro boletim, essa margem tinha caído para 4 pontos, mas seguia consistente (ver gráfico).


Ao reconhecer a derrota, Chávez deixou claro que tinha acompanhado passo a passo a contagem do CNE, dirigido por cinco ‘reitores’, dos quais quatro são vinculados ao governo.


‘A situação veio se complicando, por distintas razões, durante a tarde, com diferenças microscópicas, mas sempre com o ?não? por cima’, reconheceu o presidente, num pronunciamento excepcionalmente sóbrio, no Palácio Miraflores, à 1h30 (3h30 em Brasília) de ontem. ‘O dilema em que me debatia, se não era irreversível, vamos submeter o país, a Venezuela não merece uma tensão como essa’, balbuciou Chávez sem fazer sentido, aparentemente ainda um pouco perturbado.


Recuperando o seu estilo ferino, o presidente encontrou ânimo para esnobar: ‘Essa vitória ?pírrica? (de alto preço) eu não teria querido.’ E para fazer uma recomendação à oposição: ‘Saibam administrar essa vitória.’


Na platéia encontravam-se seus principais ministros e assessores, vários deles com os olhos vermelhos. Também estavam a senadora colombiana Piedad Córdoba, devidamente vestida de vermelho, a cor oficial dos chavistas, e a mãe e a irmã da ex-candidata a presidente da Colômbia Ingrid Betancourt, refém do grupo guerrilheiro Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). ‘Sigo às ordens’, disse ele às três mulheres, referindo-se a seu papel de mediador, do qual foi excluído pelo presidente colombiano, Álvaro Uribe.’


 


SUDÃO
O Estado de S. Paulo


Presidente indulta professora britânica


‘Após oito dias na prisão, a professora britânica Gillian Gibbons (foto), presa no Sudão por blasfêmia, foi perdoada pelo presidente Omar al-Bashir, deixou o país e seguiu para a Grã-Bretanha. Ela foi condenada a 15 dias de prisão por permitir que seus alunos dessem o nome de Maomé a um urso de pelúcia – o que foi visto como um insulto ao profeta.’


 


TV DIGITAL
Renato Cruz e Ana Paula Lacerda


Consumidor mostra cautela com TV digital


‘Com dúvidas e ainda poucas alternativas de produtos, os consumidores começam a levar para a casa a TV digital. ‘As vendas estão dentro do esperado’, disse Benjamin Dubost, diretor-comercial da Fnac Brasil. ‘Poucos clientes têm comprado pela internet. Eles preferem vir à loja para tirar as dúvidas pessoalmente, ver quais são os conectores que o aparelho usa.’


Veja o que muda para o consumidor


Os conversores, ou set-top boxes, da Philips chegaram no fim da tarde da quinta-feira às lojas da Fnac e acabaram em pouco mais de 24 horas. A rede varejista também recebeu dois modelos da Semp Toshiba, que não se esgotaram, apesar de um deles ser mais barato que o da Philips. Nos próximos dias, a Fnac espera a chegada de novos modelos de conversores e de televisores com o receptor integrado.


‘Não deve haver um grande crescimento das vendas de conversores’, disse Dubost. ‘A maioria dos clientes está interessado nos televisores integrados.’ A rede Extra informou que suas vendas de conversores ficaram acima do esperado no fim de semana. Mas não quis revelar os números.


A TV digital promete grandes novidades, como alta definição (imagem com qualidade seis vezes maior), interatividade (serviços parecidos com os da internet) e mobilidade (recepção no celular). Mas o principal atrativo da nova tecnologia talvez seja a recepção do sinal com qualidade.


É o que atraiu a aposentada Edivalda de Oliveira. Ela está entusiasmada com seu conversor de TV digital, que já pensava em adquirir há um mês. ‘Moro perto da avenida Paulista. A imagem é péssima, porque a TV pega interferência de todas as antenas ao redor’, disse.


Na sexta-feira, quando os produtos estavam chegando às lojas, ela adquiriu um conversor da Semp Toshiba. Durante o fim de semana, instalou e testou o produto. ‘Fez muita diferença, principalmente na imagem. O filme de domingo à noite, comparado ao que era antes, foi quase um cinema!’


Ela avaliou a possibilidade de assinar TV por assinatura, mas achou que esperar pela chegada dos conversores seria uma opção melhor. Também não se interessou pelos televisores com receptor embutido – o preço era alto demais para o que ela estava disposta a pagar. ‘Não vejo muitos canais, e com o conversor estou preparada para as mudanças futuras.’


Com a TV digital, não existe imagem ruim. Ou a televisão pega bem ou fica com uma tela preta. Um estudo do professor Gunnar Bedicks Jr., do Mackenzie, mostrou que 56% das residências na cidade de São Paulo recebem imagem ruim.


No domingo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou R$ 1 bilhão para financiar conversores (ver ao lado). A expectativa do mercado era de que ele divulgasse incentivos tributários, como foi feito para os computadores. O ministro das Comunicações, Hélio Costa, tem criticado a indústria porque o conversor custa mais de R$ 200. O modelo mais barato, da Positivo Informática, sai por R$ 500, sem saída digital.


‘Não existe milagre’, afirmou Ivair Rodrigues, diretor de Estudos de Mercado da consultoria IT Data. ‘Mesmo se o governo zerasse todos os impostos, seria difícil chegar a R$ 200.’ Ele estima que, até o fim do ano que vem, o preço do conversor com saída digital pode ficar entre R$ 400 e R$ 500. A opção mais barata hoje, também da Positivo, custa R$ 700. A IT Data projeta a venda de 500 mil set-top boxes em 2008. ‘Ainda será um produto de elite.’


O QUE FAZER


TV paga: Quem tem televisão por assinatura pode pagar por decodificador com alta definição para receber os programas com qualidade superior que estão sendo oferecidos pela TV aberta. O assinante do cabo não precisa de uma antena de UHF. A Net lançou o serviço em alta definição esta semana e a TVA planeja lançá-lo no começo do próximo ano. A previsão da Sky é lançar o serviço até o começo do próximo ano


TV de tubo: Quem tem um televisor analógico não consegue ver imagens em alta definição. O conversor de TV digital, também chamado de set-top box, pode melhorar a imagem, caso o espectador tenha problemas com a recepção do sinal em sua casa. O equipamento recebe o sinal digital e o converte para o sistema analógico, reduzindo a qualidade da imagem. É preciso ter uma antena UHF para que o sinal seja recebido


Plasma ou LCD: Quem tem um aparelho de plasma ou tela de cristal líquido (LCD) precisa de um conversor com saída de alta definição e de uma antena UHF para receber o sinal. Se a sua empresa de TV paga ainda não oferece alta definição, é possível ligar o conversor de TV aberta e o decodificador de televisão por assinatura, ao mesmo tempo, no aparelho


Receptor integrado: Começam a chegar ao mercado televisores de LCD com receptores integrados de TV digital. Eles não precisam de conversores. Para assistir a televisão digital, a única coisa necessária é uma antena de UHF.’


 


Nilson Brandão Junior


‘Novo’ pacote para a TV digital usará linha antiga do BNDES


‘O financiamento do BNDES para compra de conversores da TV digital, anunciada neste fim de semana pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como um aporte de R$ 1 bilhão para o setor é, na verdade, apenas uma modificação no programa, lançado em fevereiro deste ano pelo banco, exatamente com esse valor. O que irá ocorrer agora será a inclusão das redes de lojas no Programa de Apoio à Implementação do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre (Protvd), inicialmente destinado apenas aos fabricantes de equipamentos, emissoras e produtores de conteúdo.


Nos dez meses de vigência, o programa quase não foi usado. O único financiamento de fato aprovado e contratado foi de R$ 9 milhões, ou seja, menos de 1% da verba colocada à disposição. Isso colaborou na decisão de criar uma nova destinação para os recursos. O prazo para o programa, assim como seu orçamento, continua o mesmo: até 2013.


A operação aprovada até o momento foi de financiamento de 86% para um investimento de R$ 10,7 milhões do SBT. Agora, o BNDES passa também a financiar a compra de conversores por parte do varejo para a revenda aos usuários da TV digital. A linha segue os moldes do que o banco já vinha fazendo no financiamento à compra de computadores. O objetivo é aumentar a escala de compras do varejo, reduzir custos do crediário ao consumidor e baratear o preço dos conversores, que saem hoje entre R$ 500,00 e R$ 1.000,00.


Um dos motivos para a baixa utilização vem do fato de que os equipamentos de transmissão necessários para esta primeira etapa de expansão do sistema de TV digital em grandes centros, são de grande porte, basicamente importados, o que não é financiado pelo banco.


CONDIÇÕES


O diretor da área de planejamento do BNDES, João Carlos Ferraz, conta que a nova linha foi aberta para que o varejo tenha mais ‘bala’ nas suas compras, consiga aumentar a escala de compras e obter, com isso, menor preço. O custo da linha para o varejo é de TJLP, hoje em 6,25% ao ano, mais remuneração de 4,5% ao ano. Caso a rede de varejo cobre taxa de juro do consumidor final de até 2% ao mês, a remuneração básica para o BNDES cai para 1%. O prazo do financiamento ao varejo é de 24 meses, com seis de carência.


Ferraz conta que uma das funções da nova linha é ‘puxar o setor pela demanda’. ‘A lógica é promover um determinado segmento não só pela oferta (financiando a produção de equipamentos e o serviço) mas também pela demanda’, explicou.


O diretor do BNDES afirmou que espera que a linha seja toda utilizada antes do prazo final previsto para 2013 e antecipou que o banco vai ampliar os recursos conforme a evolução da demanda.’


 


DOCUMENTÁRIO
Flávia Guerra


Tiro certo na indústria da corrupção


‘‘Manda Bala: Um filme que não pode ser mostrado no Brasil.’ É assim, provocador, que este documentário dirigido por Jason Kohn, um jovem norte-americano, filho de mãe brasileira e pai argentino, abre-se diante das retinas. A pergunta é óbvia: Por que não? ‘Você foi a primeira jornalista que não me perguntou isso antes de perguntar tudo sobre o filme’, disse Kohn, após mais de uma hora de conversa com o Estado, quando o filme integrou a mostra competitiva do Festival de Cinema de Roma, em outubro, durante o qual ele explicou como conseguiu montar um caleidoscópio cinematográfico e, claro, por que seu filme não pode, a priori, ser exibido no Brasil.


‘Não posso. E é mentira que não quero mostrá-lo no Brasil. Mas não posso porque um dos personagens entrevistados no filme me disse que se eu exibi-lo aí, vai me processar’, respondeu Kohn. ‘No Brasil, não há leis que protegem os documentaristas, como há as que protegem um jornalista que faz uma denúncia em um jornal. Estou tentando achar uma forma legal de isso não acontecer. Quero muito mostrar o filme para o público brasileiro.’


Motivos não faltam para muitos se irritarem com Manda Bala. Mas diga-se o que disser. O menos que se sai é indiferente após uma sessão dessas. Totalmente filmado no Brasil, com equipe brasileira, o documentário joga literalmente a sujeira, para não dizer o óbvio impronunciável, no ventilador. E essa ciranda bizarra retratada por Kohn em seu primeiro filme não poupa ninguém. A trama desse tecido esgarçado que retrata Manda Bala é intrigante: uma fazenda de rãs fantasma se entrelaça às entranhas de uma grande cidade, São Paulo, detentora da maior frota de helicópteros particulares do mundo; que se costura a uma malha social puída e corrompida pela indústria da violência, que fabrica desde seqüestradores sem o mínimo de remorso a um cirurgião plástico premiado (o brilhante Dr. Juarez Avelar) por desenvolver uma técnica de reconstrução de orelhas (as mesmas que são decepadas pelos seqüestradores e enviadas às famílias dos seqüestrados), passando por carros blindados e cursos de direção defensiva. Para arrematar, a corrupção que passa impune e rende remendos cinematográficos em casos de escândalo de desvio do dinheiro público. Sob o efeito borboleta, a teoria do caos evocada por Kohn se instala no Brasil e a impunidade impera em um País onde um programa para desenvolver uma das regiões mais ricas, e, ao mesmo tempo, mais carentes da nação resulta em um rombo astronômico nas contas públicas. Que brasileiro mais atento ao noticiário não se lembra do rombo da Sudam (Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia), em que cerca de R$ 2 bilhões foram desviados dos cofres públicos, e cujas principais suspeitas recaíram sobre o ex-senador da República Jader Barbalho, que tinha, vejam só, uma fazenda de rãs fantasma no norte do Brasil? Barbalho também possui uma estação de rádio, uma TV , a RBA, e o jornal Diário do Pará.


Nesta terra onde a cadeia alimentar é cruel, sapo come sapo. A metáfora óbvia, mas adequada, incomodou a muitos brasileiros que assistiram ao filme nos festivais internacionais pelos quais já passou. ‘Uma menina, em Sundance, ao fim da sessão, só faltou chorar. Disse que eu estava fazendo desserviço à imagem do Brasil. Me disseram também que um gringo, de um país presidido por alguém como Bush, não pode abrir a boca para falar dos problemas brasileiros’, disse Kohn. ‘Mas, primeiro, eu não vivo no Brasil, mas sempre vivi na comunidade brasileira de Nova York. Meu pai mora no Brasil ainda. Conheço São Paulo como se fosse a minha casa. Segundo que eu nem no Bush votei’, brada o jovem diretor que tinha 23 anos quando decidiu vender o carro e, com o dinheiro, filmar Manda Bala, em 2006.


Muito da gênese do projeto nasceu da indignação de seu pai. ‘Ele mora há décadas no Brasil. Foi ele quem me chamou a atenção sobre este escândalo todo da Sudam. Ele não se conforma com esta impunidade que há em um País onde também há pessoas que trabalham tão duro e são tão honestas. Foi a partir daí que comecei a pensar em filmar algo que falasse desse fenômeno da corrupção e da violência urbana. Está tudo ligado’, declara Kohn, que investiu cinco anos de sua vida, a verba do carro e adoada por amigos, equipe trabalhando a preço de custo. Valeu a pena. O filme, que tem na trilha sonora clássicos de Mutantes a Tim Maia, recebeu o Grande Prêmio do Júri por melhor documentário e melhor fotografia (para Heloísa Passos) no Festival de Sundance 2007. Em Roma, em outubro, levou o prêmio especial ‘pela forma inovadora e corajosa com que se atreve a fazer cinema’.


Há quem chame esta forma de apelação. Se apelar é mostrar cenas reais de orelhas serem decepadas diante de uma câmera caseira, de fato Kohn apela. Seria cômico se não fosse trágico. O diretor e equipe foram ao olho do furacão desta realidade que mais parece ficção. Chegaram até o reduto de Barbalho, sua rádio no Pará. ‘Ele estava dando a entrevista achando que eu fosse só um gringo que fazia um documentário sobre o Brasil e usando o filme como plataforma de campanha. Quando perguntamos sobre o ranário fantasma, saiu na hora da sala e não voltou’, conta Kohn. Já as cenas (sur)reais das mutilações foram gentilmente cedidas por Magrinho, um seqüestrador paulistano, filho de migrantes baianos, que encontrou uma brecha na imensa periferia paulistana para ‘fazer seus corres’ e garantir o leite dos dez (!) filhos que tem. Magrinho cobrou um ‘cachê’ para dar a entrevista. E diz não se lembrar da primeira vez que matou. Mas que foi um ‘gambé’. ‘Todo mundo tem lado bom e mau. Conheço o meu lado mau. Mas não posso parar. Tenho de sustentar meus filhos. Quem sabe um não vira presidente e conserta este País?’, diz ele . ‘Sou o político deles (os moradores da favela na periferia paulistana onde ele ‘se maloca’). Pego o dinheiro do seqüestro e dou gás, compro remédio, mando fazer o esgoto, o asfalto. Eles me protegem. Eu protejo eles’, diz Magrinho, que esconde o rosto, mas não disfarça a hipocrisia: ‘Quem é mais ladrão? Eu ou os políticos?’


É a lei da selva. Seja a amazônica. Seja a de pedra. Há 50 companhias de blindagem de carros em São Paulo, onde uma pessoa é seqüestrada todos os dias. A frota de helicópteros da cidade cresce a cada dia. Jader ainda tem seus negócios no Pará. Já Magrinho está morto. Foi assassinado pela polícia. E Manda Bala não tem previsão de estrear no Brasil.’


 


TELEVISÃO
Keila Jimenez


Novos VJs na MTV


‘Mudança de planos à vista na MTV. A emissora, que já está organizando sua grade de programação para 2008, está arrumando a casa. A possível contratação de Daniella Sarahyba para o comando de um programa de verão subiu no telhado. Resumindo: não deve acontecer.


A alegação da emissora é incompatibilidade de agendas, uma vez que as gravações deveriam começar este mês e Sarahyba está cheia compromissos como modelo.


A MTV ainda pode ficar sem outra Daniella, a Cicarelli. Apesar de ter duas atrações sob seu comando programadas para o próximo ano, a VJ ainda não renovou seu contrato com a casa (que vencia este mês), e anda espalhando por aí que quer novos desafios profissionais. Outro detalhe curioso é que a MTV cancelou para 2008 as duas produções atuais de Daniella: o Beija Sapo e o Batalha de Modelos.


Sem Daniellas, a MTV tratou de correr para contratar mais duas novas VJs: Kika, uma modelo que estréia já na programação de verão no comando do Arquivo Luau, programa que reúne videoclipes do Luau MTV. A outra é Marimoon, blogueira que virou sexy symbol da geração internética.’


CINEMA
Arnaldo Jabor


Câmera na mão e sofrimento na cabeça


‘Pois, bem, senhores, acho que vou filmar. Acho, não; vou. Não sei se é uma boa notícia (‘mais um abacaxi!’ – dirão meus inimigos…), mas acabei o roteiro de um filme, depois de 15 anos em jejum. Trata-se de uma estória-painel, sobre a vida de um adolescente no Rio, nos anos 50, um filme meio ‘de formação’ , ‘ein bildungfilm’, para dar impressão de erudição.


Vai ser em cores, claro, mas com alma de preto-e-branco, um filme falado, mas com hesitações de mudo, quero fazer algo que não busque conclusões muito claras. Não agüento mais o óbvio. Eu, que vivo dele, na política, no comportamento torto do País, fiquei doente no ano passado, pelo veneno que o exercício da crítica nos instila. Assim, resolvi filmar. Durante os dois ou três meses de uma filmagem, nada mais doce do que a ilusão de criar vidas, me enfiei pela avenida, pensando em formicida.


Filme terminado, corro a Brasília, para liberar o filme, em plena ditadura. O censor-chefe se chamava Romero Lago (depois, soube-se que era nome falso e que era refugiado da Justiça – pode?)


‘Merda não pode, seu Jabor, corta!’


‘Mas, doutor, vai estragar a cena…!’


‘Não. Da ‘merda’ não abro mão, tem de cortar. Aliás, filmezinho comuna disfarçado, pensa que não sei?’


No lançamento pífio do filme, vou à porta do cinema ouvir opiniões. Uns cinéfilos conversam: ‘Que merda de filme, hein? Você não acha?’ – me perguntam. ‘Tem coisas boas… O diretor é legal…’ – respondo, pálido.


Por essas e outras, tremo ao pensar que no ano que vem estarei filmando de novo. Vai se chamar A Suprema Felicidade. Espero que seja.’


 


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