Quinta-feira, 28 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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O duelo entre o Google e a Coreia

Por Eric Pfanner em 12/11/2013 na edição 772

A Coreia do Sul é um dos países mais avançados do mundo em termos de conexões digitais. Tem banda larga em toda parte e operando em velocidades de matar de inveja muitos americanos. Sua internet, porém, também leva o título de uma das mais excêntricas do planeta.

Há um toque de recolher para o uso de internet em jogos on-line, por crianças em idade escolar; os adultos que desejem jogar fora do horário permitido precisam fornecer número de documento para provar que são maiores.

Até o ano passado, quem comentasse qualquer coisa na rede tinha a obrigação judicial de fazê-lo usando seu nome real.

Uma busca simples pode ser uma experiência infrutífera na web sul-coreana, porque os operadores de muitos sites, entre os quais os de diversos ministérios do governo, bloqueiam o acesso dos serviços de busca que tentam indexar suas páginas.

Os viajantes que desejem ir de carro do aeroporto internacional de Gimpo ao bairro de Gangnam, em Seul, não podem usar o Google Maps –o sistema só oferece instruções quanto ao acesso via transporte coletivo, e não para motoristas.

A internet pesadamente regulamentada causa surpresa a muita gente, inclusive a muitos sul-coreanos, porque o país é uma forte democracia, com economia vibrante e aparentemente muito bem preparada para a era digital.

Os sul-coreanos estiveram entre os primeiros a adotar os jogos on-line e os smartphones. O país conta com gigantes da tecnologia, como a Samsung e a LG. Mas a internet por lá opera em lógica claramente diferente.

O governo do país tem suas razões, até bem intencionadas algumas vezes. O toque de recolher, por exemplo, foi adotado para resolver as preocupações com jovens viciados em videogames.

As restrições de segurança que a Coreia do Sul tem em vigor desde o final da guerra da Coreia limitam as operações do Google Maps, reclama a empresa. A justificativa é que a exportação de dados cartográficos é proibida para impedir que eles caiam em poder do vizinho, a fortemente armada Coreia do Norte.

Já a Comissão dos Padrões de Comunicações da Coreia, uma agência regulatória, bloqueia qualquer material que considere reprovável, motivada pela pornografia.

"É irônico, em um país muito elogiado por sua avançada infraestrutura digital, que haja tantas restrições", disse Kim Keechang, professor de direito na Universidade da Coreia que trabalha em um livro sobre a regulação do uso da rede naquele país.

Mudança à vista?

As companhias estrangeiras de internet, principalmente o Google, dizem que as regras coreanas as impedem de concorrer com as rivais locais.

A Coreia do Sul é um dos poucos grandes mercados nos quais o Google não é o serviço de busca dominante. A rival sul-coreana Naver tem o maior número de usuários.

Mas as críticas internas à abordagem estão crescendo. Os defensores das liberdades civis contestaram com sucesso a regra que requeria que usuários de listas de discussão fornecessem seus nomes reais, confirmados pelo sistema nacional de registro de identidade.

Um tribunal decidiu no ano passado que a norma, introduzida em 2007 para controlar o bullying depois de uma onda de suicídios, era violação de privacidade.

Agora, o governo da presidente Park Geun-hye está trabalhando para relaxar algumas das outras regras. Ela quer encorajar a criatividade no setor de tecnologia, muito bom no desenvolvimento de hardware e na exportação de software e serviços.

Mapas melhores

Em setembro, o governo prometeu aliviar as restrições que afetam os serviços de mapas, o que ajudaria empresas de fora a resolver dúvidas quanto aos nomes de lugares.

Um órgão do Ministério da Terra, Infraestrutura e Transporte anunciou que começaria disponibilizando um mapa digital em inglês. Google e afins poderiam usufruir disso a partir do ano que vem, mas as decisões serão tomadas com lupa.

Hoje, o Google adapta seus mapas em inglês para os mapas que a Coreia fornece, usando apenas dados do sistema de transporte, pois são informações públicas. Mas, para fornecer outros serviços, como instruções para motoristas, informações de tráfego e plantas de aeroportos, as informações precisariam ser processadas em servidores fora da Coreia do Sul, algo proibido hoje.

Além disso, a escala do novo mapa oficial em inglês é de 1:25.000, o que, segundo o Google, não basta para fornecer os detalhes precisos de forma suficiente para orientar pedestres e carros sobre calçadas, cruzamento de ruas e semáforos, por exemplo.

O Google sustenta que as regras são injustas, pois empresas locais, como a Naver, usam escalas mais detalhadas –o argumento para isso é que os dados são armazenados no país. Para estrangeiros, porém, a utilidade é pequena, afinal tudo está grafado em coreano.

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Eric Pfanner, do New York Times, em Seul

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