Segunda-feira, 01 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Pornografia on-line não é pornografia

Por Luli Radfahrer em 19/11/2013 na edição 773

É, com perdão do termo, uma baita sacanagem. Ela sempre esteve presente. Acredita-se que foi uma das indústrias fundamentais para estimular a criação de serviços de compartilhamento de foto e vídeo, navegação sigilosa, pagamento anônimo, aplicativos para smartphones e vídeos em primeira pessoa captados com Google Glass.

Como bem se sabe, ela nunca foi santa. Entre as acusações que sobram contra a pornografia diz-se que denigre a mulher, que cria uma distorção a respeito do que é belo (ou possível), que valoriza situações de estupro e violência e que pode levar à exploração de menores. Seus atores correm riscos de saúde e seus consumidores podem desenvolver problemas psicológicos ao confundirem ficção com realidade.

Até aí, nada de novo. A pornografia estaria restrita a um nicho editorial se não fosse popularizada pela internet. A facilidade de acesso a novas imagens facilita o consumo e cria uma audiência sem precedentes. Estima-se que o número de visitantes de sites de conteúdo adulto supere o de populares como Twitter, Netflix e Amazon… combinados.

A princípio não há nada de errado em ver algumas fotos ou vídeos picantes. O problema é determinar, no cérebro, a fronteira que separa o consumo recreativo da dependência. Sexo, como alimentação, é essencial para a preservação da espécie. Em todos os mamíferos, boa parte dos impulsos surge a partir do neurotransmissor dopamina, que ativa o circuito de recompensa.

Experiência fundamental

A dopamina adora uma novidade. Roupas, carros, gadgets, apps, cada novo produto estimula esse neurotransmissor maroto, que rapidamente se enjoa e quer algo novo.

É aí que surge o problema. Na internet, a novidade está a um clique. Ela pode estar em um novo corpo, uma cena diferente, um ato sexual bizarro e variações. Com várias abas abertas, pode-se experimentar em dez minutos um número de parceiros sexuais superior ao que nossos ancestrais conheceriam na vida.

O vício não é exclusividade masculina. Muitas mulheres, decepcionadas com as demandas ligadas ao sexo, acabam apelando para o superestímulo da pornografia e de vibradores diversos, tornando-se progressivamente insensíveis.

Em excesso, o estímulo anormal altera a plasticidade do cérebro, reduzindo o controle do impulso e várias capacidades cognitivas. Em adolescentes, pode criar estruturas de dependência que levam ao prejuízo social e até a disfunções eréteis.

Ao contrário de dependências em droga ou comida, a pornografia digital não ativa o sistema de aversão natural do cérebro. Ao contrário do vício em sexo, não há a necessidade de pessoas reais nem fadiga. Tudo o que existe é o novo estímulo, que rapidamente decresce até se habituar, sendo substituído.

A relação não é muito diferente da que se tem com cocaína. Pesquisadores identificaram várias semelhanças entre os cérebros de vítimas de vícios comportamentais (alimentação, jogo, videogames, pornografia) e farmacodependentes. A médio prazo, distorcem a ideia de prazer, acabam com a força de vontade e ativam circuitos de estresse.

Sexo é uma experiência fundamental para a saúde. Por mais que você ame –ou odeie– a si mesmo, dê uma chance aos outros. A relação pode ser imprevisível e incontrolável. E, por isso, prazerosa.

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Luli Radfahrer é colunista da Folha de S.Paulo

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