Terça-feira, 26 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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A maré de ciberceticismo

Por Paul Harris em 15/02/2011 na edição 629

O modo frenético como as pessoas se comunicam online por meio do Twitter, do Facebook e de mensagens instantâneas pode ser visto como uma forma de loucura moderna, de acordo com uma importante socióloga norte-americana. ‘Um comportamento que se tornou comum ainda é capaz de expressar os problemas que outrora nos levaram a vê-lo como patológico’, escreveu a professora do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) Sherry Turkle em seu novo livro, Alone Together (Sozinhos juntos, na tradução literal), que está liderando um ataque à era da informação.

A tese de Turkle é simples: a tecnologia está ameaçando dominar nossas vidas e nos tornar menos humanos. Sob a ilusão de permitir que nos comuniquemos melhor, ela nos isola das reais interações humanas por meio de uma realidade virtual que é uma imitação medíocre do mundo real. Mas o livro de Turkle está longe de ser o único nessa linha. A lista de ataques às mídias sociais é longa e vem de todos os cantos da academia e da cultura popular.

‘Tecnologias nos diminuíram’

Em um recente best-seller norte-americano, The Shallows (Os Superficiais, na tradução livre), Nicholas Carr sugeriu que o uso de internet estava alterando o nosso modo de pensar a ponto de nos tornar menos capazes de absorver informações mais extensas e complexas, como as de livros e artigos de revistas. O livro baseou-se em um ensaio igualmente enfático que o pesquisador escreveu na revista Atlantic que trazia o título: ‘O Google está nos deixando estúpidos?’

Outra linha de pensamento na área de ciberceticismo encontra-se em The Net Delusion (A ilusão da rede), de Evgeny Morozov. Ele defende que as mídias sociais produziram uma geração de ‘passivistas’, deixando as pessoas preguiçosas e criando nelas a ilusão de que clicar um mouse é uma forma de ativismo semelhante ao de doações em dinheiro e em tempo feitas no mundo real. Outros livros são The Dumbest Generation (A geração mais idiota, na tradução literal), de Mark Bauerlein, professor da Universidade Emory – no qual defende que ‘o futuro intelectual dos EUA parece ofuscado’ – e We Have Met The Enemy (Encontramos o inimigo), de Daniel Akst, que trata dos problemas de autocontrole no mundo moderno.

O livro de Turkle, porém, é o que tem inspirado mais polêmica. É um chamamento para deixarmos o BlackBerry fora do nosso alcance e ignorarmos o Facebook e o Twitter. ‘Nós inventamos tecnologias inspiradoras e sofisticadas, mas permitimos que elas nos diminuíssem’, diz ela em seu livro.

Em defesa das redes

Os defensores das redes sociais, por seu lado, dizem que o e-mail, o Twitter e o Facebook têm levado a mais comunicação, não a menos – especialmente entre as pessoas que poderiam ter dificuldade para se encontrar no mundo real por causa de grandes distâncias ou diferenças sociais. As redes sociais são uma área nova e ainda é necessário criar normas e regras de etiqueta que possam ser respeitadas por todos os usuários, segundo disse William Kist, especialista na área de educação da Universidade Kent State, em Ohio.

Ele também salientou que o ‘mundo real’ a que muitos críticos desfavoráveis às mídias sociais se referem nunca existiu de fato. Antes de as pessoas viajarem de ônibus ou de trem com a cabeça mergulhada em um iPad ou em um smartphone, elas normalmente viajavam em silêncio. ‘Nós não víamos as pessoas espontaneamente conversarem com estranhos. Elas simplesmente se isolavam umas das outras’, disse.

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Jornalista do Guardian

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