Segunda-feira, 06 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Caixa postal cheia (ao mesmo tempo, vazia)

Por Pedro Henrique Paiva em 11/05/2010 na edição 589

Desde o início do ano, vejo aumentar em minha caixa postal de correio eletrônico a quantidade de mensagens de cunho político.

Não gosto das mensagens apelativas, insistentes, em sua grande maioria inúteis, que recebo constantemente, inclusive de alguns de meus contatos. São os chamados spams, o que poderia ser uma espécie de acrônimo para ‘superficiais, perturbadores, alarmistas e medíocres’, mas que, na verdade, são spams mesmo e diz a lenda que a palavra surgiu em um quadro do programa humorístico do grupo inglês Monty Python – ao que tudo indica, não se trata de uma simples lenda. O quadro apresenta um restaurante onde todos os pratos contêm um ingrediente chamado spam, o qual uma das clientes não deseja consumir, mas a tarefa parece impossível. A cada pergunta sobre o cardápio, os funcionários repetem, insistentemente: spam spam spam spam

Pois bem. De volta aos spams eletrônicos, devo dizer que existem as mensagens profissionais (peças publicitárias enviadas por empresas, muitas vezes sem o consentimento do destinatário) e as sociais (mensagens diversas repassadas de caixa em caixa, num fluxo interminável e que, a cada envio, atingem mais e mais pessoas). Esta última categoria contém desde conteúdo místico, que promete trazer sorte àqueles que auxiliarem em sua divulgação e azar àqueles que atrapalharem, até mensagens de autoajuda, piadas, alertas ‘importantes’ sem os quais não conseguiríamos sobreviver, pedidos de socorro, apresentações lindinhas e otimistas, citações de Paulo Coelho, textos falsamente atribuídos a Luis Fernando Verissimo (aprecio os genuínos), textos verdadeiros do Jabor, entre tantas outras coisas indesejadas. Ainda bem que ninguém teve a desfaçatez de enviar alguma coisa escrita pelo Reinaldo Azevedo ou o Diogo Mainardi, o blogueiro e o colunista que prestam serviço à revista que tenta se passar por imparcial e indispensável. Parece que mesmo o mais chato dos remetentes de spam sabe que isso ultrapassaria todos os limites do bom senso que ele não possui.

Descontextualizações históricas

O mais misterioso a respeito dos spams é o fato de que existem pessoas que adoram recebê-los e passá-los adiante. Se assim não fosse, a quantidade de mensagens indesejadas em circulação – pelo visto, não tão indesejadas assim – seria infinitamente menor. E eis que se coloca a grande questão: como é possível que alguém aprecie esse fluxo frenético de bobagens? Não é tão difícil adivinhar que a resposta provavelmente contenha termos como ‘isolamento’, ‘comportamento antissocial’ e ‘desinformação’.

O leitor mais consciente já deve saber que a maioria dessas mensagens são mentiras deslavadas. Para quem ainda não sabe, informo que um de seus propósitos é o de coletar o maior número de endereços eletrônicos possível (aqueles que vão se acumulando no corpo da mensagem a cada reenvio) até que a correspondência digital vá parar nas mãos de um spammer, o cidadão que vai enviar mais e mais spams para esses endereços, ou de um tipo de indivíduo muito pior, que vai utilizar os endereços para enviar vírus de computador disfarçados de spams. Mas há também outros propósitos, como destruir a reputação de desafetos e de produtos da concorrência, ou simplesmente testar o poder de um novo boato, em um divertido exercício para aqueles que o criam, os quais devem se deliciar imaginando quantos navegantes incautos estarão tomando sua invenção como verdade.

No que diz respeito às mensagens sobre política mencionadas no início do texto, as coisas são piores. Em adição a tudo o que já foi citado, estas ainda possuem a desvantagem de acabar descambando para a mera propaganda partidária e ideológica, porém com uma enxurrada de descontextualizações históricas, documentos falsos, pessoas completamente inventadas, com nome, profissão e cidade, entre outros recursos capazes de levar o leitor menos informado a conclusões equivocadas.

Sete anos de azar?

Para citar um exemplo dos disparates, há uma mensagem que afirma categoricamente, sem sombra de dúvidas, que alguns programas de TV foram retirados da grade de programação da maior emissora do país pelo governo. O mesmo texto afirma que o âncora de telejornal Boris Casoy havia sido demitido, novamente a pedido do governo, devido a seus comentários ‘verdadeiros, contundentes e procedentes’ e diz ainda que a notícia a respeito da demissão fora publicada na revista Época. O insensato ou embusteiro ainda pergunta: ‘Onde está Boris Casoy?’ Bastaria sintonizar na emissora correta por volta da meia-noite para encontrar o âncora perdido. Além de mentiroso, o texto deve ter sido escrito antes de o jornalista ter revelado sua faceta preconceituosa em um de seus comentários ‘contundentes e procedentes’ a respeito da posição dos garis na escala do trabalho, sem saber que o áudio estava sendo transmitido em rede nacional.

E o que dizer de um texto cujo título sentencia: ‘Ives Gandra falou, tá falado’? Parece que ainda há muita gente em busca de guias jurídico-político-espirituais, cujas palavras sejam a resposta definitiva a todas as indagações. Anexo ao referido texto, o vídeo de uma reportagem na qual o dito cujo ataca o Programa Nacional de Direitos Humanos, utilizando argumentos que compõem uma visão bem particular, após ser apresentado pelo repórter como ‘autor de mais de trezentos livros’, em uma torta tentativa de conferir-lhe autoridade para a realização da crítica a que se propõe. Nenhuma opinião contrária. Afinal, se Ives Gandra falou…

Pelo visto, o debate mais sério vai ficar para os blogs e comunidades virtuais e, caso estes também não consigam equilibrar as emoções (e já há sinais de que não conseguirão), vai ficar mesmo, infelizmente, apenas nas mídias conservadoras, onde o que prevalece é a opinião unilateral dos detentores do aparato informativo – com louváveis exceções – e a representação previamente ensaiada, cuidadosamente montada pelos marqueteiros, na qual a participação popular se resume a alguns poucos depoimentos comprados pelas ruas, exibidos durante a propaganda ‘gratuita’.

Já pensei em responder a algumas dessas mensagens, porém, após refletir por algum tempo, percebi que seria inútil. Geralmente, ninguém está interessado em devolver um spam, mas apenas em passá-lo adiante. Essa é a natureza do spam: seguir em frente. Afinal, quem seria capaz de garantir que, ao devolver uma resposta, aqueles sete anos de sorte conseguidos com o repasse da mensagem original não acabariam convertendo-se em sete anos de azar?

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Analista de sistemas, Uberlândia, MG

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