Sábado, 08 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Facebook não precisa de Wall Street para abrir seu capital

Por Francesco Guerrera em 20/12/2011 na edição 673

Mark Zuckerberg deveria excluir Wall Street da sua lista de “amigos”. O fundador do Facebook já percorreu um longo caminho desde seu quarto de estudante em Harvard, onde a ideia de fazer um site de rede social tomou forma pela primeira vez. Como o Wall Street Journal relatou recentemente, o jovem empresário, apaixonado por abrigos com capuz, pode estar prestes a tornar-se diretor-presidente de uma empresa de capital aberto avaliada em mais de US$ 100 bilhões. Mas primeiro Zuckerberg tem que conduzir sua empresa, com sete anos de existência, por um ritual que já tem 409 anos: uma oferta pública inicial – IPO (a Companhia Holandesa das Índias Orientais fez a primeira abertura de capital em 1602).

Não surpreende que os planos da Facebook Inc. tenham atraído muitos comentários positivos – do tipo “curtir” – de Wall Street. A perspectiva de que a empresa levante cerca de US$ 10 bilhões já no começo de abril provocou uma furiosa corrida entre os bancos de investimento que tentam organizar o negócio. Como de costume, os esforços de Wall Street são impulsionados por uma mistura de dinheiro e testosterona: as robustas comissões vindas de uma abertura de capital tão vultosa, e mais o direito de se gabar – este de valor inestimável – de ter participado do negócio mais quente em várias décadas.

“O fracasso não é uma opção”, foi como um banqueiro resumiu sua tarefa na semana passada. Zuckerberg deveria acabar com o sofrimento desse banqueiro e de seus colegas com um firme “Não, muito obrigado.” Em virtude de seu tamanho, seu modelo de negócio e sua popularidade, a Facebook é um caso raro de empresa que não precisa de Wall Street para abrir o capital. Ela deve aproveitar essa vantagem e abrir o caminho para outras.

Bancos tendem a prejudicar a empresa

Zuckerberg tem duas opções: uma IPO tradicional, em que os bancos distribuem ações aos investidores em troca de uma porcentagem das receitas totais, e o pouco utilizado “leilão holandês”, que elimina os intermediários de Wall Street e aloca as ações conforme o preço oferecido por cada investidor. A maior diferença entre os dois sistemas, além das comissões mais baixas pagas pela empresa em um leilão, é que quando a abertura de capital segue o modelo holandês os bancos não escolhem quem vai receber as ações, dando a todos os investidores uma chance justa e evitando potenciais conflitos de interesses.

Isso é especialmente importante para aberturas de capital “quentes”, como a da Facebook. Como muitas vezes a ação sobe muito nos primeiros dias de negociação, existe a tentação para os bancos de distribuir as ações entre seus clientes favoritos, que podem lucrar se investirem logo no início. A tendência de Wall Street de ser ao mesmo tempo o caçador e o protetor da caça coloca os bancos em uma situação de conflito: eles levam a empresa às bolsas e, ao mesmo tempo, tentam agradar os fundos de hedge e outros grandes investidores.

Jay Ritter, professor de finanças empresariais da Universidade da Flórida, acredita que o método tradicional dá um incentivo aos bancos para fixar uma cotação inicial mais baixa nas aberturas de capital mais disputadas. Sua pesquisa sugere que quando há muita demanda por uma nova ação na bolsa, os bancos tendem a prejudicar a empresa, fazendo-a captar menos do que poderia, para que os investidores possam desfrutar de um grande salto das ações no primeiro dia. A conclusão de Ritter: nas IPOs mais quentes, os bancos deixam “dinheiro na mesa” para que seus investidores favoritos possam recolher.

Advertência para Zuckerberg

Mas se a abertura de capital tradicional é tão falha, por que o leilão holandês foi usado em menos de 30 casos? Duas grandes razões: eles não são para todos e houve o leilão da Google, há sete anos, com resultados não muito brilhantes. Ir a público sem a ajuda de Wall Street dá certo para as poucas empresas que são bem conhecidas, muito respeitadas e com lucros sólidos. Mas a maioria das empresas não é assim.

Em geral, uma firma que aspira a entrar nas bolsas tem que ser “vendida” para os investidores. É aí que entram os bancos, emprestando suas marcas e seus cérebros para convencer os gestores de fundos de que a empresa está pronta para enfrentar o mercado. O leilão tem outro inconveniente aos olhos dos executivos: ao alocar ações para os que oferecem mais, ele aumenta o risco de que a cotação caia no primeiro dia, algo que é tabu para muitos executivos e conselhos de diretores.

A abertura de capital da Google também teve um efeito inibidor. Sua tentativa, tão apregoada, de fazer uma IPO “não convencional” saiu pela culatra em meio a recriminações entre os investidores e os bancos, obrigando a empresa a oferecer sua ação a um preço muito inferior ao que tinha previsto. No entanto, um olhar mais atento à abertura de capital da Google revela que ela foi prejudicada por fatores não relacionados ao leilão, incluindo um mercado de tecnologia em baixa, uma campanha pré-abertura mal conduzida e uma inoportuna entrevista na Playboy com os fundadores da Google que irritou os reguladores.

Isso deveria servir de advertência para Zuckerberg e seus colegas. Mas não deve dissuadi-los de usar a força da Facebook para subverter uma das convenções mais duradouras de Wall Street e dar aos investidores uma oportunidade justa de participar da sua empresa.

Para que usar suspensórios quando um abrigo com capuz serve perfeitamente?

***

[Francesco Guerrera é do Wall Street Journal]

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