Domingo, 09 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Prisão de Nem: o jornalismo entre o real e o aparente

Por Sheila Sacks em 20/12/2011 na edição 673

“… a vida só termina para os mortos (Roberto DaMatta, antropólogo)

Na semana em que as forças de segurança do Rio de Janeiro anunciavam a ocupação da favela da Rocinha, na zona sul da cidade, fatos ainda pouco esclarecidos antecederam e se seguiram ao evento, ocorrido em um domingo, 13 de novembro de 2011. A megaoperação planejada há pelo menos um ano, segundo a subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança, contou com efetivos das polícias federal e estadual, fuzileiros navais e blindados da Marinha, equipamentos sofisticados e agentes infiltrados que se instalaram nas favelas meses antes para mapearam os principais pontos utilizados pelos traficantes de drogas.

Apontado pela polícia como chefe do tráfico de drogas da favela da Rocinha, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, de 35 anos, tinha essa atribuição desde 2004 quando sucedeu o traficante Luciano Barbosa dos Santos, o “Lulu”, morto por policiais do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais). Capturado três dias antes da invasão da Rocinha, escondido no porta-malas de um carro quando tentava escapar do cerco policial, Nem chegou a oferecer R$ 1 milhão por sua liberdade. Três homens o acompanhavam no veículo, que foi parado por policiais militares em uma das saídas da favela por estar com a suspensão baixa. Ao revistar o carro, os PMs encontraram Nem. A Delegacia de Combate às Drogas do Rio fez a estimativa de que o comércio ilegal da Rocinha é um negócio que movimenta cerca de R$ 100 milhões anuais ou quase R$ 2 milhões por semana (“Nem com R$ 1 milhão” – Correio Braziliense, em 11.11.2011).

Maior favela do país, com população estimada em 120 mil moradores, a Rocinha (que agrega as favelas do Vidigal e da Chácara do Céu) também é considerada o mais importante entreposto de drogas da cidade principalmente em relação à venda de cocaína. Em entrevista ao jornalista Gil Alessi, meses antes de sua prisão, Nem revelou que tinha sob sua responsabilidade 300 homens e que todos recebiam salário, inclusive décimo terceiro, e que em caso de prisão ou morte a família recebia pensão vitalícia. Ele também comandava a facção Amigos dos Amigos (ADA) da Rocinha, um grupo criminoso com ramificações em numerosas favelas cariocas (“Conversas com Antônio” – CartaCapital, em 04.12.2011).

Nem negociava rendição

Levado preso para a sede da Polícia Federal do Rio, o traficante prestou depoimento e disse que negociava há cerca de dois meses a sua rendição com a ONG (Organização Não Governamental) Grupo Cultural AfroReggaeque vem atuando como mediadora de conflitos sociais em favelas que envolvem traficantes, viciados e os próprios moradores (“Traficante Nem diz que negociava sua rendição com o AfroReggae há dois meses.” “Bandido revela ainda que faturava R$ 1milhão por mês” – O Globo, em 12.11.2011).

Originária do grupo musical Banda AfroReggae, a ONG criada nos anos 1990 instalou suas primeiras oficinas de música e dança afro para os jovens da favela de Vigário Geral, na zona norte da cidade, e depois expandiu seu trabalho para outras comunidades pobres do Rio. Do objetivo inicial de resgatar, através da música e da arte, as crianças e adolescentes da influência dos traficantes, a instituição ampliou a sua área de atuação e em anos recentes tem trabalhado na ressocialização de presos e foragidos, contando com apoio jurídico de escritórios de advocacia. De acordo com matéria publicada em O Globo, em 29.11.2011, cinco fugitivos do sistema penitenciário voltaram à prisão depois de procurarem a ONG. Eles são acusados de assaltos, homicídios e tráfico de drogas (“Afro Reggae faz mediação e 5 bandidos se entregam”).

O coordenador executivo da AfroReggae, José Junior, confirmou que a entidade negociava a rendição de Nem e que ele manteve contato com o traficante até algumas horas antes de sua prisão pela Polícia Militar. A informação, postada pelo próprio José Junior na rede de microblogs Twitter, foi veiculada um dia depois do subchefe operacional da Polícia Civil do Rio, delegado Fernando Velloso, anunciar que havia uma negociação em curso com o advogado de Nem para a rendição do bandido. “Venho a público esclarecer que os policiais civis estavam em uma missão legítima e legal, que foi autorizada por mim”, afirmou Velloso, justificando a ação dos três policiais que tentaram evitar que o traficante preso fosse levado para a sede da Polícia Federal, como acabou acontecendo. Porém, segundo os policiais federais, o traficante não citou qualquer policial civil na negociação (“Coordenador diz que Nem negociava rendição com AfroReggae”– Jornal do Brasil online, em 12.11.2011).

Sambista executado com oito tiros

A prisão de Nem na madrugada de quinta-feira, 10 de novembro, foi seguida, horas depois, pelo sequestro e assassinato de uma “mediadora de conflitos” do AfroReggae, levada de sua casa em Vigário Geral, na zona norte do Rio, e encontrada morta, com um tiro na cabeça, em um matagal no bairro Campos Elísios, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Tânia Cristina Moreira, 44 anos, trabalhava na ONG há sete anos e fazia parte de um grupo com cerca de 20 pessoas que atua junto a criminosos e traficantes de facções rivais no sentido de diminuir a violência e o confronto nas favelas.

Com um filho preso por envolvimento com o tráfico de drogas, a mediadora teve a casa – que fica a poucos metros da sede da ONG – invadida por três homens que a levaram em um Gol branco, de acordo com a mãe e uma amiga que estavam no local. Nenhum objeto foi roubado e os policiais da Divisão Anti-Sequestro (DAS) disseram acreditar na hipótese de vingança relacionada a algum dos casos em que a funcionária da ONG serviu como mediadora. Mas, a direção do AfroReggae negou que o assassinato tivesse algo a ver com o seu trabalho. Vizinhos contaram que veículos de policiais civis foram vistos nas imediações da casa de Tânia na noite do crime (“Mediadora do AfroReggae é sequestrada e morta no Rio de Janeiro” – Estado de S. Paulo, em 11.11.2011).

Dias depois desse assassinato, um outro crime com características de execução vem a público, desta vez ocupando as primeiras páginas dos jornais cariocas. A vítima, de 32 anos, é o músico e vocalista da banda “Samba Firme”, Carlos Eduardo Mendes de Jesus, o Dudu, filho do coreógrafo e dançarino Carlinhos de Jesus. Assassinado com oito tiros ao sair do “Boteko Carioca”, na zona oeste do Rio, local onde havia se apresentado com a banda, o músico foi atacado por dois homens em uma moto que fizeram os disparos e fugiram. Também nesse caso a polícia disse acreditar na hipótese de vingança, “pela ausência de subtração de pertences e pela ausência de anúncio” (“Polícia investiga se filho de Carlinhos de Jesus foi executado”– O Globo, em 21.11.2011). Um policial militar que teria se envolvido em uma discussão com integrantes do grupo, uma semana antes, seria o principal suspeito de ter assassinado o músico (“PM é o principal suspeito de matar filho de Carlinhos de Jesus, diz polícia” – JB online, em 22.11.2011).

Atentado à bomba

Observa-se que, assim como o AfroReggae está presente na Rocinha e em várias comunidades pobres através de suas oficinas de música e arte, o coreógrafo Carlinhos de Jesus também é padrinho de um grupo da comunidade da Rocinha, que atende 60 jovens de 13 a 26 anos. Eles recebem aulas de dança na academia do artista, no bairro de Botafogo, e aprendem todos os ritmos para se apresentarem em festas de debutantes e outro eventos (“Grupo de Valsa Noite de Encantos e Carlinhos de Jesus” – siteRocinha.org). Por sua vez, a banda de Dudu de Jesus tinha entre seus convidados o cantor e compositor Renato da Rocinha, nascido e criado naquela favela, e que foi durante muitos anos a voz dos “Acadêmicos da Rocinha”, a escola de samba da comunidade.

A criação de grupos musicais, de dança e de arte nas favelas como tentativa de afastar as crianças e os jovens do vício e da possibilidade de envolvimento com o ilícito e a marginalidade que, infelizmente, muitas vezes fazem parte do cotidiano desses adolescentes, tem tido o apoio e a participação de artistas de renome e de ativistas sociais. Em 2008, em reconhecimento ao trabalho desenvolvido nas áreas artística e social, Carlinhos de Jesus e o grupo cultural AfroReggae (José Junior) foram condecorados pela Assembleia Legislativa do Rio (ALERJ): o primeiro com o título de Benemérito do Estado do Rio de Janeiro, e o segundo, com a Medalha Tiradentes, a mais alta condecoração da Casa. Em 2009, a revista Época incluiu José Junior na sua lista anual das 100 pessoas mais influentes do país.

Uma semana após o assassinato do músico, dois homens em uma moto lançaram um explosivo contra carros estacionados em uma via importante da Tijuca, bairro de classe média da zona norte. O atentado ocorreu na madrugada de domingo, 29 de novembro, a 200 metros do batalhão da Polícia Militar e destruiu cinco veículos. No dia seguinte, a polícia prendeu em Bangu, zona oeste da cidade, a 40 quilômetros do ocorrido, dois homens suspeitos de chefiar o tráfico no Morro do Andaraí, comunidade de 13 mil habitantes que fica nos arredores da Tijuca. De acordo com as investigações, os traficantes perderam R$ 6 mil reais mensais com a entrada dos policiais naquela favela, em 2010. (“Incêndio a carros:suspeitos presos” – O Dia, em 01.12.2011).

Rocinha cresceu 23%

A migração dos bandidos das favelas da zona sul da cidade para outras mais distantes do foco prioritário da polícia é um fato que tem sido denunciado por moradores das comunidades das zonas norte e oeste, da Baixada Fluminense e da área metropolitana, que abrange municípios como Niterói e São Gonçalo. do outro lado da Baía de Guanabara. O desembarque de criminosos, traficantes e armamentos em favelas distantes 50 a 100 quilômetros do centro do Rio, muitas delas filiais menores das grandes facções criminosas dominantes no cenário carioca, tem elevado ainda mais os altos índices de criminalidade nessas regiões que contam com um efetivo policial insuficiente observando-se a extensão territorial dessas localidades (“Moradores:dois caminhões-baú levaram traficantes da Rocinha para Belford Roxo” – JB online, em 21.22.2011).

Por outro lado, a distância não tem sido obstáculo para as ações de intimidação e violência dos criminosos que comumente se valem da mobilidade das motos e de mototaxistas ligados ao ilícito para a prática de assaltos e assassinatos em qualquer ponto do estado. Desde a ocupação policial da Rocinha, em novembro, aumentaram os assaltos no local e moradores estão reclamando que cresceu a sensação de insegurança. “O clima é de muito medo, segundo relato de uma moradora, empregada da zona sul do Rio de Janeiro. Moradores estão fechados a sete chaves e apavorados dentro de suas casas.” (“Casas estão sendo assaltadas na Rocinha”JB online, em 13.12.2011). Uma conhecida rede de eletrodomésticos que instalou uma filial na favela, em outubro, teve suas dependências invadidas por assaltantes. O imóvel de três andares foi inaugurado após um investimento de R$ 1 milhão (“Loja de eletrodomésticos é assaltada na Rocinha”– O Dia online, em 13.12.2011).

É importante lembrar que a cidade do Rio de Janeiro, de acordo com os mais recentes dados do Instituto Pereira Passos, órgão da prefeitura, tem 152 complexos de favela e 467 favelas isoladas (em 2009, o mesmo instituto somou 968 favelas), onde vivem perto de 1,1 milhão de pessoas, cerca de 18º da população carioca. Desse total de favelas, 28 estão ocupadas pela polícia que mantém 3,3 mil homens nesses locais. Há poucos meses, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou um estudo onde mostra que algumas das maiores favelas do Rio, na última década, tiveram um aumento de população acima da média da cidade, que foi de 7,9. Somente a favela da Rocinha cresceu 23% (“População das favelas cresceu acima da média carioca” – Estado de S. Paulo, em 01.07.2011).

Mundo do faz de conta

Três semanas após a prisão de Nem, um festejado líder comunitário da Rocinha, agraciado em 2004 pela ONG Sou da Paz pelos seus esforços no desarmamento na favela, é preso acusado de negociar armas para o traficante. William de Oliveira, 41 anos, que foi presidente da Associação de Moradores da Rocinha, tinha bom trânsito nas esferas política e social por sua popularidade entre os moradores – tornando-o uma cobiçada base eleitoral para os candidatos a cargos eletivos- e também pela sua proximidade com os traficantes, um detalhe recorrente “que costuma marcar a atuação de organizações sociais em favelas subjugadas pelo crime” (“O bom moço vendia fuzil” – revista Veja, em 04.12.2011).

Funcionário da Câmara Municipal do Rio, William estava lotado no gabinete da vereadora Andréa Gouvêa Vieira, e ganhava como assessor parlamentar um salário de 5.300 reais. Um vídeo mostrando a negociação de um fuzil de fabricação russa para o traficante Nem, com a participação de William e do ex-vice-presidente da Associação de Moradores da Rocinha, Alexandre Leopoldino da Silva, o Peninha, também exercendo cargo na administração pública, colocou ambos na prisão, ao mesmo tempo em que foram sumariamente exonerados. De acordo com a polícia, o vídeo foi feito por uma moradora , em setembro, e entregue ao titular da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA), Marcio Mendonça (“Vídeo com Nem leva líder comunitário à cadeia” –O Dia, em 03.12.2011).

Em artigo publicado em O Globo, o antropólogo Roberto DaMatta analisa as nuances e as inovações dos papéis sociais, sua falta de coerência institucional, e do mundo de faz de conta presente no comportamento de governantes e figuras públicas: “No teatro, mente-se quando se representa um papel, mas um ministro mentir, um presidente abusar de seu cargo ou um delegado mandar matar não ocorre num palco onde a peça se repete todo o dia e na qual os mortos (que fingem morrer) voltam a viver porque aquilo não é coisa de verdade, mas uma novela” (“Papéis e atores”, em 07.12.2011).

O traficante Nem, confinado desde 19 de novembro em um presídio federal, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul (assim como os três homens de sua escolta), tornou-se figurante de um obscuro “enredo” onde os “atores” dificilmente “morrem”, porque são titulares de papéis sociais “corporativos e outorgados através de uma investidura, ou obtidos por nomeação ou eleição competitiva e liberal”.

Sobra então, para os que estão atrás das grades e para os demais figurantes da bandidagem sob a mira da polícia, a consciência do peso da “vida real”, integralmente assumida no seu dia-a-dia pelos viventes comuns que, ao contrário do que ocorre no teatro, morrem de verdade. Muitos prematuramente, vitimados pela violência e pelo “poder que brutaliza”.

***

[Sheila Sacks é jornalista, Rio de Janeiro, RJ]

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