Sexta-feira, 14 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Corrida global já começou

Por Ethevaldo Siqueira em 10/01/2012 na edição 676

Parece uma utopia, mas existe um país em que a internet de banda larga já está presente em 97% dos domicílios ou residências – além de interligar todas as escolas, hospitais, empresas, museus, laboratórios e repartições públicas.

E mais: oferece uma velocidade média de 50 Megabits por segundo (Mbps), com a melhor qualidade e a preços acessíveis, a US$ 25 (ou R$ 47) por mês, sem qualquer limitação de download. E, acredite, seu governo se antecipa ao futuro e decide investir mais de US$ 24 bilhões (R$ 45 bilhões) para multiplicar cinquenta vezes a velocidade atual de sua internet, para elevá-la ao patamar de 1 Gigabit por segundo (Gbps) até 2013.

Apenas um lembrete: com a velocidade de 1 Gbps, podemos baixar um filme de duas horas, com a melhor qualidade de imagem, em pouco mais de 12 segundos.

Esse país existe, caro leitor. É a Coreia do Sul, que dispõe da rede de banda larga mais avançada do planeta. Para conseguir essa posição única, o governo e as maiores empresas de telecomunicações coreanas decidiram apostar todas as fichas na implantação de uma infraestrutura avançada de banda larga, com mais de uma década de antecedência, para que todos os seus cidadãos pudessem ter acesso à internet mais rápida do mundo, com a melhor qualidade e pelo menor preço.

O país conta hoje com a melhor cobertura nacional de telefonia celular de terceira geração (3G), graças à qual a capital, Seul, supera todas as cidades do mundo em densidade de smartphones e na utilização de recursos de computação móvel e mobile-commerce. Tudo se faz pela internet móvel de banda larga.

O grande objetivo da universalização da banda larga na Coreia do Sul é elevar permanentemente a qualidade de vida, os padrões educacionais e a produtividade da nação. A rede nacional de fibras ópticas do país interliga praticamente todas as cidades, vilas e comunidades rurais, conectando escolas, empresas, hospitais e repartições públicas.

O único país além da Coreia que também investe prioritariamente em banda há mais de dez anos é a Finlândia. Além de seus extraordinários índices de desenvolvimento humano (IDH), a Finlândia foi, em 2009, o primeiro país a votar uma lei que tornou o acesso à banda larga um direito fundamental de cada cidadão, ao lado de outros direitos básicos, como educação, moradia, saúde e alimentação.

Logo em seguida, três outros países – França, Grécia e Estônia – seguiram o exemplo finlandês e tornaram também o acesso à banda larga um direito garantido por lei.

Novo direito

Essa é, aliás, a mesma posição defendida pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), a agência das Nações Unidas para o setor, que propõe a todos os países que transformem o acesso à banda larga em direito fundamental do cidadão, tal a importância que a nova comunicação passou a ter para os seres humanos.

E a boa notícia é que a UIT tem feito um trabalho de âmbito global de conscientização de governos e lideranças nessa área. Seu secretário-geral, Hamadoun Touré, afirma categoricamente: “As tecnologias de banda larga estão transformando profundamente nosso jeito de viver. Por isso, acreditamos que a comunicação não é apenas uma necessidade humana, mas um direito”.

Em mensagem dirigida a todos os países e líderes do mundo, ao final de seminário internacional realizado em outubro de 2011 em Genebra, os dirigentes da UIT conclamavam: “Nós, participantes do Encontro Mundial de Lideranças de Banda Larga, lançamos hoje este desafio aos líderes de todo o mundo, formadores de opinião, dirigentes políticos e industriais, usuários e consumidores, para que acelerem a implantação de infraestruturas nacionais de banda larga, pois elas são vitais para que ninguém seja excluído das novas sociedades globais do conhecimento que estamos construindo”.

Metas e conteúdos

Os documentos divulgados pela UIT propõem que o mundo tenha metas bem definidas para a ampliação da banda larga, a começar do atendimento de, pelo menos, 40% dos domicílios, dos países em desenvolvimento, em 2015.

O grande objetivo da entidade neste novo milênio é incluir cada ser humano nas novas sociedades do conhecimento que estão sendo construídas em cada continente.

Na opinião dos especialistas, as nações têm tudo para ampliar substancialmente o entendimento entre os seres humanos e superar o imenso desafio do desenvolvimento de nossa sociedade global complexa e interdependente. Para eles, a consecução dessas metas ambiciosas, a médio e longo prazos, se torna factível, graças às TICs, as tecnologias da informação e da comunicação (ou ICTs, na sigla em inglês, de Information and Communication Technologies).

“Para que tudo isso se concretize – explica o secretário-geral da UIT, Hamadoun Touré –, é preciso que todos os governos e empresários trabalhem lado a lado, no desenvolvimento de políticas públicas inovadoras, no desenvolvimento de modelos de negócio e de financiamentos capazes de assegurar o acesso à banda larga em escala mundial”.

Touré enfatiza, também, a necessidade de estimular a produção de conteúdos nas diversas línguas locais “e ampliar os benefícios de todos os que contribuem para essa revolução digital”: “Os governos não devem onerar a banda larga nem os serviços de comunicação e informação com tributos desnecessários”. Eis aí um recado oportuno ao Brasil, país campeão mundial de tributação sobre os serviços de telecomunicações, que são onerados com cerca de 43% de impostos.

Os benefícios

As reais consequências e benefícios desse acesso amplo às comunicações de alta velocidade podem ser mais bem compreendidos pela leitura das mensagens dirigidas ao mundo há dois meses pela Broadband Commission, da mesma UIT.

Para essa comissão, “ao abrir novos horizontes para as mentes jovens por intermédio das novas tecnologias aplicadas à educação, a banda larga traz benefícios reais e profundos”. Nos debates de Genebra, as centenas de profissionais de comunicação e de educação delinearam o extraordinário alcance do que já é chamado de revolução da banda larga.

O conhecimento difundido via redes de banda larga – afirmam os especialistas – cria, na verdade, uma nova consciência sobre a importância da higiene e dos cuidados com a saúde. Confere maior poder às mulheres e lhes permite expandir suas oportunidades mediante escolhas genuínas e amplia a muitas famílias as possibilidades de ganhos econômicos, com a elevação dos salários e o retorno de seus produtos e mercadorias.

Há, portanto, sólidas razões para que a banda larga se torna uma prioridade quase obsessiva para muitas nações, desenvolvidas ou emergentes. A cada dia mais líderes e governantes se convencem de que é preciso assegurar aos cidadãos o acesso à internet de alta velocidade e, assim, garantir-lhes o maior intercâmbio possível de conteúdos de informação, de educação e de entretenimento.

Essencial é o conteúdo

O grande valor da comunicação está no conteúdo e não na tecnologia da banda larga ou na infraestrutura da internet. Por isso, a meta a ser perseguida pelos governos, segundo a UIT, deve ser a universalização dos benefícios dessa nova comunicação.

Daí decorre a corrida mundial deflagrada a partir do fim dos anos 1990 pela implantação das redes de banda larga. De lá para cá, o acesso à internet transformou-se em fator decisivo e fundamental de desenvolvimento, não apenas para as sociedades industrializadas, mas muito mais para as economias emergentes, como a dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) e menos desenvolvidas, como as nações africanas.

***

[Ethevaldo Siqueira é colunista do Estado de S.Paulo]

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