Segunda-feira, 03 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Perfis virtuais, luto real

Por Thiago Jansen em 06/03/2012 na edição 684

Em 13 de outubro de 2011, quatro dias após a morte do cofundador da Apple Steve Jobs, o desenvolvedor web e fã do executivo Simon Lau criou um perfil falso no Facebook com uma linha do tempo em tributo à vida de Jobs. No último dia 22, dois dias antes do aniversário do executivo da Apple, a rede de Mark Zukerberg retirou a página do ar alegando que não permite a disponibilização de informações pessoais sobre uma pessoa em um perfil sem que ele seja criado pela própria pessoa ou por alguém com sua permissão (leia também: “Redes sociais oferecem formulários para remoção de perfis”).

O caso do perfil em homenagem a Jobs chama a atenção para o fenômeno oposto e cada vez mais comum na vida daqueles que utilizam a internet como espaço de compartilhamento e exposição pessoal: os perfis virtuais que perduram após o falecimento de seus titulares. Apesar de as redes sociais ocuparem um espaço crescente na vida moderna, poucas pessoas pensam no que será feito de seus espelhos digitais quando suas vidas esbarrarem no inevitável fim. Para especialistas, essa é uma preocupação que precisa se tornar cada vez mais latente em nossa sociedade.

“Atualmente, não existe uma visão legal para a questão dos perfis de falecidos em redes sociais. Muitas vezes, para haver quebra de privacidade ou a retirada do ar de um perfil desses, somente sob autorização judicial”, afirma Ana Amélia Barreto, presidente da Comissão de Direito e TI da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro (OAB/RJ). “Também não acho que tenha que haver previsão legal para isso porque é uma questão delicada e complexa. Cabe aos familiares a iniciativa de mover algum tipo de ação para desativar os perfis por qualquer motivo.”

Equilibrar conforto e angústia

De acordo com a advogada, as pessoas precisam começar a pensar no futuro de seus perfis sociais para evitar possíveis situações desconfortáveis para seus familiares e amigos. “O ideal é que, assim como fazem quando desejam ser cremadas, as pessoas deixem registrado por escrito o que querem que seja feito com suas vidas online após sua morte, ou mesmo que deixem as senhas de seus perfis com alguém de confiança. As pessoas devem pensar nisso para evitar possíveis constrangimentos nesses espaços, como postagens de conteúdos ofensivos ou informações sigilosas por terceiros”, afirma Ana Amélia.

As redes sociais ainda adicionam um novo peso emocional ao processo de vivência do luto em nossa sociedade, o que pode ter um caráter positivo ou negativo para as pessoas próximas ao falecido. Afinal, esbarrar em fotos e mensagens de alguém que se foi pode gerar sentimentos tão diversos quanto conforto e angústia. Foi o que aconteceu com Ângela Paiva, mãe do surfista Rafael Paiva, de 26 anos, que faleceu em um acidente de moto em Bali, em julho de 2011. Nos primeiros dias após a perda de Rafael, Ângela relutou a entrar no perfil do filho no Facebook, com medo da dor da saudade. Entretanto, ela acabou cedendo à curiosidade e encontrou conforto nas mensagens de carinho que os amigos de Rafael deixaram em seu perfil.

­“Fiquei muito emocionada com a quantidade de mensagens de carinho que foram deixadas no mural do meu filho. Sabia que ele era amado, mas não sabia que era tanto”, afirma Ângela, que admite ter levado algum tempo para aprender a equilibrar a mistura de conforto e angústia causada pelas visitas ao perfil de Rafael. “Em um primeiro momento, foi complicado porque visitava sempre a página dele e isso já estava se tornando algo obsessivo. Foi preciso aprender a me policiar e a me adaptar à situação.”

Um assunto que ainda é tabu

Apesar de ter a senha e o login do filho no Facebook, Ângela preferiu preservar o perfil de Rafael para manter as mensagens enviadas por amigos. Já a produtora editorial Luisa Pinheiro optou por encerrar a conta de sua mãe, Basília Pinheiro, no Orkut, logo após seu falecimento, para evitar inconvenientes. “Algumas pessoas que eu não queria estavam chegando a mim por meio do perfil dela. Além disso, pessoas que têm a mania de postar mensagens piscantes com desejos de felicidade em murais continuaram fazendo isso no perfil dela, completamente alheias ao que tinha acontecido. Isso me irritava um pouco”, conta Luisa. “O que importava mesmo dela era o físico e o que vivi com ela, não o online.”

A psicóloga Kelly Simões, PhD na temática de cuidados paliativos e do luto, atesta que a questão das redes sociais já é um assunto comum nos consultórios de psicologia no momento de se abordar a perda de um parente ou amigo. “Como as redes sociais são uma parte cada vez maior de nosso cotidiano, estar em constante contato com fotos e mensagens de falecidos nesses sites pode trazer um grande sofrimento para as pessoas próximas a eles. E como encerrar um perfil desses ainda não é algo tão rápido, esse processo pode ser mais um grande desgaste emocional”, afirma Kelly Simões. Para ela, o fato de as pessoas ainda não pensarem no que será feito de seus perfis digitais em um eventual falecimento reflete o quanto esse assunto ainda é um tabu. “Ainda não conversamos tanto quanto deveríamos sobre a morte e acabamos não nos preparando para ela. É importante que esse assunto seja natural, para que possamos viver melhor”, recomenda a psicóloga.

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Formulários para remoção de perfis

Atentas a possíveis inconveniências quanto aos perfis ativos de pessoas falecidas em seus sites, as próprias redes sociais costumam prever essa situação e oferecem alternativas para os familiares que quiserem retirar do ar a página de um ente querido que tenha morrido. Cada rede tem seu método de requisitação e o tempo de avaliação do pedido varia de acordo com a rede e com cada caso.

Facebook

Desde 2009, após a morte de um de seus empregados, a rede social oferece duas opções: a retirada do ar da página da pessoa que morreu; ou a transformação do perfil em memorial. Na primeira opção, a conta da pessoa é retirada do Facebook e todas as suas informações deixam de existir na rede social. Já na segunda opção, o perfil torna-se acessível somente para aqueles que tinham adicionado a pessoa como amiga. Nos dois casos é necessário a solicitação dos familiares por meio de um formulário e do envio de documentos comprovando a veracidade do falecimento. Com tudo comprovado, as providências são tomadas (facebook.com/help).

Orkut

A Google, empresa responsável pela rede social Orkut, disponibiliza em sua página de ajuda um formulário para que familiares e amigos possam requisitar a remoção do ar do perfil de uma pessoa falecida. A rede também exige que o requisitante anexe no formulário a certidão de óbito do dono do perfil. Caso sejam necessárias mais informações sobre o caso, a equipe do Orkut se compromete a entrar em contato com o requisitante em até três dias úteis (support.google.com/orkut).

Twitter

O Twitter também prevê que parentes de um falecido tirem seu perfil do ar. O pedido deve ser enviado à equipe da rede social por e-mail (privacy@twitter.com), fax (415-222-9958) ou correio (795 Folsom Street, Suite 600, São Francisco, CA94107). O Twitter pede o nome completo, contato e grau de parentesco do requisitante com o falecido; o nome de usuário da conta ou o link do perfil a ser retirado do ar; e um link com um obituário público ou um artigo de jornal sobre o falecimento (support.twitter.com/articles).

Google

Em casos raros, a Google também permite que parentes tenham acesso ao conteúdo da conta de Gmail e da rede social Google+ de falecidos, desde que sejam representantes autorizados. Neste caso, a solicitação é feita em duas etapas por sua página de ajudae é um pouco mais trabalhosa e demorada que nas outras redes sociais. A Google esclarece que mesmo com o envio de todas as informações requisitadas por ela, a empresa não garante que seja possível o acesso à conta da pessoa falecida.

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[Thiago Jansen, do Globo.com]

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