Sexta-feira, 05 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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A revista que conseguiu voar

Por Matías M. Molina em 13/03/2012 na edição 685

Assim como o besouro, que pelos princípios da aerodinâmica não poderia voar, mas voa, a revista satírica inglesa Private Eye não poderia existir pelos padrões dos modernos consultores de mídia, mas completou no ano passado meio século com invejável saúde.

A apresentação gráfica é chocantemente pobre e antiquada. A revista é impressa em papel-jornal da primeira à última página. Ao contrário da maioria das publicações, que cada vez aumentam mais o tamanho das letras, dos títulos e das ilustrações, Private Eye é composta em um corpo minúsculo, com uma enorme variedade de tipos e uma largura sempre variável das colunas. Como ilustrações, prefere os desenhos, e quando publica fotografias raramente têm mais de uma coluna de largura. O design, simplório mas fácil de ler e manusear, já foi comparado ao de um gibi para crianças. O número de páginas raramente passa de 32 ou 36.

Aparentemente, ninguém na revista ouviu falar em “renovação de imagem”, “reposicionamento” ou qualquer outra expressão dos especialistas de mídia; se ouviram, não prestaram atenção. É necessária muita atenção para perceber diferenças entre um exemplar atual e um de décadas atrás. As seções são quase todas as mesmas, com idêntica disposição ao longo da revista; a principal mudança é, talvez, um discreto uso da cor. A revista faz questão de preservar a aparência da produção amadorística que é sua marca registrada.

Numa involuntária concessão à modernidade, o lay-out final das páginas é feito em computador, em lugar de serem montadas com cola e depois fotografadas, pois a União Europeia proibiu o uso de cola por motivos de saúde e segurança.

Apelidos irônicos

E, para fundir a cabeça de qualquer um, a revista não tem jornalistas de tempo integral na redação, nem sequer o editor. Todos têm outros empregos. A publicação é quinzenal e na semana antes de ser impressa é que a equipe se reúne, discute e, por verdadeiro milagre, consegue preparar a edição dentro do prazo.

Private Eye também contraria a norma básica de que uma publicação tem que ser de fácil compreensão para os leitores. Funciona como uma espécie de clube fechado que usa expressões só acessíveis aos já iniciados. Quando escreve que alguém está “cansado e emocionado” quer dizer que está completamente bêbado. “Uganda discussions”, expressão para relações sexuais, surgiu quando, num festa, alguém perguntou sobre um diplomata africano e uma conhecida jornalista, e ouviu que estavam “discutindo sobre Uganda”. O jornal The Guardian é The Grauniad, pelos erros de revisão.

Por sua alegada inclinação à bebida, o apresentador de TV Reginald Bosanquet era Reggie Beaujolais, o colunista político Alan Watkins é Watneys, uma marca de cerveja, e a viscondessa Rothermere era Bubbles (borbulhas), numa referência ao champanhe. Edward Heath, ex-primeiro-ministro, era The Grocer (O quitandeiro) e Margaret Thatcher, The Boss. O político David Owen, médico, Dr. Death; Marijuana Faithful, a cantora e namorada de Mike Jagger, Marianne Faithful; a escritora Lady Antonia Fraser, mulher de Lord Fraser e amante do teatrólogo Harold Pinter, antes de casar com ele, Lady Magnesia Freelove. Os repórteres são com frequência conhecidos como “Lunchtime O’Booze”, algo como “Boca Livre”.

Irreverente e muito atrevida

Apesar de suas idiossincrasias, ou talvez por causa delas, aos 50 anos Private Eye não tem problemas circulatórios: vende mais de 200 mil exemplares, tanto quanto The Economist no Reino Unido. O preço na banca, de 1,50 libra esterlina, é suficiente para cobrir os custos, o que permite à revista não depender da publicidade; tem apenas uma ou duas páginas de anúncios no começo e três ou quatro no fim, nunca no meio das matérias.

O meio século da Private Eye foi bem comemorado no fim do ano passado. Houve uma exposição das principais capas, charges e ilustrações no Victoria & Albert Museum. Um dos repórteres, Adam Macqueen, preparou um livro publicado pela própria Private Eye, mas, ao contrário da pobreza franciscana das edições da revista, a obra, de grandes dimensões e capa dura, é profusamente ilustrada e bem impressa em papel caro. Esgotou rapidamente. Num mercado paralelo, o preço chegou a 68,99 libras para entrega no Brasil. Uma segunda edição está a caminho. O livro não conta cronologicamente a história da Private Eye; registra por ordem alfabética, de A a Z, informações sobre a revista e seus colaboradores. Como dizem os ingleses, é um coffee table book, feito tanto para impressionar as visitas como para ler e ver.

O que explica o êxito da Private Eye? É difícil dizer. Mais fácil é mostrar como é.

É uma revista irreverente e de humor. Talvez mais irreverente do que bem-humorada, e muito atrevida. Ninguém está a salvo de suas estocadas. Em lugar de balas de canhão contra suas vítimas, Private Eye prefere usar flechas envenenadas. Funciona como uma metralhadora giratória, que atira para todos os lados: a família real, o governo, a começar pelo primeiro-ministro, todos os partidos políticos, sejam de centro, direita ou esquerda, as grandes empresas, bancos, escritores, motoristas, advogados, juízes, artistas, jornalistas – principalmente jornalistas, inclusive os colaboradores da própria revista.

“Minha força está no detalhe”

Apesar do aparente desleixo, tem forte apelo para os profissionais de uma grande variedade de atividades. Em cada edição, há espaço para seções fixas sobre a imprensa, política, o parlamento, medicina, negócios agrícolas, ferrovias, televisão, livros e editoras, música, ecologia, arquitetura e urbanismo, governos locais, finanças etc. O foco oscila entre a denúncia de escândalos e a divulgação de informações embaraçosas que muita gente preferiria manter em sigilo. Cada seção é feita por um especialista, que assina com pseudônimo, para garantir sua integridade física.

Além dos colaboradores fixos, a revista recebe informações exclusivas de jornalistas cujos meios não se atrevem a publicá-las por serem demasiado “quentes”. A qualidade das informações é desigual. Nem sempre o material recebido é verificado e podem ser encontrados erros factuais.

As seções do fim da revista são feitas com mais cuidado. Principalmente, “In the City”, escrita durante 42 anos por Slicker, pseudônimo de Michael Gillard, extremamente precisa e leitura obrigatória na área financeira: pelo Banco da Inglaterra, pela Bolsa de Valores de Londres e pela Securities and Exchange Commission dos Estados Unidos, por diretores e analistas de bancos, corretoras, fundos e seguradoras. Slicker alertou sobre escândalos que somente anos mais tarde fariam as manchetes do resto da imprensa. “Minha força está no detalhe, uma esmagadora quantidade de detalhes”, diz ele. Mas é preciso uma publicação com muita coragem para publicar sua coluna. Ele era jornalista do Daily Express e foi demitido por levantar informações sobre as relações políticas comprometedoras de um poderoso empresário amigo do dono. Guillard diz que escreve para profissionais, mas sem jargão, de maneira que os leigos também podem acompanhar suas matérias – fazendo algum esforço.

Anunciar era prova de mau caráter

Em cada edição desfila, para deleite dos leitores, uma curiosa coleção de rufiões, aproveitadores, estúpidos, ingênuos e deslumbrados. Parte da informação que publica é correta; outra, nem tanto, mais divertida do que factual; parte é irrelevante e parte, interessante. É como se em algumas páginas o objetivo fosse divertir, sem preocupação com os detalhes, e em outras, informar. Entre as seções de maior atração estão as cartas dos leitores, que podem ser mais bem-humoradas, melhor informadas, mais maliciosas e melhor escritas que os artigos da revista.

É influente, lida e temida. Numa entrevista com um alto funcionário do Tesouro, a primeira coisa que ele disse a um pequeno grupo de jornalistas foi: “Não acreditem no que Private Eye publica hoje” – embora presente, não lembro qual era o assunto. Era de manhã cedo, a revista mal chegara às bancas e ele já a tinha lido.

Private Eye atraiu inimigos de todos os tipos, sem distinção de raça, cor, classe social ou religião. Foi processada centenas de vezes. Suas vítimas alegam injúria e intenção maliciosa, às vezes com bons motivos, e frequentemente os tribunais concordam. Para prevenir-se contra novas ações, tem um advogado especializado em crimes de injúria e difamação que lê as edições antes da impressão. Mas nem sempre isso é suficiente. Com frequência, a revista consegue comprovar, com testemunhas e provas documentais, a veracidade de suas informações e é condenada do mesmo jeito. Robert Maxwell, dono de vários dos maiores jornais ingleses, que, como transpareceu depois de sua morte, desviou centenas de milhões de libras do fundo de pensão dos funcionários, ganhou vários processos contra Private Eye, que divulgara dados corretos. Quando um estudante processou seu senhorio, que o agredira quanto soube que ele anunciava nos classificados da revista, o juiz sentenciou que o fato de anunciar na Private Eye era uma prova de seu mau caráter e, portanto, seu testemunho não tinha validade.

A mesma amante

São normais os acordos entre as partes, antes do julgamento, pelos quais a revista paga uma quantia, geralmente simbólica, mas divulgada como uma “vultosa indenização”, e publica um pedido de desculpas, afagando assim o ego do reclamante. Raramente há um pingo de sinceridade nos pedidos de desculpas. “O fato de que sejam publicados em nossa revista não significa que acreditemos neles”, declarou um repórter ante os tribunais. Um ex-editor, Richard Ingrams, justificou que, em algumas circunstâncias, a revista era forçada a pedir desculpas publicamente, “mas isso não significa necessariamente que eu acredite que o artigo esteja errado”.

Aparentemente, os júris e os juízes deixavam na rua seu senso de humor quando entravam no tribunal. Um argumento da Private Eye para reduzir o valor das indenizações é que, se a parte injuriada pedir demais, poderá ficar sem nada, pois a revista iria à falência.

Jornalistas estão entre os alvos preferidos. Muitos deles, com extrema sensibilidade e pele extrafina, apesar de assumirem o papel de críticos da sociedade, não suportam serem criticados. Metade dos processos contra a Private Eye parte de jornalistas. Harold Evans, ex-editor do “Sunday Times”, escolhido recentemente como o melhor editor britânico de todos os tempos – título obviamente exagerado –, era chamado dame Harold Evans. O motivo é que uma famosa atriz, Edith Evans, tinha recebido o título nobiliário de dame. Dada a conhecida vaidade do jornalista, Private Eye passou a chamá-lo dame; ocasionalmente, o jornal era The Sunday Dames. Evans ficou furioso e foi à Justiça. A revista, de pirraça, passou a publicar seu nome e “título” repetidas vezes. Evans conseguiu, depois de insistentes processos, que Private Eye se comprometesse a não publicar nada negativo sobre ele – compromisso que efetivamente não cumpriu. “Perdi a conta do número de processos que ele abriu”, disse o editor na época, Richard Ingrams. Evans receberia anos mais tarde o título de sir, o equivalente masculino de dame.

Em episódios menos tensos, Private Eye divulgou que os editores dos mais respeitados jornais dominicais de Londres, The Sunday Times (não era Harold Evans) e The Observer, compartilhavam a mesma amante e que ela era uma prostituta de luxo – fatos que, aparentemente, ambos desconheciam.

Perfil pouco lisonjeiro

Quando foi lançada, em 1961, Private Eye era pouco mais que uma brincadeira de estudantes que lançaram uma publicação datilografada com um investimento de 450 libras esterlinas. Começava a década da swinging London, da Carnaby Street, de Mary Quant e da minissaia, dos programas iconoclastas na televisão; a década em que foi levantada a proibição de publicar o romance O Amante de Lady Chatterley. Um período mais cínico e frívolo. A nova revista, irreverente e atrevida, fazia parte do conjunto. Reuniu alguns dos melhores humoristas e um bom editor, Christopher Booker. No começo, era uma coleção de piadas, cartoons, charges, sátiras e paródias com uma disposição gráfica caótica. Desenhistas, cujos trabalhos, em geral os melhores, eram recusados pela tradicional revista de humor Punch, conseguiam refúgio e publicação na Private Eye.

A revista foi bem-sucedida. Foi processada pela primeira vez em 1962, quando se referiu a um obscuro escritor como “Wilson Qual é Seu Nome, o pouco conhecido escritor”, e teve que pagar 750 libras como compensação. O primeiro processo sério foi o do filósofo Bertrand Russell, que foi indenizado com 5 mil libras.

Depois de desentendimentos – numa das muitas brigas internas na revista – Booker foi substituído por Richard Ingrams, que seria o editor durante 23 anos. Segundo Ingrams, a grande mudança da revista aconteceu em 1963, quando ele convidou um veterano jornalista, Claud Cockburn, para editar um número. Antigo membro do Partido Comunista, ele publicara na década de 30 uma revista, The Week, famosa pelas informações exclusivas. Cockburn, que morava na Irlanda, aceitou. Ele introduziu o jornalismo na Private Eye. Publicou na capa uma foto do primeiro-ministro, Harold Macmillan, sua mulher e um lorde amigo. Era uma referência encoberta ao longo romance entre os dois últimos, que até então não fora divulgado. Revelou, pela primeira vez, o nome do chefe do MI6, o serviço secreto britânico, e a lista dos amantes da Duquesa de Argyll. Havia também na edição um perfil pouco lisonjeiro de lord Beaverbrook, o mais poderoso barão da imprensa britânica. Mais chocante foi a revelação dos detalhes sobre a morte violenta de um cidadão numa cela da polícia. O assunto foi levado à Câmara dos Comuns e provocou um inquérito policial.

Todos premiados com uma paródia

A partir de então, Private Eye abraçou o jornalismo investigativo, hoje uma de suas principais características. Com Ingrams também começaram as colunas inspiradas no primeiro-ministro de plantão. A primeira foi o “Mrs.Wilson’s Diary”, que pretendia ser o diário da mulher de Harold Wilson quando este chegou ao governo. A paródia comentava, com uma mistura de deslumbramento e ingenuidade, o que acontecia no número 10 da Downing Street, a residência oficial do primeiro-ministro. Era bem-humorada e muito lida, embora a senhora Wilson, uma poeta, disse que ela teria feito melhor: a realidade, vista por dentro, era muito mais divertida. O diário foi transformado em programa de televisão e peça de teatro.

Talvez a mais popular das paródias tenha sido “Dear Bill”, cartas supostamente escritas por Denis Thatcher, marido de Margaret, a primeira-ministra, e dirigidas a um amigo, aparentemente William Deedes, editor do conservador The Daily Telegraph. A caricatura caiu no gosto popular. Dear Bill deu origem a uma peça de teatro, Anyone for Denis, uma versão escrachada da coluna, que foi um enorme sucesso. Denis e Margaret foram ao teatro e depois convidaram o conjunto a uma festa na residência oficial. Todos os seguintes primeiros-ministros, inclusive o atual, David Cameron, foram premiados com uma paródia na revista.

Excesso de irreverência

A visão bem-humorada da Private Eye sobre os habitantes do centro do poder teve seguidores em outras publicações, como o “Diário da Dilma” na revista piauí.

Private Eye alcançou em pouco tempo uma circulação razoável. Mas esteve ameaçada de desaparição quando, em meados dos anos 1970, um empresário ultraconservador e ultramilionário, que dizia não acreditar numa “sociedade transparente”, James Goldsmith, abriu contra ela um processo por difamação criminal, recorrendo a uma lei semiesquecida do século XVI, contra a qual não cabe recurso, e 80 processos contra os distribuidores; muitos deles, assustados, se comprometeram a nunca mais distribuir a Private Eye. A revista e vários colaboradores tiveram que se comprometer a não escrever sobre Goldsmith e seu advogado, o que nem sempre foi cumprido.

Finalmente, as duas partes chegaram a um acordo. Embora bastante desfavorável para a revista, garantiu sua sobrevivência. Mas o evento acabou com as ambições políticas de Goldsmith, além de impedir que comprasse vários jornais ingleses; seus processos contra Private Eye macularam sua imagem, atrairam a hostilidade da imprensa, e ele teve que recuar. Foi premiado, porém, pelo primeiro-ministro Harold Wilson, inimigo da revista, com o título de sir. E ganhou os apelidos de sir James Goldfinger, Goldenballs e Huevos Oro.

Anos depois, foram revelados detalhes comprometedores sobre negócios de Goldsmith que a Private Eye tinha começado a divulgar; os processos, acredita-se, foram uma cortina de fumaça para desviar a atenção.

Depois de 23 anos, Ingrams cedeu seu lugar como editor a Ian Hislop, então um jovem colaborador, provocando a revolta dos outros jornalistas. Hislop acaba de completar 25 anos no cargo, exatamente metade da idade da revista. Nesse período, Private Eye continuou incomodando muita gente e fazendo as delícias dos advogados de Londres.

É improvável que o autor do livro, Adam Macqueen, tenha o mesmo destino que seus antecessores. Patrick Marnham, um colaborador, escreveu The Private Eye Story, uma história semioficial, a pedido de Ingrams, que alterou parte do texto; a obra foi um best seller, mas Marnham foi defenestrado pelo excesso de irreverência. Peter McKay foi outro colaborador que, depois de publicar Inside Private Eye nunca mais colaborou. Macqueen não deverá ter problema com seu emprego por causa desta obra. Não é que falte malícia e algum veneno, ou que deixe de lavar roupa suja para divertimento do público, mas é mais bem comportado que os anteriores.

***

[Matías M. Molina é autor do livro Os Melhores Jornais do Mundo, em segunda edição]

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