Quarta-feira, 27 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Anonymous tende a voltar às origens

Por Guilherme Celestino em 20/03/2012 na edição 686

Especialista em reputação na internet e ativismo on-line, Nicolas Danet escreveu o primeiro livro que trata o movimento ativista-hacker Anonymous de maneira exclusiva, em coautoria com Frédéric Bardeau em 2011.

Anonymous: Peuvent-ils Changer le Monde?(Anonymous: Será que eles podem mudar o mundo?, em tradução livre) faz um histórico do movimento, do surgimento dos hackers até a virada política com os movimentos “Ocupe” e o WikiLeaks.

Neste ano, o grupo fez seu maior ataque: derrubou as páginas do Departamento de Justiça dos EUA, da gravadora Universal Music e outras em repúdio ao fechamento do site Megaupload.

O Anonymous também atuou no Brasil em fevereiro, intervindo em sites de bancos e, mais recentemente, tem sido apontado como autor de um ataque a contas de e-mail do ditador sírio, Bashar Assad. Em entrevista à Folha, Danet fala sobre as prisões das lideranças do movimento no mês passado e sobre o futuro do Anonymous.

Quais as diferenças entre o Anonymous, “engajado”, e os hackers comuns?

Nicolas Danet – O Anonymous nasceu da cultura hacker. Entre os seus valores estão a internet livre, não regulamentada, a livre circulação de informação, a ausência de hierarquia e o anonimato.

Os hackers têm uma cultura e são engajados, não foi preciso esperar o Anonymous para vê-los agirem politicamente.

Um exemplo é o de 1999, nas manifestações antiglobalização em Seattle, quando os hackers do grupo “Eletronic Disturbance Theatre” se mobilizaram pela internet para apoiar os manifestantes que protestavam nas ruas.

Aqui não estamos falando de hackers no sentido de “piratas virtuais”, que roubam senhas de cartões de crédito.

Além disso, apesar de encontrarmos muitos hackers no Anonymous, também há pessoas sem competência técnica que se reconhecem nas ideias do movimento.

O que mudou nas ações do Anonymous após os movimentos “Ocupe” de 2011?

N.D. – Durante 2011, o Anonymous se concentrou em combates mais politizados, como o WikiLeaks, as revoltas árabes e o movimento “Ocupe Wall Street”, mostrando uma permeabilidade em temas atuais e também renovação em relação às formas clássicas de militância e ativismo.

No caso do “Ocupe”, a primeira coisa importante é considerar a proximidade dos seus valores. Os “99%” [como se intitulavam os membros do “Ocupe”] e as bandeiras que representam o Anonymous não são muito diferentes.

De um lado, houve pessoas do “Ocupe” usando a máscara de Guy Fawkes [1570-1606,revolucionário cristão que tentou implodir o Parlamento britânico; inspirou a HQ e o filme V de Vingança], símbolo do Anonymous, para se manifestar nas ruas.

De outro lado, membros do Anonymous que apoiam o “Ocupe” forneciam ao movimento material em imagem e vídeos para difundir a mensagem.

O apoio ao “Ocupe” é representativo da democratização do Anonymous e da sua conexão cada vez mais frequente com o real. É interessante notar que as reivindicações usando máscaras de Guy Fawkes são contra um poder igualmente anônimo, o mercado financeiro.

Qual a ligação entre o Anonymous e o WikiLeaks?

N.D. – Julian Assange, fundador do WikiLeaks, é um ex-hacker. Ele vem do espaço cibernético, assim como o Anonymous.

Os dois evoluíram do rastreamento na internet ao rastreamento da informação. No fim, eles defendem as mesmas coisas: a possibilidade de anonimato e a livre circulação de informação.

Essa proximidade provocou uma onda de solidariedade na internet quando o governo americano impôs, em 2010, ao Paypal, Visa e Mastercard o fechamento das contas do WikiLeaks.

Foi nesse momento que o movimento Anonymous tomou amplitude pela primeira vez posicionando-se em assuntos políticos.

O que representa a detenção dos líderes do grupo no começo do mês?

N.D. – Não é a primeira vez que vemos o aparecimento dessa oposição. Nos anos 1990, a operação Sundevil tentou capturar hackers. O resultado foi um aumento no número de hackers.

É preciso dizer que as penas são severas em relação ao dano causado, provando que há um medo e um desconhecimento do universo da cultura hacker por parte dos governos.

Seria interessante que um dia escutassem as reivindicações do espaço virtual, cada dia mais popular.

Difícil saber como o Anonymous vai reagir. O problema é que algumas pessoas ficaram muito visíveis.

As prisões não significam que o Anonymous tenha chegado ao fim. Mas as pessoas por trás do grupo certamente voltarão às origens do Anonymous, ou seja, a ausência de um líder ou porta-voz.

***

[Guilherme Celestino, colaboração para a Folha de S.Paulo]

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