Quinta-feira, 28 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Ser real não basta

Por Amir Labaki em 20/03/2012 na edição 686

Afinal, o que é um “documentário”? Às vésperas da abertura da 17ª edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, que se inicia na próxima semana em São Paulo e no Rio, duas produções audiovisuais que nada têm a ver com o evento recolocaram a questão na semana passada. Desde o dia 5/03, mais de 70 milhões de pessoas assistiram pela internet (www.kony2012.com, YouTube, Vimeo) a Kony 2012, realizado por Jason Russell para a ONG americana Invisible Children. Quem é Kony, muito mais gente já sabe. E 2012 é o prazo de validade para a campanha desencadeada agora.

Joseph Kony é um criminoso de guerra ugandense que durante duas décadas disseminou terror, sobretudo entre milhares de crianças e adolescentes de Uganda, ao sequestrá-los para sua guerrilha privada, o Exército de Resistência do Senhor. O destino das meninas é tornarem-se escravas sexuais. O dos meninos, servir à guerrilha pessoal de Kony, matando os próprios pais e matando ou mutilando o rosto dos opositores.

A Corte Internacional Criminal, dirigida por Luis Moreno Ocampo, desde 2005 colocou Kony no topo da lista de procurados por crimes contra a humanidade. No fim do ano passado, depois de oito anos de lobby da Invisible Children, o governo Obama enviou à África Central o primeiro contingente de tropas para aconselhar e dar assistência ao exército de Uganda na busca e captura de Kony, em fuga em local ignorado para além das fronteiras nacionais.

A campanha presidencial de Obama

Kony 2012 aposta agora nas mídias sociais para aumentar a pressão por sua captura, tornando planetária a campanha ao tirar Kony do anonimato. Para tanto, aposta em tentar envolver na iniciativa 20 personalidades da cultura – Oprah Winfrey, Angelina Jolie e George Clooney estão entre os “eleitos” – e dez políticos – de Bill Clinton a Bush Jr., passando pela ex-secretária de Estado dos Estados Unidos Condoleezza Rice e pelo senador democrata John Kerry. Sim, quase todos americanos.

Kony 2012 recorre a instrumentos do cinema não ficcional, como o depoimento de um garoto que escapou da tropa de Kony, o envolvimento do próprio filho de Jason e reencenações, para estruturar sua peça de ativismo digital. Está, contudo, mais perto de uma esticada peça publicitária, herdeira de campanhas da Benetton ou da Nike, do que de um documentário. Como vídeo motivacional, classificado como “brilhante” pelo crítico Peter Bradshaw, do Guardian, não se distingue tanto de outro “infomercial” cívico também tornado público recentemente.

A campanha presidencial de Barack Obama, em luta por um novo mandato, acaba de lançar O Caminho Que Trilhamos (The Road We've Travelled), vídeo de 17 minutos apresentado como o novo “documentário” de Davis Guggenheim, o cineasta premiado com o Oscar por Uma Verdade Inconveniente. Apuro gráfico, trilha enaltecedora, edição nervosa, depoimentos exclusivos, imagens dramáticas, muito do arsenal mobilizado por Davis em seus filmes anteriores também estão aqui. Entrevistado por Piers Morgan em seu talk show na CNN, Davis afirmou que a única coisa negativa que encontrou foi a dificuldade em concentrar em tão curta duração todas as realizações de Obama no primeiro mandato. Ele dedicou quatro meses à produção. Davis não hesitou em pôr em xeque sua credibilidade ao equiparar às suas obras anteriores a mais longa peça audiovisual de campanha de Obama. Não está sozinho. A narração é de Tom Hanks.

O que é um documentário?

Eis Obama chocado com o legado econômico que receberia de Bush, ei-lo encarando o desafio de bancar uma nova legislação de seguro de saúde diante de um Congresso hostil e cindido, ei-lo assumindo o risco da missão em território paquistanês para eliminar Osama bin Laden, apesar do fantasma da fracassada tentativa similar de seu antecessor também democrata na Presidência Jimmy Carter, que em 1980 viu resultar em fiasco uma missão enviada para libertar os americanos mantidos reféns na embaixada em Teerã. Nada que explique seus altos índices de impopularidade, portanto.

Tudo somado, parece mais fácil distinguir o que não é um documentário, apesar de apresentar-se como tal, do que obras que justifiquem efetivamente a definição. Cada vez parece mais iluminadora uma anedota que a cineasta russa Marina Goldovskaya contou. Ela costuma iniciar seu curso de introdução ao documentário na Ucla perguntando aos estudantes quem sabe o que é um documentário. Ano após ano, inúmeras mãos se levantam e definições as mais variadas são apresentadas. Ao fim do curso, Marina volta a fazer a pergunta. Quando nenhuma mão se levanta, tem certeza de ter feito um bom trabalho.

Leia também

O dilema da imprensa no drama das “crianças invisíveis” em Uganda– Carlos Castilho

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[Amir Labaki é diretor-fundador do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários]

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